14 de fevereiro de 2000
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Testemunhas do Século - Gastão de Figueiredo, 89 anos

Sete fôlegos em nove décadas
Tetracampeão mundial master de natação, comerciante treinava na praia porque não havia piscinas e agora quer dar a volta na ilha de Manhattan em 24 horas de braçadas

Viviane Rosalem

Foto: André Durão

Todos os dias, pela manhã, o menino Gastão Mariz de Figueiredo, então com 4 anos, ia com o pai, o advogado Antônio Antunes Figueiredo, para a praia de Icaraí, em Niterói, no Rio de Janeiro, e ficava uma hora dentro da água para reforçar a musculatura. Vítima de paralisia infantil, ele tentava, nas aulas de natação, recuperar os movimentos, seguindo as recomendações do seu médico, Antônio Pedro, que hoje dá nome ao maior hospital de Niterói.

"Ele também me receitou um caldo de frutas, no qual misturava de pitanga a caju e banana, mas eu detestava", conta Gastão. Nas águas da Baía da Guanabara, o menino não só se curou da doença como adotou a natação como esporte, que o consagrou tetracampeão mundial na categoria master.

"Aos 10 anos, participei da minha primeira competição pelo Clube de Regatas Icaraí", lembra o atleta, que hoje, aos 89 anos, guarda, além de boas lembranças, cerca de 350 medalhas, a maioria de ouro, conquistadas em diversos campeonatos dentro e fora do Brasil.

Bem-humorado e falante, Gastão é de um tempo em que não havia piscinas. "Primeiro, esticavam cordas em mar aberto para limitar as distâncias", explica. "Depois, colocavam uns pranchões de madeira para marcar os espaços das competições", diz. O uniforme de natação também pouco se assemelhava às sungas de hoje. "Vestíamos uma espécie de macacão e usávamos uma touca amarrada no pescoço", recorda. "Com o tempo, fomos tirando a camisa e ficando só de short, o que facilitou nosso desempenho." Em 1926, ele se consagrou recordista carioca em diversas modalidades.

Até à noite, tomava banho de mar na praia de Icaraí, hoje poluída e pouco freqüentada. As boas lembranças contrastam com episódios tristes que presenciou, como a epidemia de gripe espanhola que assolou o Brasil, causando milhares de mortes. "Ainda me lembro daqueles caminhões que passavam, pelas ruas, cheios de cadáveres, recolhendo os corpos de casa em casa", diz. "Com os cemitérios lotados, era desta forma que as famílias se desfaziam de seus parentes", explica.

Formado em contabilidade pelo Externato Halfeld, também em Niterói, Gastão, primo do presidente João Figueiredo, se firmou profissionalmente como comerciante. "Tive duas lojas", conta, referindo-se às duas lojas de eletrodomésticos, que na época eram chamadas de "casas de rádio-geladeira". O comerciante lembra que a única vez em que foi obrigado a fechar as portas de suas lojas foi no dia do suicídio de Getúlio Vargas, em 1954. "Apesar de nunca ter me metido na política, foi decretado luto oficial e tive que respeitar", diz.

Em 1939, ele se casou com Rita Figueiredo, sua mulher até hoje, e mudou-se para Ipanema. Apesar do trabalho puxado, ele sempre arranjava tempo para dar um mergulho e algumas braçadas na praia de Ipanema. "Nunca deixei o esporte de lado", ressalta. Nem mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, quando se desdobrou para manter suas lojas abertas. "Foi o período mais difícil que passei com o comércio", afirma. "Com a guerra, tive que negociar muito para conseguir mercadorias, já que a importação caiu sensivelmente. Não passei por necessidades com minha família, mas tivemos que segurar bem os gastos dentro de casa", lembra Gastão, que teve três filhos. Hoje, somam-se à família sete netos e um bisneto, Daniel, com quatro meses.

Disposição para trabalhar e nadar nunca faltaram ao atleta. Quando se aposentou, aos 72 anos, ele pôde se dedicar integralmente ao esporte. "Hoje, a natação é profissão, muito pior do que antigamente, quando era sinônimo de saúde", compara. Com energia de sobra, Gastão tentou cruzar sozinho o Canal da Mancha, aos 77 anos, num dia bem patriótico: 7 de setembro de 1987. Teve como patrocinador as Casas Pernambucanas. "Só não consegui concluir a prova porque a temperatura da água mudou durante o percurso e o frio fez meu nariz sangrar", lembra. O episódio não o frustrou. Dois anos antes, Gastão alcançara dois novos recordes brasileiros em mar aberto: nadou 30 quilômetros entre Copacabana e Paquetá, no Rio, e depois 34 quilômetros entre Piracicaba e Barra Bonita, em São Paulo. "Levei 12 horas para ir de Copa a Paquetá, sem parar", conta.

Desafio maior ele enfrentará este ano, ainda sem data definida, quando pretende ficar 24 horas em mar aberto, superando seu próprio recorde. "Vou tentar realizar esta façanha nos Estados Unidos, dando a volta em toda a ilha de Manhattan", espera. Há dois anos, ele foi impedido de realizar o sonho por causa de uma pneumonia, que contraiu depois de tomar a vacina contra a gripe, dada a brasileiros com mais de 65 anos. "Era para melhorar, mas acabou me derrubando", afirma o atleta, que ficou 40 dias em casa, de repouso.

Envie esta página para um amigoAtualmente, Gastão nada duas horas e meia, todos os dias, no Clube Internacional de Regatas, no centro do Rio. Apesar de morar perto do clube, vai dirigindo seu próprio carro. Gastão espera conquistar em julho, na Alemanha, seu quinto título mundial na categoria master.

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