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20/10/2003

   
 
Fotos: Leandro Pimentel
Fotos: Leandro Pimentel
Ano passado, ele ganhou uma medalha da ONU em reconhecimento ao seu trabalho em prol dos direitos humanos

 

Música
Maldito paz e amor
Ao completar 60 anos, Jards Macalé vê sua
idéia de incluir a palavra amor na bandeira
do Brasil se transformar em projeto de lei

 
Luís Edmundo Araújo
 

Jards Macalé já tinha começado a se apresentar no segundo dos três shows em comemoração aos seus 60 anos, no Espaço Cultural Sérgio Porto, no Rio, quando contou à platéia a notícia que recebera naquela quarta-feira 8. Em Brasília, o deputado federal Chico Alencar (PT) tinha proposto um projeto de lei para a inclusão da palavra amor na bandeira nacional. Era o ápice de uma campanha criada no início da década de 80, assim que o compositor ouviu a música “Positivismo”, de Noel Rosa, posteriormente gravada por Macalé. “Estava lá o lema inteiro do Augusto Comte (filósofo francês fundador do Positivismo), o amor por princípio, ordem por base e progresso por fim”, explica.

Animado a propor a mudança após receber um bilhete de Macalé, há três semanas, Chico Alencar acredita na alteração. “Na criação de um novo Estado, é incluída uma estrela. Por que não botar quatro letras e uma vírgula a
mais na bandeira. Trata-se de resgatar um lema”, diz. Se
isso acontecer, o compositor já prevê seu futuro. “Quero
ver as crianças respondendo na escola: ‘Quem descobriu
o Brasil? Pedro Álvares Cabral. Quem botou o amor na bandeira? Jards Macalé’.”

Seria a inclusão nos livros de histórias de alguém que se cansou de ser chamado de maldito. Aceitável durante a ditadura militar, já que tinha relação com a luta contra o regime, o rótulo começou a incomodar a partir de 1985. “É preguiça mental. Rotularam o que não compreenderam”, afirma o músico nascido na Tijuca, zona norte do Rio,
que, escutava o vizinho Vicente Celestino cantando “O
Ébrio” para exercitar a voz.

Macalé circulou entre os maiores nomes da música de
sua época. Aos 8 anos, aprendeu a tocar violão pegando carona nas aulas dadas a uma vizinha, até que, aos 16,
ficou amigo de Chiquinho Araújo, filho do maestro da Orquestra Tabajara, Severino Araújo. Ao violão, e com o parceiro na bateria, formou o grupo Dois no Balanço, no-
me trocado diversas vezes na medida em que entravam e saíam componentes da banda.

É dessa época a amizade com Dori Caymmi, que levou Jards a conhecer a casa de Dorival Caymmi em Copacabana e incutiu no jovem músico o hábito de assistir a ensaios de mestres como Baden Powel e Tom Jobim, de quem foi se tornando amigo. Mesclado ao trabalho de copista da Orquestra Tabajara, que dava a Macalé uma noção dos timbres de cada instrumento, a presença nos ensaios foi formando a identidade musical do autor de “Vapor Barato”.

Mas o primeiro disco solo (Jards Macalé, de 1972) só sairia na volta ao Brasil, após um ano em Londres com Caetano Veloso. O convite do amigo baiano foi providencial. Após escandalizar o público do 4º Festival da Canção com a música “Gotham City”, em 1969, Jards foi abordado em
casa por dois policiais. “Me perguntaram se eu sabia nadar
e disseram para eu me preparar que me levariam depois
para passear na Baía de Guanabara”, lembra o músico. Com medo, Macalé foi para a Bahia onde ficou até receber o convite de Caetano.

A resposta do compositor veio cinco anos depois. Em 1974, lançou o disco Aprendendo a Nadar em plena Baía de Guanabara, numa festa dentro de uma barca. Sem avisar
a ninguém, alugou uma outra embarcação para ficar por perto. Após tocar o Mambo da Cantareira, jogou-se na Baía
e nadou até o barco. “Saí todo sujo de óleo, mas foi o meu manifesto”, conta.

Em O Banquete dos Mendigos, gravado em 1973 mas só liberado em 1979, o compositor reuniu músicos como Luiz Melodia e Chico Buarque para gravar o disco com renda revertida para o Centro de Direitos Humanos. Ano passado, reeditou a experiência com um show em São Paulo, que
lhe valeu uma medalha da ONU, em reconhecimento ao trabalho em prol dos direitos humanos. Nada mal para
quem é chamado de maldito.

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