Reportagens  

Personalidades do ano 2004

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Filho de um frentista e de uma
dona-de-casa, Aguinaldo nasceu
em Pernambuco e desembarcou
no Rio aos 18 anos com a cara
e a coragem: “Foi muito difícil
chegar onde cheguei sem pisar
no pescoço de ninguém. Me
sinto um vitorioso”, diz ele
Com 26 anos de carreira, Aguinaldo Silva contabiliza em seu currículo 11 novelas, quatro minisséries e um seriado, além de 13 livros publicados. Senhora do Destino atingiu a média de 58 pontos de audiência com picos de 64, o que a transforma na novela das oito de maior audiência nos últimos oito anos. Até 2010 pretende escrever mais três novelas e duas minisséries
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Capa - Personalidade do ano 2004
Aguinaldo Silva

O autor de Senhora do Destino, novela das oito
de maior sucesso desde 1996, se transforma
no grande vitorioso do horário nobre e revela seu
amor pelas artes plásticas, culinária e vinhos
texto: Rosangela Honor
fotos: Leandro pimentel

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Aguinaldo, em casa, onde possui uma coleção
de obras de arte com 80 peças. A última aquisição,
uma escultura do século XIX, custou R$ 77 mil

Na manhã do dia 1º de dezembro, Aguinaldo Silva, 60 anos, manteve a rotina que vem cumprindo à risca desde o dia 28 de junho, data de estréia de Senhora do Destino. Despertou às 5h30, degustou o café da manhã e às 7h estava diante do computador para escrever mais um capítulo da história que se tornou o folhetim de maior audiência do horário das oito desde O Rei do Gado, em 1996. Mas nem tudo seria igual naquele dia. Afinal, às 21h, cerca de 50 milhões de brasileiros estariam perfilados diante de seus televisores assistindo ao ápice do drama da nordestina que passou parte da vida à procura da filha arrancada de seus braços ainda bebê. Aguinaldo estava nervoso. Trabalhou até as 20h10, engoliu um lanche rápido e sentou-se diante da tevê. Assistiu cena por cena e, ao final do capítulo, estava emocionado com o que acabara de ver. “Foi um dia especial na minha vida como profissional. Ali começava outra novela”, diz.

A expectativa do autor de 11 folhetins, entre os quais sucessos como A Indomada, Tieta e Porto dos Milagres, tinha uma explicação. Os índices de audiência acusariam como o público reagira à mais importante cartada do mago da novela das oito. O resultado só veio
na manhã seguinte. Senhora do Destino havia registrado 58 pontos
de audiência com picos de 64, um novo recorde. Aguinaldo experimentou naquele momento um suave sabor de vitória. O escritor que pensara até em abandonar o ofício de novelista depois de sentir o gosto do fracasso com Suave Veneno, em 1999, reinventou sua própria fórmula de contar histórias ao deixar para trás velhos truques como o realismo fantástico e o universo nordestino de suas tramas. “Quis arriscar, me atirei de cabeça para fazer uma novela diferente”, diz. “E, agora, é como se dissesse para mim mesmo: ‘Continuo
vivo e fazendo coisas novas’.”

Mais do que elevar ao máximo a temperatura da audiência, o novelista deixará registrado com Senhora do Destino a ousadia de um homem de vanguarda que nunca teve pudor em dizer o que pensa. Homossexual assumido desde a adolescência, quando experimentou ainda no colégio, aos 14 anos, sua pior história de preconceito – “ a cena foi tão horrível que até hoje não tenho coragem de contá-la ” -- ele ousou ao mostrar ao público, pela primeira vez na história da televisão brasileira, duas lésbicas na cama, com os corpos nus, após a primeira noite de amor. “Tenho consciência de que foi um marco”, afirma. Wolf Maia, que faz seu primeiro trabalho com Aguinaldo, ressalta o fato de o novelista, assim como ele na função de diretor, nunca terem sido tão festejados pela crítica. “Ele é genial. Era uma injustiça não dar a ele a importância que ele tem. Senhora do Destino é unanimidade, um fenômeno no formato novela”, elogia.

