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20/10/2003

   

Política / Fernando Gabeira
O PT está rompendo compromissos
Primeiro petista a anunciar a saída do PT por insatisfação
com o tratamento recebido e com as políticas adotadas
pelo governo, o deputado diz que a administração Lula
toma as decisões que os liberais tomariam

Cecília Maia

 
Felipe Barra
Há dois anos no PT, o deputado antes era do PV: “Se eu precisar me eleger de novo, estudo a possibilidade de entrar num partido”, diz

Raras vezes se viu o deputado Fernando Gabeira (PT-RJ) perder a paciência. Aos 62 anos, ele demonstra tranqüilidade. Amante da natureza, vegetariano, adepto dos exercícios físicos diários – faz natação – Gabeira é capaz de manter a fala pausada e calma mesmo diante da mais calorosa discussão. Na sexta-feira 10, no entanto, três dias após anunciar sua saída do PT, ele quase perdeu a compostura. Ficou furioso depois de tomar um chá de cadeira de uma hora na ante-sala do ministro da Casa Civil, José Dirceu, que havia lhe convidado para uma reunião em que seriam discutidas mudanças na política ambiental, alvo de críticas de Gabeira. O que seria uma tentativa de reconciliação, porém, agravou ainda mais a situação. Cansado da espera, o deputado se retirou do Palácio do Planalto mais decidido do que nunca. “Eu não só mantenho minha decisão de sair como lamento que um dirigente da estatura dele tenha tido essa atitude. Mas ela é apenas um reflexo do que o PT e sobretudo a cúpula do PT teve comigo nos últimos nove meses”, atacou.

Gabeira passou o fim de semana em Búzios, onde preparou seu discurso de despedida. Não quis mais falar sobre o caso. Procurado por Gente, o ministro Chefe da Casa Civil também deu o assunto por encerrado. O silêncio deles marca o fim de um capítulo da história do Brasil. Em 1968, o jovem Fernando Gabeira, um ex-guerrilheiro do MR-8, comandou o histórico seqüestro do embaixador norte-americano, Charlie Elbrick, cuja liberdade estava condicionada à libertação e o exílio de 15 militantes de esquerda. Foi assim que José Dirceu se livrou das amarras da ditadura militar. “É importante que a gente termine essa relação histórica de maneira mais elegante”, avaliou Gabeira, decepcionado com o companheiro.

“As decisões são tomadas por
um núcleo pequeno e fechado”

Sua decisão tem volta?
Do ponto de vista humano e emocional eu valorizo muito as manifestações que tenho recebido, mas não é essa a questão. A questão é política, a não ser que haja uma reviravolta na política ambiental, na visão da relação do governo com a bancada, coisas que dependem de muito boa vontade.

O que dói mais: o fato de o governo não estar se relacionando devidamente com a bancada ou as decisões ambientais que não agradam ao senhor?
Você pode não se relacionar com a bancada e cometer uma série de erros ou acertos. Se você não se relaciona e comete uma série de acertos o nível de tolerância é maior. O que está acontecendo é uma combinação do não relacionamento com uma série de erros.

Erros na área ambiental e econômica?
Jamais combati a política econômica, apenas defendi que era possível uma revisão da nossa relação com o FMI. Acho que o superávit primário deve depender da conjuntura, você não pode viver um superávit primário de uma conjuntura de guerra, por exemplo. E você deve considerar os gastos de infra-estrutura como investimento e não como despesa. São questões que já estão maduras para serem aceitas.

Na questão ambiental sua decisão de sair foi motivada pela edição da MP que autoriza o plantio de soja transgênica?
Nessa área são vários os problemas e eu estou saindo pelo conjunto da obra. O Brasil se tornou o primeiro país do mundo a autorizar a plantação dos transgênicos sem uma regra. Isso não existe na história da humanidade. Todos os países que autorizaram a plantação dos transgênicos teceram um conjunto de regras. O Canadá, por exemplo, examinava duas propostas da (empresa) Monsanto de (plantação de) canola. Uma ele aprovou e a outra disse que teria que estudar mais. Apareceram vestígios dessa que ainda estava em estudo (sobre o impacto) no meio ambiente e eles mandaram recolher tudo. Foram US$ 12 milhões de prejuízo para os plantadores e US$ 24 milhões de prejuízo para a Monsanto. Aqui não, você pode plantar, desde que já tenham plantado e a gente esteja diante de um fato consumado. Isso não existe.

Acha que o PT se desviou do seu caminho original?
O PT está rompendo com alguns compromissos programáticos e para que isso aconteça é preciso uma reflexão e uma satisfação com os seus parceiros. Veja um exemplo: na época da nova República eu lutava contra a censura e o ministro (da Justiça) Fernando Lyra, que também era contra, um dia me chamou e disse: “O presidente Sarney mandou eu proibir o filme Je Vous Salue Marie – do cineasta francês Jean Luc Godard, que a igreja não queria. E eu vou proibir”. Respondi que iria desobedecer. Passei o filme para um grupo de pessoas lá no Rio, a Polícia Federal me prendeu e nós dois continuamos amigos.

Hoje o seu partido está no governo e o senhor não tem esse nível de relacionamento?
O problema nesse governo é que as pessoas rompem e nem te avisam. No caso dos transgênicos, o Lula rompeu, foi para os Estados Unidos e deixou o (vice-presidente) José Alencar, que se intitula ele mesmo um pobre coitado, para resolver uma coisa que não entendia. De repente me vejo tentando convencer o José Alencar a não fazer isso. Ora, mas não tenho nenhum compromisso com o José Alencar, meu compromisso é com o Lula. Foi com o Lula que eu viajei mil quilômetros na Caravana da Cidadania. Foi com ele que fiz centenas de comícios pelo Brasil. Ele tinha de dizer: “Olha, Gabeira, a pressão tá forte, eu vou abrir”. Aí eu diria: “Então vou para a resistência”. Mas eles fazem, não dão nem bola, não estão nem aí. Isso é dificuldade de encarar olho no olho num momento difícil.

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