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Reportagens

20/10/2003

   
 
Fotos: Piti Reali
Em meio aos mais de 2 milhões de fiéis, André Lima não controla
a emoção e chora durante a procissão

 

Religião
Profissão de fé
O estilista paraense André Lima percorre as ruas de Belém no Círio 2003 para pedir à Nossa Senhora de Nazaré pela saúde do irmão e mergulha na cultura que inspira suas criações

Dirceu Alves Jr., de Belém

 
Fotos: Piti Reali
Na Praça da Sé, ponto de partida
do Círio, André se prepara para os
quatro quilômetros de caminhada

No meio dos 2 milhões de católicos que desafiaram o sol
de 38 graus na manhã do domingo 12 para acompanhar o Círio de Nazaré, em Belém, o paraense André Lima, 33 anos, era apenas mais um fiel. De pés descalços e bata, ele em nada lembrava o estilista que joga nas passarelas roupas
que fundem as rendas do Norte do Brasil e o tafetá parisiense. Ao percorrer ao longo de quase seis horas os
mais de quatro quilômetros entre a Catedral da Sé e a Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, André Lima era levado pela multidão. Emocionado, mal conseguia se aproximar da corda de 400 metros, o rosário simbólico arrastado pelos populares no trajeto da imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Todo ano, no segundo domingo de outubro, ele está lá, celebrando com o povo. “É impossível nascer aqui e não estabelecer uma ligação com o Círio”, justifica ele. “A pri-
meira vez que participei da procissão foi aos 14 anos, de bermuda e camiseta de surfista, bem moleque. Nem tinha idade para fazer promessa.”

No Círio 2003, porém, André carregava um motivo extra para fazer a peregrinação: uma graça que, aos poucos, vem sendo atendida, que nada tem a ver com os louros colhidos na carreira de estilista iniciada há 14 anos, quando ainda vivia na cidade natal e abandonara a faculdade de Arquitetura. Nos últimos meses, André viu o irmão Marcelo enfrentar sérios problemas de saúde. “Temos tantas coisas em comum, somos tão próximos e comecei a senti-lo abalado, fragilizado. Pedi para ele melhorar e isso está acontecendo”, diz o estilista, que prefere não revelar o problema do irmão, inclusive, por superstição.

A forte ligação com as próprias raízes é o que dá energia a André. Veio da família, mais precisamente da avó materna,
o primeiro contato com tecidos, tesouras e a certeza da vocação. “Minha avó era costureira, cortava de olho, jamais usou moldes”, lembra ele, com saudade da mestra, que faleceu há 18 anos. Na ampla casa onde passou a infância, moravam ele, a mãe, a avó, uma tia e cinco irmãos. Seu pai, um comerciante, trabalha até hoje na cidade de Gurupá e passa em Belém entre idas e vindas. “Meus pais sempre viveram em casas separadas, apenas se visitando. Cresci entre mulheres. Minha mãe é uma professora de matemá-
tica, cartesiana, o verdadeiro homem da família”, conta.
“Foi ela quem me deu o dinheiro para comprar a primeira máquina de costura. Passei a fazer o que minha avó fazia
só que com requinte de moda.”

Para quem mora em São Paulo há 11 anos, desde que sentiu que Belém estava pequena para suas ambições, André ainda consegue manter vínculos fortes com os velhos amigos, como se estivesse naquelas ruas diariamente. Acena para um que cruza na esquina, marca encontro com outro, abraça um terceiro. “Chegando à minha cidade, revejo os colegas e fico tão feliz quanto eles ficam ao me encontrar. É uma emoção verdadeira. O paraense é extremamente bairrista. Quando vê algum conterrâneo vencendo, renova as esperanças”, afirma.

Essa influência do Norte nas criações e na vida de André começou a ser registrada no Círio 2003. A diretora Andréa Pasquini acompanhou os passos do estilista por sua Belém durante quatro dias para um documentário que deve ser exibido em um canal por assinatura em 2004 e também vai originar um livro pelas mãos do jornalista Pedro Autran. “André usa as referências locais para fazer arte nas roupas, como poderia pintá-las em um quadro”, define Andréa. Segundo o estilista, a idéia é mostrar que a sua inspiração está, principalmente, em casa. “Saio de Belém sempre revigorado”, diz ele. “Mas não é uma biografia até porque não tenho idade para isso.”

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