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Toquinho
Eterno aprendiz
Aos 57 anos, o cantor e compositor completa quatro décadas
de carreira, diz que não abre mão de estudar violão
diariamente e garante que deixou de ser um conquistador

Dirceu Alves Jr.

 
Raphael Falavigna
Conhecido como namorador, Toquinho diz que a fama
ficou no passado: “Minha paixão são meus filhos”
Todos os dias Antônio Pecci Filho, o Toquinho, reserva três horas de concentração ao violão. Trancado em seu apartamento, em São Paulo, o cantor esquece as mais de 300 músicas compostas e os 4 mil shows realizados em 40 anos de carreira para se aperfeiçoar e descobrir acordes no instrumento com a mesma disciplina de um aprendiz. “Meu trabalho se consolidou graças a uma postura profissional, com muito esmero”, diz ele, aos 57 anos, que vê chegar às lojas a caixa Amigos e Canções, com cinco CDs que repassam sua trajetória, enquanto fecha um contrato com uma gravadora italiana para dois novos discos. “Estou tocando melhor do que nunca e ainda quero tocar muito mais. Não vou me acomodar.”

Foi por causa de uma dedicação considerada excessiva pela família que esse paulistano caiu na música. Seus pais julgavam absurdo o tempo que Toquinho passava debruçado sobre os livros. “Sempre fui o primeiro da classe. Estudar violão aliviou um pouco a piração com a escola”, relembra ele. Os ventos conspiravam a favor. Nos anos 50, o violão era moda e os aspirantes a João Gilberto faziam de tudo para entender um pouco mais da
Bossa Nova. “Minha geração recebeu influências semelhantes, mas ninguém faz música parecida”, reconhece o artista.

Dessa geração, a maioria foi mais do que colega para Toquinho. Conhecido como o eter-
no parceiro de Vinicius de Moraes, com quem dividiu o palco e garrafas de uísque por 10 anos, Toquinho frisa, sem negar o respeito devido ao mestre, que acumulou outras histórias. “Um foi importantíssimo para o outro, mas nossa parceria me acomodava, tinha um lado paternal forte. Depois da morte de Vinicius, minha carreira deu um salto”, afirma ele. Toquinho também aprimorou o ofício com Paulinho da Viola, Jorge Ben Jor e Chico Buarque, este companheiro desde os 17 anos. “Perguntaram para mim: ‘Você não conhece o Carioca? Vamos resolver isso’. Nos encontramos e começamos a fazer shows em faculdades de São Paulo”, conta ele, que, em 1969, foi encontrar o amigo exilado na Itália. “O Chico falou que tinha marcado show para nós. Cheguei lá e ele vivia na maior dureza, não tinha show nenhum e tive até que emprestar dinheiro. Depois é que abrimos os espetáculos da Josephine Baker pela Itália.”

Quem refresca a memória de Toquinho para essa história é a cantora Miúcha, irmã de Chico e que dividiu a cena com o violonista durante um ano, em 1977, em show no Canecão, ao lado de Tom Jobim e Vinicius. “Toquinho é de uma seriedade total, mas fora do palco é um moleque”, comenta ela. Miúcha também não deixa de alfinetar o amigo sobre suas conquistas amorosas. “Não sei como as mulheres agüentam o Toquinho. Ele não larga o violão”, brinca a cantora, que jura nunca ter namorado o colega. “Seria incesto! O Toquinho é uma criança. Além do mais, ele sempre pegou cada deusa.”

Entre as conquistas de Toquinho estão as atrizes Suzana Gonçalves e Leila Diniz, símbolos sexuais dos anos 60. “Conheci a Leila na casa do Chico e fomos namorando, entre idas e vindas. Dias depois dela morrer naquele acidente de avião, em 1972, recebi uma carta linda que ela havia me mandado da Índia”, diz ele. Separado há um ano de Mônica, companheira por duas décadas e mãe de seus dois filhos, Pedro, 19, e Jade, 11, Toquinho leva uma vida tranqüila. “Minha paixão são meus filhos”, afirma. “Na época das turnês com Vinicius, namorava muito. Assim como em outras épocas (risos). Tanto que a letra de ‘Regra Três’ ele fez para me sacanear, falava que eu queria muitas e acabaria sozinho”, confessa o compositor, disfarçando o ar moleque.

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