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Cinema
Luz, câmera, Dussek

Aos 48 anos, o debochado cantor e compositor estréia na tela grande em Bens Confiscados, interpretando um húngaro, e atua em mais três filmes até o fim de 2005
texto: Mariane Morisawa
foto: Felipe Barra
“No fundo, isso aqui é uma balela. Daqui a pouco cai aquela laje na minha cabeça e já era”, diz Dussek
Eduardo Dussek não é nenhum novato. Mas anda se sentindo como uma starlet sentada à beira da piscina, que baixa sedutoramente a alça da blusa na esperança de ser notada por algum diretor de cinema. Funcionou. O cantor e compositor está estreando na sétima arte com tudo: fez Bens Confiscados, de Carlos Reichenbach, vencedor do prêmio de melhor filme de ficção no 9º Cine PE, e Amigas, de Alberto Salvá, roda neste mês Querô, de Carlos Cortez, e ensaia em junho Federal, de Erik de Castro. “Pelo jeito, eu logo levantei a blusa toda”, gargalha ele.

Normalmente, Dussek interpreta estrangeiros: um húngaro, um alemão, um inglês. “É um carma”, diz ele, descendente de húngaros (a avó materna é parente da estrela Zsa Zsa Gabor, que fez carreira em Hollywood) e de tchecos (o tio era fotógrafo da Atlântida, e o pai fazia
letreiros de filmes). “Mas sou totalmente brasileiro. Costumo falar que nasci negro, mas tomei um
susto muito grande e fiquei branco”, diz, emendando outra piada. “Tem muita discriminação contra os brancos nessa terra. Atualmente, então, é um perigo ser louro de olho azul. Poucos conseguem ultrapassar essa barreira.”

Apesar de ter estudado teatro na década de 70, ele não pensava em atuar no cinema antes de completar 80 anos. Para falar a verdade, sempre teve problemas com sua imagem. Dá para contar os videoclipes que fez. Nem com o irmão, fotógrafo, conseguia relaxar. O desafio foi quebrado nas novelas Floradas na Serra e Xica da Silva. Na última, sofreu nas mãos de Walter Avancini. “Ele exigia loucuras, como discussões e brigas num tom baixinho. Mas aprendi muito. Embora quisesse matá-lo o tempo inteiro”, ri Dussek, que acrescentou um “s” ao nome, por causa do som e da numerologia.

A encanação com a imagem, no entanto, passou. “Grande parte das minhas paranóias foi embora, graças a Deus”, diz ele, muito bem aos 48 anos de idade. “Fala baixinho que o corpo não pode ouvir. É como eu digo: sou jovem há muito tempo”, ri de novo. Uma conversa com Dussek é uma sucessão de quá-quá-quás, dele e de quem está em volta. O compositor precisa se segurar para não exagerar nas brincadeiras, porque acha tudo muito engraçado. Cita o tsunami, sem temer a patrulha politicamente correta. “É uma desgraça. Mas imagine você estar numa praia, num domingo de sol, e de repente vem um edifício de dez andares! Se isso não é uma piada que fizeram com a gente, o que é?”, pergunta ele, que prepara um CD de carreira e um beneficente, com músicas infantis. “Não adianta o ser humano se achar maravilhoso porque vai à Lua, vai fazer genoma, porque ele é uma m...”, afirma Dussek, que, no trabalho, se considera um general meio nazista. Por isso, assume o deboche. “É bom fazer bem-feito, mas, no fundo, isso aqui é uma balela. Daqui a pouco cai aquela laje na minha cabeça e já era”, diz o cantor. Sem drama.