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“O cara conhece o mercado, tem influência e é bom de estratégia”, diz Fernando Meirelles
“Suas qualidades são maiores que seus defeitos, mas é um pesadelo trabalhar com ele’’
Bruno Barreto, que trabalhou com Harvey em Voando Alto
O poder de fogo
da Miramax
• Em 11 anos, a produtora teve 14 filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme. Entre os títulos, Entre Quatro Paredes (2001), Chocolate (2000), Regras da Vida (1999) e Shakespeare Apaixonado (1999). Em 2003, Chicago e Gangues de Nova York

• Em 2000, a empresa atuou como produtora, produtora executiva ou distribuidora de 18 títulos. A média anual, desde o início da década de 80, é de dez filmes

• Chocolate teve 5 indicações para o Oscar, custou US$ 25 milhões e US$ 30 milhões foram gastos com publicidade

• O lucro anual médio da produtora costuma ser de US$ 150 milhões.
Em 2001, foi de
US$ 161 milhões

Cinema
Ele colocou Cidade de Deus
rumo ao Oscar
Controverso e poderoso, Harvey Weinstein, presidente da distribuidora Miramax, é o responsável pelas quatro indicações do
filme de Fernando Meirelles ao Oscar

Nina Arcoverde Mansur

 

Nascido numa família de classe média no bairro do Queens, em Nova York, Harvey Weinstein, 52 anos, sempre deixou que o cinema influenciasse suas decisões. Em 1969, depois de ser aprovado em todas as universidades públicas do Estado, acabou se matriculando na de Buffalo porque em Binghampton, sede da melhor escola de Letras, só havia um cinema. “Eu sabia que não sobreviveria a isso”, disse ele em 2001, ao receber o título de doutor honoris causa pela Universidade de Buffalo. Fundador da produtora e distribuidora Miramax, Harvey é o responsável direto pelas quatro indicações de Cidade de Deus ao Oscar, mas está longe de ser uma unanimidade em Hollywood. Grosseiro, arrogante e de caráter duvidoso são alguns dos adjetivos associados ao produtor. “Suas qualidades são maiores que seus defeitos, mas é um pesadelo trabalhar com ele”, resume o diretor Bruno Barreto.

Centralizador, Harvey decide pessoalmente os roteiros que vai produzir e os filmes já prontos que serão comprados, como aconteceu com Cidade de Deus; senta para discutir orçamento e opina na formação de elenco e equipe. Também orienta a edição das produções, o que gera más recordações a alguns diretores. Bruno Barreto, por exemplo, precisou transformar Voando Alto, seu filme com Gwyneth Paltrow, numa comédia romântica quando, na verdade, queria que fosse de humor negro. “Sentávamos juntos na montagem e tentávamos negociar, mas em alguns pontos tive que ceder. A esquizofrenia de ser um produtor independente na essência e ao mesmo tempo ser empregado da Disney o torna uma pessoa difícil”, explica Barreto, que teve o seu O Que É Isso Companheiro? indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro depois de ser comprado pela Miramax.

Além de investir dinheiro em campanhas milionárias de marketing dos filmes preferidos, Harvey é capaz de pegar um avião para qualquer parte do mundo para assistir a um que lhe interesse. “Ele é obsessivo com trabalho e não tem tempo para mais nada”, diz Marc Beauchamps, diretor-sócio da distribuidora e produtora Lumière no Brasil. Em dezembro de 2001, Beauchamps recebeu uma ligação do chefe às 3h, preocupado com a possibilidade de Fernando Meirelles vender Cidade de Deus para a Sony Pictures. “Ele disse: ‘O filme tem que ser meu!’ e pediu que fizéssemos qualquer coisa para isso”, relata. Para conseguir o que queria, Harvey concordou em ceder a todos os pedidos de Meirelles, inclusive um aumento de orçamento não divulgado por ambos os lados.

Indicado ao Oscar de Melhor Diretor, o brasileiro reconhece que a campanha da Miramax por seu filme, deflagrada no Festival de Cannes do ano passado, foi eficaz. “Agora o Harvey está dizendo que se arrepende de não ter tentando colocar Cidade de Deus na categoria de melhor filme”, conta Meirelles, que, nos encontros pessoais com o produtor, sempre foi muito bem tratado. “Ele quer que eu vire uma espécie de prata da casa. O cara conhece o mercado, tem influência e é bom de estratégia”, completa.

O talento de Harvey para os negócios foi desenvolvido quando ele, ainda estudante, promovia shows de rock
em Buffalo, contratando atrações e vendendo ingressos. Em menos de dez anos amealhou a quantia necessária
para, junto com o irmão Robert, abrir uma produtora
de filmes independentes. Na década de 90, cresceram distribuindo títulos como Ata-me, de Pedro Almodóvar, e O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante, de Peter Greenaway. Atraída pelo sucesso de filmes pouco convencionais, a Walt Disney Pictures comprou a produtora emergente em 1993, por US$ 80 milhões. Mais uma jogada milionária de Harvey Weinstein.

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