14 de fevereiro de 2000
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Teatro

Regina celebra momento ímpar
Rainha das novelas festeja no palco 35 anos de carreira e planeja escrever peça autobiográfica

Geraldo Mayrink

Foto: Divulgação/Vania Toledo

Se Regina Duarte acreditasse em numerologia, estaria agora vivendo um momento sem par. No sábado 5, fez 53 anos. Este ano, completa 35 anos de carreira. 53 X 35, ou vice-versa, deve ser um sinal divino para os crentes. Como ela não acredita, só foi se lembrar do aniversário por volta do meio-dia. E foi trabalhar de tarde, no ensaio da peça Honra, que reestrearia dois dias depois. Mas, no resto do ano, não vão deixar que esqueça suas três décadas e meia de carreira. Ela foi inaugurada de maneira espetacular, com William Shakespeare no texto e Antunes Filho na direção, em A Megera Domada. "Fico orgulhosa desse tempo todo de estrada. Já dava para aposentar segundo a lei", diz a dona de números de dar água na boca: 25 telenovelas, dez peças, seis filmes, além de séries e seriados.

- Vá embora imediatamente!
Quem fala é Norah, intelectual elegante, pondo para fora o marido Guilherme (Marcos Caruso), que arrumou uma amante com metade da idade dela, Cláudia (Cláudia Lira).
- Não se transforme em mim!
É de novo Norah, dirigindo-se à filha Sofia (Gabriela Duarte), que a insulta por ter deixado o marido escapar.

Há oito anos, desde A Vida é Sonho, de Calderón de la Barca, Regina não punha os pés num palco. Isso lhe dava grande aflição. "A gente trabalha num veículo de massa e aí o teatro tem que ser especial, que acrescente alguma coisa para mim e para meu público e que justifique a batalha", diz. Procurava e não achava, e não é de hoje. Em 1975, num dos vários auges de sua carreira de rainha das telenovelas, ela recebia umas 300 cartas por mês - confissões de amor e pedidos de roupas velhas, uniformes escolares e cadeiras de roda. Tirou dois anos de licença da tevê para fazer Réveillon, uma peça intrincada e sombria de Flávio Márcio, no papel de uma garota de programa chamada Janete. Foi um sucesso - 60 mil pessoas em cinco meses, no Teatro Anchieta, em São Paulo - mas os fãs não se conformaram. As cartas sumiram.

Quando Selva de Pedra foi reexibida às pressas, por causa da proibição da novela Roque Santeiro, seu ibope postal subiu de novo. "Querida Regina, quando é que você volta? Você não deve fazer o que fez, saindo da televisão. Não se cospe no prato que comeu", dizia uma das cartas.

Mas Regina fez o que fez e só não faz mais porque sente dificuldade em achar textos. Recebe - sempre os números! - um máximo de dois ou três originais por ano, contra a enxurrada de cartas dos fãs. Quando foi mais uma vez uma tarde na livraria Drama Books, em Nova York, especializada em textos teatrais de todo o mundo, recomendaram-lhe Honra, da australiana Joanna Murray-Smith. Tinha dois papéis femininos e - por coincidência - ajudava numa questão familiar, pois estes papéis eram de mãe e filha.

- É a maldita crise da classe média. O que ele está tentando provar? Que ainda consegue com mocinhas? Você tem de lutar por ele. É tudo tão típico, isso de ser mártir.

Quem fala, furiosa, é Sofia, tão filha de Norah quanto Gabriela é filha de Regina Duarte. Gabriela, 25 anos, tão odiada no papel de Eduarda em Por Amor, a ponto de merecer um site em que telespectadores ameaçavam matá-la, "por chatice", agora faz por merecer, por insolência. Diz ao pai:

- Você é um velho patético. Eu também sou uma boa trepada!

Cláudia, a repórter que se infiltra no lar como uma serpente no paraíso, também não faz por menos, quando diz a Guilherme:

- Sou muito inteligente. Quer trepar comigo? Sou uma mulher cheia de tesão.

Mãe e filha roeram as unhas, rindo quem sabe de nervosas, pois Regina já foi tão moralista que muito tempo atrás recusou o papel de Dona Flor e Seus Dois Maridos (entregue afinal a Sônia Braga) para não ter que aparecer meio pelada em cenas de cama daquelas. Mas o tempo passa e as duas estão outra vez se digladiando em cena, num inferno familiar que tem ressonâncias em Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, de Edward Albee, e em alguns filmes e peças de Ingmar Bergman.

Na vida real, mãe e filha são separadas apenas por três andares, num edifício nos Jardins, em São Paulo. Gabriela está sempre lá, com seus irmãos, André, 29 anos, que agencia atores, e João, 18, que estuda cinema. "Tenho uma vida muito preenchida", diz Regina. "Meus filhos ainda vivem muito perto de mim." Por isso, não acha paz para escrever. Ela tem sua trajetória anotada à mão, em cadernos que escreve desde os 12 anos, e quer fazer um curso de dramaturgia para pôr as lembranças num texto de teatro. Já dirigiu peças e programas de tevê. "É o que está faltando", diz.

Envie esta página para um amigo- Nós nos lembramos daquilo que compartilhamos. E isso, de certa forma, se torna uma espécie de caminho que ilumina a vida de hoje - recita Norah.
- Gosto muito de ser atriz. Ainda! - reafirma Regina.

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