Veja também outros sites:
Home •• Revista ••• Reportagens  
Reportagens

20/10/2003

   
 
Leia mais
O primeiro papa do século XXI
10 imagens marcantes
do Papa
 

 

Capa
O calvario de João Paulo II
Aos 83 anos de idade, o Papa comemorou os 25 anos de pontificado com atividades que se estendem até o domingo 19, mas sua saúde frágil, comprometida pelo mal de Parkinson, precipita o debate sobre a sucessão

Fábio Farah
colaborou Luís Edmundo Araújo

 
EFE
As comemorações dos 25 anos de pontificado
durarão cinco dias e no domingo 19 o papa
beatificará Madre Teresa de Calcutá

No dia 13 de dezembro do ano passado, D. Lorenzo Baldisseri foi nomeado núncio apostólico para o Brasil, o embaixador da Santa Sé. Acostumado com um homem que faz breves perguntas e fica em silêncio durante muito tempo, atento às respostas, ele se surpreendeu com o papa. João Paulo II falava mais do que ouvia. Mostrava fascinação pelo Brasil desde 1980, primeira das quatro vezes que esteve aqui. “Ele estava bem, muito consciente. Ele disse que eu tinha uma responsabilidade muito grande porque ele tinha o Brasil dentro do coração”, diz o núncio, que ultimamente notou, pela tevê, fragilidade física no papa. “Parece que ele não pode caminhar mais, está sempre sentado. Também tem um pouco de problema na fala e às vezes a interrompe.” Ainda assim, segundo Baldisseri, ele é o governo da Igreja.

A agonia pública de João Paulo II, 83 anos, ganha vulto às vésperas da celebração de seus 25 anos no comando da Igreja Católica. Prevista para durar cinco dias, a agenda
será intensa, com discursos, reuniões com os cardeais e missas. O auge das comemorações do pontificado do quarto papa mais longevo da história acontecerá na quinta-feira
16, dia que ele completa um quarto de século no trono de Pedro. Nesta data, ele deverá rezar uma missa na praça do Vaticano. No domingo 19, ele beatifica Madre Teresa de Calcutá e encerra os festejos.

A política do Vaticano tem sido contraditória em relação à saúde de João Paulo II. No começo do mês o cardeal austríaco Chistoph Schöenborg, homem que aparece na lista dos prováveis sucessores de João Paulo II, fez uma declaração polêmica a uma rádio local: “O mundo inteiro está observando um papa que está doente, debilitado e morrendo – eu não sei o quão perto da morte ele está – que está se aproximando dos últimos meses e dias de vida”. O comentário fez eco ao que disse o cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para Doutrina e Fé e um dos homens mais poderosos da Cúria, uma semana antes a uma revista alemã: “Ele está mal e os católicos devem rezar por ele”. O próprio papa, em maio, fez referência à sua morte: “Cada vez mais me conscientizo de que se aproxima o momento em que devo me apresentar diante de Deus”, afirmou.

Os rumores sobre a frágil saúde do papa são constantes.
Na sexta-feira 10, agências de notícias italianas, citando fontes médicas do Vaticano, disseram que estaria em consideração a hipótese de submeter o papa a diálise. O objetivo seria eliminar do organismo o excesso de drogas usadas para combater o mal de Parkinson, o que causou estranhamento. “Não existe diálise para remover do rim excesso de medicamentos para combater Parkinson”, diz Hugo Abensur, coordenador do departamento de Diálise
da Sociedade Brasileira de Nefrologia. “Pela idade avança-
da, ele poderia fazer diálise por insuficiência renal crônica. Isso acontece quando o rim perde 90% de sua capacida-
de.” Mais tarde, o porta-voz da Santa Sé, Joaquín Navarro Valls, desmentiu essa notícia.

