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Acima, o cineasta filmando Tenda dos Milagres, de 1976.
‘Ligaram para a Lucy (Barreto) oferecendo a passagem e a Baleia embarcou (para Cannes). Fomos pegá-la no aeroporto e ela foi a grande vedete do festival’
Luís Carlos Barreto, que trabalhou com Nelson em Vidas Secas, cujo ponto alto era o assassinato da cadela Baleia

Gente Fora de Série
Nelson Pereira dos Santos
Último capítulo
A consagração do diretor
O cineasta lançou, em 1963, Vidas Secas, que conquistou prêmios internacionais e representou o Brasil em Cannes, e começou a ser chamado de pai do Cinema Novo. Agnóstico, passou a respeitar as religiões com o filme O Amuleto de Ogum, de 1973. Por falta de produções cinematográficas durante o governo Collor, deu aulas nos EUA, na Universidade de Columbia

por Luís Edmundo Araújo

 

Resumo do capítulo 1 e 2:
Depois de conhecer o cinema na infância, nas sessões do Cine Colombo, e o comunismo na juventude, no Colégio do Estado, onde conheceu a futura mulher, Nelson interrompeu a faculdade de Direito para ir à França. Lá, foi apresentado ao cineasta que lhe deu o primeiro emprego. Premiado pelo primeiro filme, Rio 40 Graus, que gerou uma campanha nacional contra sua proibição, o cineasta foi à antiga Tchecoslováquia e voltou desiludido com o PCB. Na casa da mãe de Glauber Rocha, preparou-se para filmar Vidas Secas, que terminou virando outro filme.

Divulgação
Ele era chamado de pai do Cinema Novo, que teve como expoentes Glauber Rocha e Cacá Diegues: “Não sei por que inventaram essa história. Todo mundo bebeu da mesma
fonte do neo-realismo italiano”, diz

Ao achar a solução para evitar o desperdício de toda a estrutura montada em Juazeiro, na Bahia, para a filmagem de Vidas Secas, impossibilitada devido às chuvas que assolaram a região, Nelson Pereira dos Santos acabou criando um outro problema. Escrito pelo cineasta, o roteiro de Mandacaru Vermelho, uma trama romântica com ares de faroeste, previa um número bem maior de personagens. O jeito foi completar o elenco com a equipe mobilizada para o projeto original.

Os assistentes de direção Luís Paulino dos Santos e Ivan de Souza aceitaram o desafio, mas ainda faltava alguém para interpretar o mocinho da história. O diretor pensou em Geraldo Del Rey, que dois anos depois se consagraria em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, mas desistiu por questões financeiras. Sobrou então para o próprio Nelson. “Entrei fazendo um canastrão. Foi horrível, mas tinha que fazer alguma coisa”, justifica o cineasta.

O sonho de filmar Vidas Secas seria realizado dois
anos depois da estada em Juazeiro. Em 1962, mesmo
ano do nascimento de sua filha caçula, Márcia, Nelson partiu para Palmeira dos Índios, em Alagoas. Lançado em 1963, o filme conquistou diversos prêmios internacionais e representou o Brasil no Festival de Cannes do ano seguinte, onde foi muito bem recebido. Porém, ninguém no elenco
fez tanto sucesso quanto Baleia, a cadela vira-lata da história de Graciliano Ramos.

Comprada numa feira de Palmeira dos Índios, a cadela fez história logo na sua aquisição. Ao vê-la embaixo de uma barraca, Nelson acertou a compra do animal com o homem que estava atrás do balcão, que exigiu uma condição: que seu sobrinho, um menino que também estava ao lado da barraca, trabalhasse no filme. Já durante as filmagens, o diretor ficou sabendo de toda a verdade. “O menino me disse que não era sobrinho do homem e que a cadela também não era dele. Estava ali embaixo da barraca por acaso, se protegendo do sol”, conta, sem conter o riso, o cineasta.

Em Cannes, Baleia também deu o que falar. Um dos
pontos altos de Vidas Secas é a cena da morte da
cadela. De tão realista, gerou protestos de associações de proteção aos animais, que condenaram os realizadores do filme pelo assassinato da cadela. Diante de toda a polêmica, a Air France acabou oferecendo uma passagem para que Baleia, que estava no Rio de Janeiro, na casa de Luís Carlos Barreto, diretor de fotografia do filme, fosse a Cannes. “Ligaram para a Lucy (Barreto) oferecendo a passagem e a Baleia embarcou. Fomos pegá-la no aeroporto e ela foi a grande vedete do festival”, lembra o hoje produtor cinematográfico Luís Carlos Barreto, que acompanhava Nelson naquela viagem.

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