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12/05/2003

   
 
Fotos: Piti Reali
Aos 42 anos, ela tem 15 de carreira. “Tá prometendo essa menina, né? É o que parece”, diz o pai, Alaor Caffé, sobre o sucesso de Eliane
Fotos: Piti Reali

Em sua estréia como diretora esqueceu de falar “câmera” e a cena não foi gravada. “Era a única que nunca tinha entrado num set”, conta

 

Cinema
Com lentes de narradora
Diretora de Narradores de Javé, filme mais premiado do Festival de Recife, Eliane Caffé não grava sem fazer o sinal da cruz e encarou as filmagens no sertão com kung fu e alongamento

Juliana Lopes, do Recife

 

Tão logo terminou a sessão de Romeu e Julieta, num cinema de Santo André, São Paulo, em 1973, uma menina de 12 anos saiu flutuando, e assim ficou dias e dias. Antes veio a decepção de se deparar com aquela realidade tão sem glamour, uma claridade nas ruas de paralelepípedos, o muro da estação de trem. Nada tinha graça para aquela menina. “Eu queria estar no mundo da Julieta”, relembra a cineasta Eliane Caffé, diretora do filme mais premiado do Cine PE, o festival de cinema do Recife. Segundo longa-metragem da diretora, Narradores de Javé -- que conta a história dos moradores de uma cidade no sertão que será inundada -- levou nove estatuetas, inclusive a de melhor filme.

Aos 12 anos, a idéia de Eliane era ser atriz ou escritora. Mais tarde decidiu fazer psicologia e, casada com o cineasta Ivo Branco, começou a entender que seus desejos se convergiam no cinema: a necessidade de criar ficções pela escrita e a imagem. Estudou um ano de roteiro em Cuba, na escola onde o escritor Gabriel García Márquez leciona até hoje. Voltou inspirada e, em 1987, ganhou prêmio de incentivo para filmar seu primeiro curta-metragem.

Com uma equipe contratada pelo prêmio e tudo pronto para transformar seus sonhos e aspirações em imagem, a carreira de Eliane parecia caminhar sem percalços. Mas na primeira vez em que teve de dizer “som, câmera e ação”, o comando do diretor que coloca todo o set em sintonia, ela não disse. “Som” e “ação” foi o que conseguiu soltar. “Esqueci do câmera”, relembra Eliane, 42, quinze anos após estrear como diretora. Naquela exata hora os atores entraram em ação, a equipe toda se posicionou, mas a câmera não foi ligada por falta de comando. Risadas tomaram conta do set, mas, com olhos que impõem respeito, Eliane filmou até o fim seu curta O Nariz, adaptação de um conto de Luis Fernando Verissimo. “Eu era a única que nunca tinha entrado num set”, conta.

Kenoma, o primeiro longa da diretora, de 1998, rendeu-lhe de cara um prêmio no Festival de Biarritz, na França. A notícia chegou no aparelho de televisão ligado no Jornal Nacional, na sala da casa da família da diretora. Foi quando seu pai, Alaor Caffé, professor de Filosofia do Direito na Universidade de São Paulo, parou de encrencar com a carreira da filha. Seu olhar desviou de uma das inúmeras pilhas de livros espalhadas pela casa quando viu a reportagem. “Ele se emocionou”, conta Eliane, que, na época tentou investigar cada expressão no rosto do pai, através da mãe. “Ele não chorou”, diz a mãe, a pedagoga e estudante de Psicologia Maria Helena. “Ela teve garra, saiu à frente do que queria, mesmo sem dinheiro. Conseguiu patrocínio e fez. Tá prometendo essa menina, né? É o que parece”, comentou o pai animado, depois dos prêmios no Recife.

O sorriso do pai sempre tão cético, racional e por vezes sisudo foi uma das recompensas de Eliane. Quando filma, o espírito da diretora se altera completamente. “É como se baixasse alguma coisa em mim, como se eu ficasse possuída naquele momento”, explica. Ao entrar no set, faz o sinal da cruz e antes de uma cena complicada aperta o amuleto que leva no peito. Em Narradores usou uma medalha de São Jorge, o santo protetor do filme.

Foi preciso alongamento e muito kung fu para não ficar doente durante as filmagens no sertão. Adoeceu depois, uma semana de gripe, como de praxe em seus filmes. Nada que a faça desistir desse moto contínuo que é criar, produzir e filmar. “Não sei que força é essa que acontece quando estou filmando. É como se fosse a coisa mais importante de tudo, como se minha vida inteira dependesse daquilo”, diz.

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