ATENTADO EM 1981 Atlético na juventude, o papa viu
sua saúde se deteriorar a partir do atentado que sofreu na Praça de São Pedro, em 13 de maio de 1981, quando foi alvejado com três tiros pelo turco Mehmet Ali Agca. Os médicos tiveram que retirar 30 centímetros de seu intestino, pois uma das balas perfurou o abdome. Em junho e agosto do mesmo ano, sofreu duas operações por causa de infecção de citomegalovírus. Em 1992, retirou um tumor do intestino, no ano seguinte quebrou a omoplata depois de uma queda e ficou engessado. Em 1994, ele se desequilibrou no banheiro, fraturou o fêmur e teve que implantar uma prótese na cabeça do osso. Foi quando ele admitiu publicamente sua fragilidade dizendo que a Igreja devia aprender com o sofrimento e ver nele não um desígnio mortal de Deus, mas uma decorrência da fragilidade humana. Também afirmou
que governaria a Igreja enquanto tivesse lucidez mental, apesar do corpo alquebrado.

Daí em diante sua saúde declinou rapidamente – e a olhos vistos – por conta do mal de Parkinson, diagnosticado em 1994. A doença, neurológica e de curso vagaroso, afeta os movimentos. Causa tremores, lentidão, rigidez muscular e alterações na fala e na escrita, mas não afeta a memória ou a capacidade intelectual. Por isso, especulou-se que ele renunciaria em 2000 e viveria como monge, deixando as atividades mais burocráticas para seu sucessor.

MANDATO PAPAL Esses rumores foram alimentados pelo cardeal belga Godfried Daneels, que escreveu um livro defendendo um mandato papal para que a Igreja não ficasse à mercê da fragilidade humana. “Ele já cumpriu uma missão heróica. Não é preciso que chegue ao martírio de se oferecer em holocausto por conta da Igreja”, diz o teólogo Fernando Altemeyer, professor de Teologia e Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica (SP), que se alinha com a postura de Daneels. “Todos aceitariam muito bem. Mas parece que ele não aceitou. Ele acha que deve ir até o fim porque nos últimos 500 anos ninguém renunciou e isso poderia criar uma celeuma interna.”

Para o teólogo e bispo auxiliar do Rio de Janeiro D. Felipo Santoro, essa situação só fortalece a imagem do papa. “Ele está dando um exemplo de como se levar até o fim um mandato recebido”, diz. Na opinião dele, quando terminar o papado, o Santo Padre terá deixado mensagens humanistas e políticas. “O convite à vida e o interesse por todos os problemas humanos são suas características desde os primeiros pronunciamentos. Além disso, o papa sempre será lembrado como um opositor dos regimes totalitaristas, sejam comunistas ou de qualquer outra idelologia.” Para o padre e reitor da PUC-RJ, Jesus Hortal, o principal legado de João Paulo II será a reunificação da Europa. Segundo ele, a primeira viagem do pontífice à Polônia, sua terra natal, em 1979, gerou no povo do Leste Europeu um sentimento de
que a abertura dos regimes comunistas era possível, ainda que só fosse iniciada, de fato, em 1989, com a queda do Muro de Berlim. Como último papa do século 20, João
Paulo II já fez história.

Comente esta matéria
 
 

Clique para vê-la ampliada
EDIÇÃO 220
ENQUETE

Você acha que o
próximo Papa deve
ser um africano?

QUEM SOU EU?

BATOM E PERSONALIDADE

DANIELLE WINITS

 BUSCA

O PARCEIRO IDEAL

RESUMO DAS NOVELAS
Saiba o que vai acontecer durante a semana na sua
novela preferida
• Fale conosco
• Expediente
• Assinaturas
• Publicidade
 
| ISTOÉ | ISTOÉ DINHEIRO | PLANETA | EDIÇÕES ANTERIORES | ESPECIAIS |
| ASSINE A NEWSLETTER | ASSINATURAS | EXPEDIENTE | FALE CONOSCO | PUBLICIDADE | AVISO LEGAL
© Copyright 1999/2003 Editora Três