24 de janeiro de 2000
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Livros - Romance

Sobre a Fazenda
John Updike volta ao romance com envolvente narrativa existencialista

Antonio Querino Neto

Abrindo esse seu quarto romance com uma citação de Jean Paul Sartre, John Updike parece realmente assinar embaixo quando o filósofo francês afirma que a existência precede a essência ou que a liberdade constitui a própria essência do ser humano.

Sobre a Fazenda (Imago, 174 págs., R$ 20) pode ser definido como uma narrativa existencialista, pois o grande problema dos personagens está na necessidade de criar valores e arcar com a responsabilidade da própria liberdade num mundo sem regras muito claras, onde todos têm a dolorosa tarefa de se construir.

Por isso, não é à toa que o premiado autor (que escreveu cerca de 40 obras que incluem contos, poemas e crítica) recorre a Sartre. O discurso literário de Updike nada tem de abstrato. Ele se ocupa da angústia das pessoas no cotidiano e de sua dor que não pode ser facilmente sintetizada. Isso fornece à história simples de Joey Robinson - um consultor publicitário de 35 anos que leva a segunda esposa e o enteado para um fim de semana na fazenda da mãe - uma tensão indescritível, feita de frustrações e ressentimentos que enlaçam os quatro personagens. Através da mãe, Updike edifica o perfil de uma velha senhora da Pensilvânia, orgulhosa em sua solidão e generosa, mas que também destila seus "venenos" e arma suas teias o tempo todo, conforme o relato de Joey. O domínio da velha fazendeira sobre o filho e a hostilidade não explícita com sua segunda esposa assinalam a trama desde o início.

Mais do que um mero cenário, a fazenda é o lugar onde se reabrem velhas feridas, recordações mumificadas, fantasmas e sentimentos mal resolvidos. Ela favorece a distância e a incompreensão entre todos. Essa fórmula do acerto mútuo de contas concentrado em poucas horas não é novidade. Basta lembrar alguns momentos da melhor dramaturgia americana, em obras como as de Edward Albee e Eugene O'Neill. Torrencial na descrição de campos ceifados, cães brincalhões, pássaros e flores silvestres, Updike acaba se concentrando no inferno da atmosfera psicológica carregada no interior da casa. Joey vive horas de agonias, inseguranças e descobertas ao lado da sensual esposa Peggy, do enteado fanático por ficção científica e da mãe debilitada e teimosa.

A opressiva fazenda representa um universo ao qual ele não mais pertence e do qual não se desvencilha. Uma herança onde nada se ajeita e nada se harmoniza, como a própria busca de um sentido que aspira dar a si próprio.
Laços de tensão

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