Entrevista  
Fotos: Alexandre Sant’anna
“Fiz uma plástica no pescoço porque me vi no vídeo. Tudo que você não vê em casa no espelho, vê na tevê em detalhes. E isso dá um choque”, diz ela
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Joana Fomm
‘‘O papel de mocinha é chato’’
Atriz de vilãs inesquecíveis como Yolanda Pratini, de Dancing Days, e a Perpétua, de Tieta, ela está no ar em Bang Bang e, aos 65 anos, diz que sua crise de idade foi aos 28
texto: Carla Felícia
fotos: alexandre sant’anna

Não é só pelo talento exibido em seus trabalhos que Joana Fomm surpreende. À vontade no sofá de seu apartamento no Rio, a atriz, de 65 anos, destrói com muita simpatia qualquer vestígio das vilãs inesquecíveis que marcaram sua carreira. Cigarro sempre na mão, diverte-se por não saber ao certo há quantos anos encanta o público: “Quarenta e poucos”, diz. De tão desligada, esqueceu seu próprio aniversário, em setembro. Foi lembrada pelo filho, o músico Gabriel, 30, de sua união com o escritor Ricardo Gouveia. No ar em Bang Bang, como a matriarca Viridiana, enfrenta o desafio de conquistar o público fazendo uma mulher do bem.

Fazer uma avó pela primeira vez é um problema?
Não. Se meu filho tivesse levado uma vida normal, casado cedo, já seria avó. Tenho uma birra com ele porque digo que quero ser avó e ele responde que se depender dele posso esquecer. Ele não quer filhos. A coisa que eu mais gostaria no mundo era ser avó, levar meu neto para ver a gravação...

Sente-se bem com o passar do tempo?
É difícil. Meu analista disse que estou em forma. Respondi que cada um sabe o que sente quando envelhece. Não consigo mais pular muro, ou seja, envelheci. Gostava muito disso, de correr, de subir e descer de árvore. Por outro lado, é mais fácil ser feliz mais velho. Você não dá importância a milhares de coisas que você dava antes e que não têm a menor importância. Eu era muito elétrica, ansiosa. Agora não, estou em paz. Você vai aceitando o mundo como ele é. Não que eu tenha ficado babaca, ainda discuto, brigo pelos meus propósitos, mas numa boa, sem ansiedade.

É difícil envelhecer sendo uma atriz?
Fiz uma plástica no pescoço porque me vi no vídeo. A imagem é terrível. Tudo que você não vê em casa no espelho, vê na tevê em detalhes. E isso dá um choque. Mas mesmo assim estou envelhecendo legal. Tem gente que muda o rosto, fica gordo, magro, com raiva, rancoroso. O envelhecimento para mim foi uma abertura, não uma reclusão.

Faria outra plástica?
Adorei o resultado, mas acho que não faria mais. No meu rosto não mexeria, a não ser uma correção, tirar uma gordurinha. Pegar essa cara que estou agora e aumentar o nariz, puxar não sei o quê, para ficar 20 anos mais jovem, aí não. Tenho a impressão de que se eu fizer uma plástica e não me reconhecer no dia seguinte, me suicido. Tem uma hora que você tem que envelhecer, senão fica ridículo. Ou a gente envelhece ou morre. Prefiro envelhecer.

Prefere vilãs ou mocinhas?
O papel de mocinha é chato. É bom fazer a vilã, a peste. As vilãs têm liberdade, podem ser loucas, não precisam ter um comportamento específico. Têm que ser inesperadas, o que é maravilhoso. Já fiz mocinhas também, mas não são os grandes papéis. Tem um site que fala das grandes personagens das novelas e sou eu a única que tem duas na lista: a Yolanda Pratini (de Dancing Days) e a Perpétua
(de Tieta).

Grupos de discussão já influenciaram seu trabalho?
Quando fiz Porto dos Milagres, a classe gostou muito e eu também, mas o povo não. Eu era uma mulher de pescador e aparecia velha, feia e boazíssima. O grupo de discussão achou que o cabelo estava feio, que eu estava mal vestida. Eu e Tonico Pereira, que fazia meu marido, entramos pelo cano. Não queriam que ele fosse barrigudo como tínhamos imaginado. Disse para ele: “Encolhe logo essa barriga, põe a camisa para dentro, que eu vou pentear o cabelo. Vamos fazer o que eles querem”.

Como foi a sua infância?
Eu era um moleque. Era conhecida como peixinho, nadava todo dia desde menina. Depois, comecei a jogar futebol, na praia e em casa. Era a líder, representante da turma, já era feminista sem saber. Odiava quando um garoto dizia que em mulher não se bate nem com uma flor. Ficava tão possessa que batia nele. Minhas brincadeiras eram de moleque, não brincava de boneca. Mas na minha cabeça eu ia ser escritora, isso já estava decidido. Com 15 anos, um namorado me convidou para entrar num grupo de teatro. Fui ensaiar com ele e não deu certo, mas eu resolvi estudar teatro assim mesmo.