Ele gosta de cozinhar e aprecia vinhos. Tem três
adegas e, na maior delas, guarda 600 garrafas.
Sua coleção inclui um vinho do Porto de 1914

O pernambucano que desembarcou no Rio de Janeiro aos 18 anos com a cara e a coragem não esconde a felicidade com o rumo que sua vida tomou desde que deixou a cidade de Carpina. Ao rever sua trajetória e avaliar os obstáculos que precisou superar, Aguinaldo, autor de 13 livros, quatro minisséries e um seriado, entre eles Plantão de Polícia, Lampião e Bandidos da Falange, se emociona. “Foi muito difícil chegar onde cheguei sem pisar no pescoço de ninguém. Me sinto um vitorioso”, diz, ao recordar alguns dos momentos mais difíceis de sua vida como a prisão, em 1968, quando ficou detido por 70 dias depois que a edição do livro Diário de Che Guevara, no qual assinava o prefácio, foi apreendida. “Os militares acharam ofensivo. Fiquei isolado. Eles achavam que eu poderia subverter a cabeça de todos ali.” Também não esquece o processo que sofreu pela Lei de Segurança Nacional, em 1978, por editar o jornal gay O Lampião. “Foi o momento mais difícil de minha carreira de jornalista. Havia uma insegurança total e podia ser preso a qualquer momento.”

O momento delicado, porém, não chegava a surpreendê-lo. Aguinaldo Silva sempre foi um homem sem papas na língua. Talvez por isso, sua carreira de jornalista não tenha sido tão vitoriosa quanto a de novelista. Embora tenha colhido bons frutos na profissão, como o primeiro prêmio Abril de jornalismo com a reportagem Os Homens de Ouro da Polícia Carioca, nunca chegou a exercer um cargo importante em O Globo, onde trabalhou durante anos. “Eu falava abertamente de minhas preferências, não escondia nada e não era discreto”, conta. “Não era confiável para exercer um cargo de chefia”, avalia.

Nascido numa família humilde – pai frentista e mãe dona-de-casa – Aguinaldo demonstrou cedo interesse pela literatura e pelas artes. Aos 14 anos gastou boa parte de seu primeiro salário comprando livros. Mas é pelas artes plásticas que tem um fascínio que não consegue explicar de onde surgiu. Desde a juventude, um de seus programas preferidos é ir a museus. “Fui apurando o gosto e resolvi me especializar no assunto”, conta ele, que conhece profundamente as obras datadas do período entre 1870 e 1930. Também se tornou um colecionador exigente. A confortável casa onde mora, num condomínio de luxo da Barra da Tijuca, abriga cerca de 80 peças. “Gosto de sentar no sofá com as luzes acesas e ficar apreciando minhas obras de arte.”

Tanta admiração já fez com que o novelista fosse a Paris exclusiva-
mente para visitar uma exposição. Sua aquisição mais recente e pela qual fez seu maior investimento nos últimos anos – R$ 77 mil– é a obra Rumo ao Desconhecido, assinada por Colinet, uma escultora francesa do século XIX. “Daqui a cinco anos quero abrir uma fundação para abrigar todas as peças”, revela. Uma de suas obras preferidas é um escaravelho que se tornou amuleto. “Ele sempre fica em frente a minha mesa de trabalho”, conta.

A arte não é a única paixão de Aguinaldo. Os momentos difíceis pelos quais passou quando chegou ao Rio fizeram com que ele cultivasse outro hobby: a culinária. “Foi fazendo macarrão com mortadela que me tornei excelente cozinheiro”, brinca o novelista, que prepara diariamen-
te o jantar para ele e Fabrício, o companheiro que define como amigo. Desde a estréia da trama, período em que desfruta de pouco tempo para preparar as iguarias, ele tem se especializado em risotos e mas-
sas. “Preparar o jantar diariamente é uma espécie de ritual.” O gosto pela boa comida despertou no escritor o desejo pelos vinhos. Ele mantém adegas em suas duas casas, no Rio e em Itaipava, na região serrana, e no escritório. “A maior tem espaço para 600 garrafas”, diz, orgulhoso de sua coleção que inclui um vinho do Porto de 1914.

Poder desfrutar de prazeres como estes e saborear diariamente o sucesso de Senhora do Destino deram a Aguinaldo Silva um frescor de iniciante. Contratado da Globo até 2010, ele escreverá mais três novelas e já tem na manga dois novos trunfos: duas minisséries, Bandidos da Falange II, uma radiografia do tráfico do Rio no momento atual, e Noites Cariocas, que se situará entre os anos 1960 e 1964. “Quero falar do instante final da Cidade Maravilhosa, do Beco das Garrafas e do auge da Bossa Nova”, adianta ele, que após 26 anos de profissão somente agora se sente abençoado pela crítica. “Não foi o Aguinado quem acertou. Foi a novela que atropelou todo mundo, o público e os críticos”, diz o autor.

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