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Reportagem
Luz, câmera, imortalidade
Primeiro diretor de cinema a ser eleito para a Academia Brasileira de Letras, o novo imortal Nelson Pereira dos Santos lança seu novo longa no dia 21, e, aos 77 anos e 51 de carreira, diz que quer fazer mais dois filmes e se aposentar
 
O candidato à Presidência e ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ligou para o cineasta paulista (na foto, na praia de Copacabana), dizendo que irá bancar o fardão de imortal, que custa R$ 50 mil
Como se fosse um mero desconhecido, ele vai se apresentando aos funcionários que encontra na Academia Brasileira de Letras, no Rio. “Olá, muito prazer. Eu sou o Nelson, acabo de ser eleito”, diz, orgulho evidente no sorriso escancarado. Poucos dias depois de vencer a eleição para a cadeira número 7 da ABL, no dia 8 de março, a euforia de Nelson Pereira dos Santos estava longe de esmorecer. Aos 77 anos, 51 deles dedicados à arte de dirigir filmes, tornou-se o primeiro cineasta a ocupar um assento na tradicional casa de Machado de Assis. “Gratificante é pouco, é uma honra enorme”, comemora Nelson, que toma posse em julho na vaga do embaixador Sérgio Corrêa da Costa. “Nunca vivi algo parecido.”

Para o presidente da Academia, Marcos Vilaça, a entrada do diretor é sinal de modernidade. “Significa que a cultura, na visão da ABL, tem muitas faces, não só a das letras impressas”, afirma. “A criação cinematográfica do Nelson é um processo cultural relevantíssimo para o Brasil.” Precursor do Cinema Novo, o cineasta produziu 25 longas, entre eles clássicos como Rio 40 Graus (1955). O próximo,
Brasília 18%
, estréia dia 21. Um dos diretores mais importantes do País, ele mantém o jeito simples: é paulista, filho de um alfaiate e uma dona-de-casa. Numa visita à biblioteca da ABL, nenhuma decepção ao constatar que a bibliotecária desconhece sua obra. “Só escrevi um livro, Três Vezes Rio. Mas vou trazer meus filmes, pode deixar.”

A única coisa que o perturba ali é o figurino que enverga: terno e gravata. Para quem gosta de usar bermuda e andar descalço, vestir-se de maneira solene é um suplício. “Tem tanto tempo que não uso este paletó que nem fecha. Gravata, só para ir a Brasília pedir dinheiro para o cinema”, diverte-se. Ele sugere deixar o abafado hall de entrada da ABL e continuar a entrevista em um boteco próximo. Ali, pede chope, come amendoim, tira o paletó e a gravata, arregaça as mangas da camisa.

Mais à vontade, conta que Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo e candidato à Presidência, telefonou para dar-lhe uma boa notícia: vai honrar a tradição e bancar o fardão do novo imortal nascido em seu Estado – algo em torno de R$ 50 mil. “Ele favoreceu muito a área do cinema em São Paulo. E teve coragem de segurar que era candidato, foi e ganhou (a disputa com José Serra).”

Eleitor de Lula em 2002, prefere não revelar se fará o mesmo este ano. “Não tomei nenhuma decisão. Será uma campanha brilhante, estou torcendo como numa boa Copa do Mundo.” Os escândalos de corrupção no governo não passarão incólumes. São o pano de fundo da história de amor que marca Brasília 18%. “Fazer filme em Brasília sem CPI é como fazer filme no Rio sem samba ou tiroteio.” Antes de se aposentar prevê mais dois filmes, entre eles um documentário sobre Tom Jobim. Casado pela segunda vez – com a produtora de cinema Ivelise Ferreira, 33 anos mais jovem –, pai de quatro filhos e avô de cinco netos, planeja se dedicar à família, à bricolagem e à culinária. “Quero não ter nada para fazer, aproveitar a saúde que ainda tenho para curtir a vida.”