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Divulgação
Tom Hanks em Matadores de Velhinha: líder da
gangue que usa o sótão de uma casa para abrir um túnel e roubar um cassino
Comédia
Matadores de Velhinha
Irmãos Coen assumem o clichê para subverter a ordem do cinema nesta bem-feita refilmagem do clássico Quinteto da Morte

Paulo Santos Lima

O cinema dos irmãos Joel e Ethan Coen vem conquistando desde Gosto de Sangue (1984) um público fiel que entende a profusão de referências irônicas e a excelente direção como evidências de sofisticação. Longe de ser uma falácia, o fato é que a forma exímia com que os filmes são rodados camufla certa aridez de idéias. Algo agora percebido em Matadores de Velhinha, com seu humor grosseiro e enredo nada original. O curioso, contudo, é que o fracasso nos EUA e no Festival de Cannes foi injusto com este trabalho que, no final das contas, faz despudoradamente um belíssimo exercício de cinema como há muito a dupla não arriscava.

Refilmagem do (supervalorizado) clássico inglês Quinteto da Morte, a versão dos
Coen desenvolve melhor os personagens e arma um jogo entre o mundo erudito e o arcaico-religioso. O letrado professor Dorr (Tom Hanks) usa o sótão de uma casa interiorana do Mississipi para abrir um túnel e roubar um cassino. O único empecilho
é a proprietária, Marva Munson (Irma P. Hall, ótima), uma viúva turrona e conserva-
dora, o que obriga Dorr e sua gangue a fingir o ensaio de músicas religiosas (com um
toca-fitas) enquanto abrem a parede. Mas o truque é descoberto e os rapazes tiram no palitinho para ver quem matará a velhinha.

Se a primeira parte do filme costura os personagens no racismo e caricatura, e calca
a mão no tom fabular daquela cidade provinciana e seus moradores, na virada da trama tal exposição exagerada vai desmoronando com a série de acontecimentos fracassados da trupe de Dorr. Este, fica evidente, é como um diretor que delega papéis a seus atores, mas perde o controle das ações. A prova está no subversivo gato de Marva, que rouba o dedo amputado do ladrão perito em explosivos para lançá-lo sozinho do alto de uma ponte, sem o bedelho de Dorr. Começando como uma história meticulosamente arquitetada para ao final degringolar para a imprevisibilidade acidental, Matadores de Velhinha é boa metáfora sobre a fragilidade da ordem do cinema clássico. Belo filme da vida