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Reportagens

27/10/2003

   
 
Leandro Pimentel
“Os governos dos países árabes usam a causa palestina em prol do nacionalismo árabe. Mas nosso drama não os atinge”, diz Elia Suleiman
“Nós nos sentimos inferiores em nossa própria terra, que foi tomada por outro país’’
Elia Suleiman

 

Sucesso
Voz palestina
Nascido em Nazaré, o cineasta palestino
Elia Suleiman fala do preconceito que
sofreu em sua própria terra e critica Israel,
seus aliados e os países árabes

Luís Edmundo Araújo

 


O cineasta palestino Elia Suleiman, 42 anos, mora em Paris, viveu 14 anos em Nova York, onde iniciou a carreira, mas não se desliga dos problemas do Oriente Médio vividos desde a infância. Nascido em Nazaré, cidade de maioria palestina ocupada por Israel desde a criação do estado judeu, em 1948, ele tratou do tema em dois filmes premiados: Crônica de um Desaparecimento, eleito melhor filme do Festival de Veneza em 1996, e Intervenção Divina, que ganhou o prêmio internacional da crítica no último Festival de Cannes, foi exibido no Festival de Cinema do Rio de Janeiro e tem lançamento previsto para janeiro. Ele falou a Gente.

O que mudou entre os dois filmes?
Em Intervenção Divina, as coisas pioraram. Se mostrei
uma situação extrema, mais violenta, é porque no primeiro filme tudo estava sob a superfície. Mas acho que esse
filme tem até mais humor que o outro.

Já teve problemas por usar o humor para falar das tensões entre judeus e palestinos?
Com Crônica de um Desaparecimento, fui criticado no Chartage Film Festival, na Tunísia, por causa de uma cena irônica mostrando a bandeira israelense. Pensaram que eu estava vendendo minha alma ao diabo. Os governos dos países árabes fazem uma lavagem cerebral nas pessoas, usando a causa palestina em prol do nacionalismo árabe. Mas nosso drama não os atinge. O humor então não é permitido, como se não tivéssemos o direito de rir de nós mesmos.

Não acha que os países árabes ajudam a causa palestina?
Eles não conhecem o assunto. Muitos árabes não têm nem sequer o senso da geografia da Palestina. E por que os governos árabes iriam querer um verdadeiro estado democrático palestino? Seria contra o que eles são: monarquias com muito petróleo, onde poucos são ricos e todos em volta, pobres.

Como foi ter um filme (Crônica de um Desaparecimento) financiado pelo Fundo Israelense para Qualidade dos Filmes?
Foi uma luta. O roteiro foi premiado pelo júri deles, mas queriam me dar menos do que a verba prevista. Constituí advogado, fomos à Suprema Corte e provamos meu direito. Eles ainda queriam brigar para que o filme fosse classificado como israelense. Então eu disse não. Foi uma co-produção de Israel e França e assim foi classificado. Quase fomos à corte por isso também.

Esse também foi o problema no Oscar (em janeiro desse ano, a Academia retirou Intervenção Divina da disputa por não considerar a Palestina um país)?
Aquilo foi mais uma conseqüência de um problema maior
e mais antigo. Sempre quis que meus filmes fossem palestinos, mas para Israel e seus aliados a Palestina não existe. É insuportável para eles a noção da Palestina existindo dentro de Israel. Por isso nos deram esse nome político de árabe israelense, para negar o fato de que
antes de 1948 havia uma história.

Como é ser um palestino em Israel?
É um completo apartheid. Eles olham para baixo diante
dos palestinos. Nós nos sentimos inferiores em nossa pró-
pria terra, que foi tomada por outro país. Me lembro de quando era pequeno e ia com minha mãe a uma área judia comprar algo. Se eu falasse alto em árabe, ela logo me mandava fazer silêncio, porque, se percebessem nossa origem, iriam nos tratar de forma rude.

Por que escolheu fazer cinema?
Queria fazer filmes desde os 20 anos, mas não tinha condições. Até que, em 1991, um sujeito de origem liba-
nesa que estava fazendo um vídeo em Nova York me contratou para traduzir do árabe para o inglês. Preparei
um projeto sobre como os árabes eram vistos pela mídia ocidental e negociei para que, em vez de receber pagamento, meu material fosse aproveitado. Foi um suces-
so e ganhei uma comissão para fazer um outro vídeo,
que me deu recursos para um pequeno filme (Guerra
do Golfo... E Depois?
, de 1993).

Teve outros empregos?
Primeiro lavei louça em Londres, para onde fui aos 17 anos. Tocava bateria numa banda heavy metal em Nazaré e queria ver shows de rock em Londres. Deixei crescer uma barba porque não tinha idade para entrar no bar onde trabalhava. Também fui operador de fotocopiadora em Nova York. Eram 12 horas por dia na máquina, o que me deixou com trauma do barulho da folha indo e voltando. Os três primeiros anos em Nova York foram terríveis. Tinha 21 anos, tentava sobreviver e estava ilegal. Foi uma verdadeira experiência paranóica, imaginando a imigração na minha porta o tempo todo.

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