Entrevista  
Morais defende Lula e diz que não pretende mais disputar eleições: “Que cargo público vai me possibilitar trabalhar de tênis,
sem meias e camisa para
fora da calça?”
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Fernando Morais
‘‘Paulo Coelho vai me dar uma boa grana’’
O escritor e jornalista diz que o ego de Washington Olivetto
falou mais alto com o livro Na Toca dos Leões e, agora, se debruça sobre a biografia de Paulo Coelho
texto: Dirceu Alves Jr.
fotos: fernando martinho

Aos 58 anos, Fernando Morais desvendou os mistérios do regime de Fidel Castro em A Ilha, biografou Olga Benário e Assis Chateaubriand e acaba de jogar nas livrarias Na Toca dos Leões, que conta a história da agência W/Brasil e causou desconforto para o publicitário Washington Olivetto. “Ele não conhecia parte da história do seqüestro que sofreu e se sentiu muito exposto no livro”, afirma o jornalista. Entre uma baforada e outra dos quatro charutos cubanos que fuma diariamente, Morais recebeu Gente em seu escritório, em São Paulo, e adiantou detalhes da biografia do escritor Paulo Coelho, que pretende lançar até o final de 2006. Pai da arquiteta Rita, 25 anos, Morais é casado há duas décadas com a historiadora Marina Maluf. “Passo maus bocados com ela. É uma feminista de marca maior”, conta ele.

Como foi o primeiro contato com Washington Olivetto para escrever Na Toca dos Leões?
Em 2001, marcamos um almoço. Somos amigos desde os anos 70, quando Washington era aquele hippie que usava jardineira sem camisa. Falei que gostaria de escrever um livro sobre a W/Brasil. Passei a freqüentar a agência e, em dezembro de 2001, os caras pegaram o Washington. Parei tudo. Na noite em que o Washington foi solto, ele me abraçou e disse: “Compadre, vamos começar a gravar agora! Temos dois livros. Um sobre a W/Brasil e outro sobre o mico”. Até hoje ele sempre se refere ao seqüestro como o “mico”.

Ele sabia que o seqüestro constaria no livro?
Poucos dias depois de libertado, ele foi descansar na Europa.
Aproveitei para ir ao Chile e Cuba apurar a história dos seqüestradores. O Washington voltou para fazer o reconhecimento dos seqüestradores. Foi a primeira vez que ele ficou cara a cara com os seis sujeitos. O Washington entrou em choque, caiu a ficha e pediu para cancelar o segundo livro.

A inclusão do episódio do seqüestro teve o consentimento dele?
Na finalização vi que não podia deixar de fora o seqüestro. Seria uma traição com o leitor. Falei para o Washington que, se eu não publicasse o que tinha apurado, as fontes se sentiriam livres para passá-las adiante. E nas mãos de jornalistas sensacionalistas aquilo causaria um estrago. O Washington me mandou escrever da forma que a achasse melhor e, depois de pronto, ele veria o material.

Mostrou o livro antes da publicação?
Com o Washington tinha que ser diferente. Por questões éticas, abri essa exceção. Ele não mudou uma vírgula, mas não escondeu que se sentia muito incomodado com o resultado.

O que o incomodou tanto?
O ego do Washington falou mais alto. O que realmente o deixou desconfortável foram os trechos do seqüestro. Ele não conhecia a
maior parte da história. Não sabia que era vigiado 24 horas por dia. Todos sabiam quando ele dormia, acordava, chorava, fazia cocô, se masturbava. Ele considerou muita exposição. O Washington não me censurou. Só deixou claro que aquilo não o agradava.

Essa polêmica não seria mais uma estratégia de marketing?
Não acredito. O Washington é um cara (procura a palavra certa,
gagueja um pouco
) diferenciado, singular. É um exibido, adora brilhar com seu trabalho. Se por um lado é esse megalômano, por outro ele é tão inseguro quanto um iniciante. Sempre precisava ouvir uma opinião, sempre pensa que pode fracassar. Ele realmente se sentiu exposto demais com o livro.