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12/05/2003

   
 
Leandro Pimentel
“Existem promessas, como a Maria Rita, filha da Elis. Me falaram que é um fenômeno, e eu acredito, porque essa tem pedigree”, diz ele
“No meu padrão de qualidade Roberto Carlos não pode nem começar. Já fui até expulso de
um táxi porque falei
mal do Roberto’’
Leandro Pimentel
“Não sei até onde vai o Carlinhos Brown, mas Marisa Monte e o
Arnaldo Antunes têm cultura. E se uniram
para ganhar grana’’
sobre os Tribalistas

 

Música / Dori Caymmi
“Os Tribalistas são uma armação”
Compositor lança CD, ataca Roberto Carlos, Sandy, Kelly Key e o rock nacional e diz que parava se tivesse de se vender para ficar famoso

Luís Edmundo Araújo

 

Conhecido pelo radicalismo quando o assunto é música brasileira, o compositor Dori Caymmi, 59 anos, acaba de lançar Contemporâneos, CD que reúne obras-primas da sua geração, com participações de Chico Buarque, Caetano Veloso e Edu Lobo, além dos irmãos Nana e Danilo Caymmi. Mais do que uma continuação de seu último disco, Influências – em que homenageou o pai, Dorival Caymmi, e outros mestres da geração anterior –, o novo disco serve de bandeira para Dori defender a MPB de sua época e criticar a atual, sem poupar nem mesmo os homenageados. “Quis mostrar como era a minha geração, e como era bom”, diz ele, que hoje mora em Los Angeles com sua atual mulher, Helena, 49. Ele se diverte com a própria fama de radical. “Não sou nem mais xiita. Agora sou curdo”, brinca.

Foi difícil reunir esses ídolos da MPB num disco?
Algumas pessoas são mais generosas ou têm mais tem-
po. O Chico foi de uma generosidade enorme. O Caetano
não tem tempo, mas também foi generoso com relação ao primeiro disco e a esse. Foi à gravação sozinho, parou o carro fora do estúdio porque não tinha vaga e não disse nada. Gravou, ficou feliz. Temos uma grande amizade. Ele sabe que discordo de uma porção de coisas, mas existe
um respeito grande de um para o outro.

Em que discorda dele?
Sou músico testemunha ocular da história. Não doei
meu tempo para essa coisa de artista, porque teria de encontrar um montão de mulher chata para botar na
frente, me fazer de Deus e ficar dizendo que sou lindo
o dia todo. Acho isso muito tupiniquim.

Existe essa barreira entre você e Caetano?
Não tenho acesso a ele com facilidade. Por sorte, fizeram uma homenagem a meu pai no Carnaval baiano, naquele trio elétrico que, Caetano que me perdoe, é insuportável, o barulho e tudo. Encontrei ele lá e depois marcamos a gravação, por intermédio de outras pessoas. Mas sempre adorei Caetano e Bethânia como gente.

E Gilberto Gil?
Gil foi meu cunhado, casado com Nana. Foi a mim que ele pediu a mão da Nana em casamento, quando voltávamos de uma gravação, de táxi, no Rio. Durou um tempo, foi bom para os dois e fiquei feliz da vida. Tenho admiração pelo trabalho dele, mas também condeno certas coisas.

Condena o quê?
Ele não precisava gostar de Bob Marley, porque não há Bob Marley que se compare à tristeza no coração do Gil ao ser exilado quando ele fez “Aquele Abraço”. Meu pai adora. Gil pensa que papai vai gostar do “Buda Nagô”. Não, papai gosta do “Aquele Abraço”. Acho Gil muito melhor que Bob Marley, mas é o gosto pessoal dele. Só acho que o fato de ele gravar Bob Marley leva uma porção de garotos a seguir essa, e a música do Brasil vai acabando.

Bob Marley não é bom?
Não agüento nem ouvir o nome, e tem gente que bota
o nome no filho. A Bahia não tem mais Jorge Amado e
Dorival Caymmi. Tem Bob Marley, e o Carlinhos Brown
é um segmento disso. Mas esse já não posso esculhambar porque é genro do Chico.

Por que a fama de crítico radical?
Conheço toda a formação da minha geração e respeitam
isso. Não vi o dilúvio, mas pisei na lama. Só que às vezes,
do jeito que as pessoas colocam, parece que estou cus-
pindo no prato que como. Não é isso. Falo com carinho
dos grandes nomes e das pessoas que me ajudam, só não gosto quando eles abrem concessão.

Que tipo de concessão?
Não boto a mão em ombro de roqueiro porque não dá sorte para mim, não gosto. O rock foi criado para contestar porra nenhuma. No fundo, a biografia deles é a mesma nos Estados Unidos. Ensaio na garagem, fama, droga e decadência.

Não vê valor num Renato Russo?
Venho de Villa Lobos, Noel Rosa, Dorival Caymmi e Tom Jobim. Onde cabe o Renato Russo aí? Ele gostava dos Beatles. Por mim, os Beatles tinham ficado na Inglaterra. O que deturpou o Brasil culturalmente foi a entrada dessas pessoas. Ouvir os Beatles é bacana, usar e imitar os Beatles é ruim para o Brasil. Mas tem o lado comercial, o rock faz uma grana cabeluda. A música popular não faz.

Por que foi morar em Los Angeles?
Por total desgosto. Não posso mais ver essa desfiguração, essas marmeladas. Nenhum outro povo ia engolir um sapo como o do Collor: confisco dos seus bens. No 1º de maio tava saindo porrada na Alemanha, na França, todo mundo brigando, e nós na praia. Show do Daniel, do Padre Marcelo, padre que canta não existe.

