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27/10/2003

   
 
Claudio Gatti
Renée Gumiel foi presa duas vezes ao tentar fugir da França durante
a ocupação nazista

 

Superação - Renée Gumiel
Fortaleza da dança
Bailarina francesa radicada no Brasil completa
90 anos ainda na ativa, mesmo depois de três tumores e duas fraturas graves

Marina Monzillo

 

“Não vou chorar, de jeito nenhum”, garante Renée Gumiel, ao comentar a homenagem que recebe pelos seus 90 anos, na quinta-feira, dia 23, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Precursora da dança moderna no Brasil, a bailarina francesa radicada no País desde os anos 60 aplica na vida a disciplina adquirida com a profissão.

Sua força física e espiritual, apesar do corpo miúdo e dos percalços que enfrentou, é notável. Renée sobreviveu três vezes ao câncer e se recuperou de duas fraturas de fêmur que quase a afastaram daquilo que chama de “a essência de minha vida”: a dança.

“Tive muitas doenças, ninguém pensava que chegaria aos 90 e em muita boa forma”, diz ela, atualmente atuando na peça Os Sertões, de José Celso Martinez Corrêa, e ensinando alongamento bioenergético, dança moderna e improvisação, duas vezes por semana. “Sem aula não fico. Além do mais, faço junto para me exercitar”, diz. Os únicos movimentos proibidos são os saltos, por conta dos problemas que teve na perna. No resto, faz de tudo, até fumar meio maço de cigarros por dia, no mínimo. “Uma fada pôs muita energia no meu berço. Para mim, não existe terceira idade e idoso. E eu gosto da vida”, explica ela, sobre sua vitalidade. “Quando você tem um câncer, é naturalmente muito doloroso. Mas, quando acaba, você vê que não foi totalmente ruim. Eu mudei a minha vida. Tirei disso sabedoria e humildade”, diz.

Renée nasceu na cidade francesa de Saint-Claude em 20 de outubro de 1913 e começou a dançar aos 17 anos, quando foi estudar na Inglaterra. “Minha vida foi muito rica”, analisa. E bota rica nisso. Ela teve contato com os principais agentes da cultura européia da época: trabalhou com Stravinsky e Jean Cocteau e conheceu Pablo Picasso, Charles Chaplin e Eisenstein. Em 1943, com a Segunda Guerra Mundial, deu um tempo na dança para entrar na Resistência Francesa. Durante a ocupação nazista, fugiu duas vezes do país, atravessando a cadeia montanhosa dos Pirineus a pé, para chegar à Espanha. Caso ficasse, seria forçada a prestar serviços a uma fábrica de munição alemã.

“Da primeira vez, fui presa no primeiro dia. Só me libertaram depois de um mês porque meu cunhado era fascista e amigo do ministro do trabalho espanhol”, lembra. Na segunda tentativa, caminhou durante uma semana, sozinha, quase sem comer. Quando chegou à Catalunha, estava dez quilos mais magra e tão cansada que nem viu os policiais se aproximarem. Mais uma vez, foi parar na cadeia.

O Brasil entrou na sua vida em 1957, quando veio para uma temporada a convite de um embaixador. Voltou em 1961 e ficou. “Quando cheguei, a única coisa que sabia era que aqui tinha café”, conta. Nessas terras, quebrou o preconceito que havia em relação à dança moderna e manteve duas escolas, fechadas quando ficou doente e não pôde trabalhar por quatro anos. Seus dois filhos nasceram no País.

“Ela é um marco na história não só da dança, mas da humanidade. Traz no corpo toda a cultura de vanguarda do século 20 e está passando isso para a gente, no século 21”, diz o diretor teatral José Celso Martinez Corrêa, que a conheceu em 1968 quando, numa festa após um show da Tropicália, no Rio, caiu numa piscina e Renée mergulhou para salvá-lo. “Ela é a estrela-guia do Oficina”, completa ele, que já contou com a participação da bailarina em espetáculos de sua companhia, como Bacantes e Cacilda!.

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