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Esporte
O Pelé do caratê
O carateca Ademir da Costa sagrou-se um dos melhores do mundo
no Japão, criou o próprio estilo e já venceu 100 lutas consecutivas

Fábio Farah

 
Piti Reali
“Foi o maior teste da minha vida. Mas depois fiquei dois dias no hospital. O corpo doía todo”, diz ele, sobre as cem lutas consecutivas, marca atingida por apenas 14 caratecas

Era novembro de 1981. No centro de Tóquio, em Kyokushin – templo japonês do caratê –
os melhores lutadores do país se preparavam para disputar o campeonato nacional. Confinados no prédio de três andares, não podiam sair nem a passeio, treinavam dez
horas por dia e dormiam no alojamento atrás da academia conhecido como “A Toca dos Leões”. Entre as feras havia um único estrangeiro, o carateca brasileiro Ademir da Costa, campeão nacional e sul-americano. “Esse estrangeiro é fraco. Você vai derrubar ele rapidinho”, ouviu Ademir numa conversa entre dois lutadores no dia em que a chave do campeonato fora divulgada. Ledo engano.

Contra todas as expectativas, o único estrangeiro a disputar o campeonato que reunia 127 japoneses derrotou o mito do esporte na Terra do Sol Nascente, o bi-campeão do torneio e campeão mundial Makoto Nakamura, que tinha quase o dobro do seu peso. “Eu não podia ir no corpo a corpo. Tinha de esquivar e ir no contra golpe. Começaram a me chamar de “Pelé do caratê” porque eu fazia uma ginga igual a do futebol”, conta Ademir, que ficou em sexto lugar no campeonato, mas ganhou o troféu de lutador com a melhor técnica. “Foi nessa luta que nasceu minha técnica de combate na qual o tamanho do adversário deixou de ser um problema”, gaba-se Ademir. A técnica, batizada de Seiwakai, foi oficializada há seis anos e é o único estilo ocidental do esporte respeitado e aceito no Japão.

Hoje, proprietário de 30 academias, das quais dez em Moscou, uma no Uruguai e o restante no Brasil, o carateca brasileiro gosta de lembrar a frase que o mestre Masutatsu Oyama, criador do estilo de contato no caratê, disse aos lutadores japoneses em sua despedida de Kyokushin, após três meses de estadia. “Se vocês querem alcançar o nível de Ademir, tomem um chá com a sujeira dos pés dele para que possam obter a essência do caratê.”

A consagração definitiva do carateca brasileiro aconteceu em 1987, quando foi escolhido para realizar o Kumite, teste de 100 lutas consecutivas em que o lutador não pode sofrer nenhuma derrota. Depois de quase três horas no ringue, Ademir entrou para o hall dos maiores lutadores de combate da história do esporte – até hoje apenas 14 esportistas conseguiram chegar ao final do Kumite, sendo um deles seu discípulo. “Foi o maior teste da minha vida. Mas depois fiquei dois dias no hospital. O corpo doía todo” , diz Ademir, que vai três vezes por ano ao Japão dar palestras e levar seus atletas em competições.

Outro discípulo de Ademir – ele estima que são cerca de quatro mil os praticantes do Seiwakai no mundo – também parece ter bebido chá com a sujeira de seus pés. “Ele me ensinou a disciplina, o respeito, a humildade e o espírito guerreiro. A parte espiritual é mais importante nas artes marciais do que o treinamento físico”, diz Luciano Basile, 28, que treina com Ademir desde os 13 anos. Luciano venceu o mundial em 1998 e o campeonato interno do Japão em 1998 e 1999, conquistando troféus que ficaram faltando na prateleira do mestre quando ele encerrou a carreira de competições em 1987.

Filho de um barbeiro e uma professora, Ademir, mais velho de três irmãos, começou a treinar caratê aos 13 anos para vencer a timidez. “Eu era grande e desengonçado e os colegas zombavam de mim”, recorda-se Ademir, pai de um casal que não aprecia muito
as artes marciais. Três anos depois participou do campeonato nacional e foi vice. Na platéia, como convidado especial, estava o lendário mestre Masutatsu Oyama. “Ademir, você tem um grande futuro pela frente. Acredite”, disse-lhe o japonês, elevando o nível
de sua faixa. Ademir acreditou. Dois anos depois, partia para o Japão e deixava a marca
da ginga brasileira na terra dos samurais.

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