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Wellington Nogueira
“É tão inteligente, por que não nasceu com cabelo liso?”, perguntavam as tias de Joel Zito Araújo quando falavam do sobrinho

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Cinema
Um filme na raça
Joel Zito Araújo, diretor do respeitado documen-
tário A Negação do Brasil, estréia na ficção com Filhas do Vento, vencedor de seis Kikitos em Gramado e com elenco totalmente negro

texto: Mariane Morisawa
fotos: Wellington Nogueira

Quando era estudante, Joel Zito Araújo tinha vários amigos de farra, mas nunca era convidado para as festas na casa deles. Uma namorada foi impedida pela família de vê-lo. Mais tarde, sócio de uma produtora de vídeo, notava a decepção dos clientes ao conhecê-lo. Hoje, é raro Joel Zito ser vítima, mesmo que velada, de discriminação racial. “Tenho uma postura que inibe esse tipo de preconceito”, diz o cineasta de 49 anos. No último Festival de Gramado, ele levou seis Kikitos com Filhas do Vento, sua estréia em longas de ficção, que tem elenco inteiramente negro e conta de forma lírica a história de uma família dilacerada. “A gente está trazendo um novo paradigma, que é um olhar de dentro, num ponto de vista de integração”, afirma Joel Zito, respeitado pelo livro e pelo documentário A Negação do Brasil, que analisam a participação de atores negros na televisão. “Sonho que daqui a dez anos não se fale mais de elenco negro ou de elenco branco”, completa ele, namorado da atriz Maria Ceiça, que está no filme.

Com Filhas do Vento, Joel Zito procura a novidade de colocar negros fora dos papéis estereotipados, e não a polêmica.
Ainda assim, ela aconteceu quando o presidente do júri do festival, Rubens Ewald Filho, sugeriu em entrevista que os prêmios para as atuações tinham sido dados porque eram atores negros. Segundo o diretor, a história foi resolvida
quando o crítico pediu desculpas.

Joel Zito Araújo sabe que vai abrir caminho para outros cineastas negros – até hoje se contam cerca de duas dezenas de filmes dirigidos por negros no Brasil. “A gente quer mudar o mundo”, afirma o curta-metragista Jeferson De. “Filhas do Vento promove encontros entre duas gerações de atores. Com isso, mostra que nós temos história”, completa.

O começo da história de Joel Zito Araújo foi simples, na pequena Nanuque, em Minas Gerais. “Ele é um mineiro do cerrado, que fala baixo, é calmo. Às vezes até fala baixo demais”, diz o ator Milton Gonçalves. O pai do cineasta, um músico boêmio que abandonou a noite por causa da família e virou caminhoneiro, se separou da mãe quando Joel Zito era muito jovem. Depois disso, ela trabalhou como empregada doméstica, lavadeira e se mudou para São Paulo como operária, deixando os filhos com o ex-marido. Dos oito irmãos, somente Joel Zito completou faculdade, de Psicologia. “Fui o único que teve a chance e a determinação. Gostava de estudar”, lembra ele.

A carreira de psicólogo durou um ano. Envolvido com um cineclube em Belo Horizonte, ele foi se bandeando para a produção de vídeos no movimento sindical, o que rendeu convite do Dieese em São Paulo, onde fez pós-graduação na Escola de Comunicações e Artes da USP. Ele chegou a ser professor da Universidade do Texas por um ano. Foi longe o menino a quem as tias diziam, com dó: “É tão inteligente, por que não nasceu com cabelo liso?”. Joel Zito Araújo quer mostrar para todo brasileiro que cabelo liso é apenas um dos tipos de cabelo.

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