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Reportagens

Política / Lino Cesar Oviedo
"Estou preparado até para morrer"
Após cinco anos de exílio, Lino Oviedo marca seu
retorno a Assunção para a terça 29, tem certeza que
será algemado e preso no desembarque, mas leva na
mala um elaborado projeto para governar o Paraguai

Luciano Suassuna
foto: Piti Reali

O general aposentado olha o futuro: “Charles de Gaulle, Fernando
Henrique, Perón viveram no exílio e voltaram para governar seu país”
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As 10 horas da terça-feira 29 de junho, o general aposentado Lino Cesar Oviedo, 60 anos, decolará de Foz do Iguaçu num vôo comercial da TAM. A bordo, estará encerrando cinco anos de incertezas, sofrimento e solidão, durante os quais morou, com mulher e cinco de seus seis filhos, em cinco diferentes cidades da Argentina e do Brasil e viveu, por 18 meses seguidos, trancado numa cela da Polícia Federal em Brasília.

Quarenta minutos depois, Oviedo descerá em Assunção, capital do Paraguai. Em terra,
sob os olhares de uma multidão de correligionários, tem “100% de certeza” de que será algemado e encaminhado a uma prisão. A ousadia do gesto é um daqueles episódios
que elevam um político de estatura mediana (1,70 metro de altura e 72 quilos) à con-
dição de mito. A partir daí, porém, seu futuro será novamente uma incógnita: “Estou preparado até para morrer”, diz.

Nos cinco anos em que viveu na Argentina
e no Brasil, ele se manteve com a ajuda
de ONGs de defesa dos direitos humanos

Na recente história da América Latina, poucos momentos terão embutido tamanho simbolismo quanto estes quarenta minutos de vôo. A rigor, Lino Oviedo é o último exilado dos países do Mercosul e seu retorno a Assunção conclui
um ciclo em que os governantes latinos não podiam conviver no mesmo país com seus adversários políticos.

Foi esta intolerância que o levou primeiro à prisão e depois ao exílio. “Combati os corruptos e os mafiosos que tomaram meu país”, diz ele. E, fato curioso, Oviedo acabou passando mais tempo numa cela no Brasil do que no Paraguai (18 meses contra 11 meses). Agora, depois que a Corte Suprema paraguaia substituiu seis (de nove) ministros, que juntos responderam a 20 acusações criminosas, o general volta para resgatar sua inocência. “Não sou golpista”, diz Oviedo. “E não sou assassino -- nem material, nem intelectual.”

Nos últimos cinco anos, pesou contra ele a acusação de que teria mandado matar o vice-presidente Luis Maria Argaña. Reportagens da revista IstoÉ, contudo, revelaram nas últimas semanas que Argaña, na realidade, faleceu de causas naturais durante um encontro com uma amante. E que o próprio filho do vice-presidente ajudou a montar a farsa do atentado.

É com altivez que Oviedo encara as intempéries da política. “Nunca estive triste por minha situação pessoal”, diz. “Porque o pensamento, a idéia, o sentimento, estes não podem ser presos, e eu tenho um diagnóstico e um projeto para meu país.”

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