Qual seria a solução para isso?
Se você segue os princípios dos sábios, Drummond na poesia, Guimarães Rosa na literatura, Noel Rosa na música, vai preparar um povo mais educado. Agora, com pagode, funk e pobreza não dá. E hoje quem bebe na fonte de Noel tá escondido. Ninguém deixa entrar. Até o rock brasileiro corre riscos, tanto que fizeram uma montagem agora, com Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte.

Não gosta dos Tribalistas?
Isso é pavoroso porque essas pessoas têm cultura. Não sei até onde vai o Carlinhos Brown, mas a Marisa Monte e o Arnaldo Antunes têm cultura. E se uniram para ganhar grana. É uma armação. Não tenho nada pessoal contra eles, podem fazer o que quiserem. Só têm de entender que estão contribuindo para essa coisa que tá deteriorando a cultura mundial. Nos Estados Unidos também, Aguilera, Britney Spears, é fabricado. Só que lá se canta bem, porque canta-se na igreja desde pequeno. E lá tem grana, incentivo, então Mariah Carey você escolhe às dúzias.

O que acha da Sandy?
A Sandy é uma boa cantora, mas não é uma cantora brasileira, porque está inserida em tudo isso que eu falei. Cantora brasileira é Elizeth Cardoso, Maria Bethânia. Marisa Monte já não é. E se não acho a Marisa Monte cantora brasileira, como vou achar a Sandy?

Por que Marisa Monte não é brasileira?
Ela já vem com os vícios. É como você pedir a Mariah
Carey para cantar jazz. Eu ouvi e não dá. Não conheço
a formação da Marisa, mas acho que ela já começou
errado. Tudo bem que ela é uma diva pop, mas não a considero cantora brasileira.

Quais são as cantoras brasileiras de hoje?
Para mim parou na geração de Elis, Gal Costa e Bethânia. Existem promessas, como a Maria Rita, filha da Elis. Não ouvi ainda, mas já me falaram que é um fenômeno, e eu acredito, porque essa tem pedigreee dos dois lados. O César (Camargo Mariano, pai de Maria Rita) é um músico maravilhoso e a Elis é a rainha dos compositores da minha geração. Ela que lançou cobras como Aldir Blanc, João Bosco, Ivan Lins.

Acha que o mercado dará chance a Maria Rita?
Se ela não fosse filha da Elis não ia nem começar. Graças a Deus ela é filha da Elis, e infelizmente também vai sofrer um pouco com essa maldita comparação. Se você for analisar, eu sou um arranjador porque foi assim que escolheram para eu viver no Brasil. Seja um arranjador e não faça mais nada.

Sentiu o peso do sobrenome?
A minha geração toda pulou na minha frente. Quando gravei meu primeiro disco, em 1971, Milton Nascimento já tinha estourado. Caetano e Gil também. Gravei com medo de não ser aceito, porque havia o nome, Dorival Caymmi, e eu sou Dorival Caymmi. Nenhum dos amigos de meu pai me deu força. Só quem me protegeu foram Luiz Eça e Tom Jobim, mas com a proteção desses dois dei banana para o resto. Comecei a gravar violão, acompanhava o Baden Powell. Meu violão era Baden e João Gilberto, os dois mentores. Por necessidade mesmo fui ficando mais ligado ao artesanato musical. Não tive a chance de conhecer o outro lado da personalidade, que é a fama, mas via a fama nas outras pessoas, e tomei o cuidado de evitá-la. Se tivesse de me vender para ficar famoso, eu parava.

A fama desvirtua a música?
Completamente. O Michael Jackson faz aquelas operações todas para chamar a atenção, porque ninguém quer mais ele. A subida faz você nojento, e o tombo é horrível. Não incluo nisso a minha geração porque nesse caso a coisa foi mais gradativa. Esses patamares subidos por Gil e Caetano foram com o tempo. Tiveram várias fases, inclusive o Tropicalismo, de que eu não gosto.

Por quê?
Foi uma jogada comercial, como os Tribalistas. Claro que com uma qualidade melhor, porque estamos falando de Gil e Caetano. Mas depois vieram Jorge Mautner, uma porção de gente que não existia, e que eu não ouvi. Dali vêm Cazuza, Renato Russo, começa o rock dos anos 80 e mata tudo, porque virou a coisa do vamos ganhar dinheiro.

O que acha de artistas como Kelly Key ou MC Serginho, autor de “Egüinha Pocotó”?
Aí é o degrau de baixo, a lama. É tudo produto de marketing. Já vi o pagode mudar de nome umas 15 vezes e é o mesmo som. Autêntico só o Zeca Pagodinho. Esse é bom, é o carioca do subúrbio, engraçadão.

O senhor também não gosta de Roberto Carlos?
No meu padrão de qualidade ele não pode nem começar. Gosto mais do Erasmo, acho que ele estava mais próximo da música do Brasil. Já fui até expulso de um táxi porque falei mal do Roberto. O motorista abriu o porta-luva lotado de discos do Roberto e me mandou descer. E o pior é que eu só tinha falado que o Roberto era supersticioso (risos).

O que acha de Gil no governo?
Tenho esperança porque ele é inteligente e articulado. Ele é mais corajoso que eu. Não aceitaria esse cargo, porque a corrupção na política ministerial é violenta. Só espero que não exponham o Gil a uma saraivada de balas, porque você descobrir a mutreta e entregar é jogo duro.

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