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21/04/2003

   
 
Arquivo Pessoal
Católico fervoroso, ele apanhou de soldados iraquianos e rezava para ser libertado: “O povo batia com raiva”, disse ao irmão
AP
Na segunda-feira 14, soldados americanos prendem árabes não iraquianos por andarem em veículos cheios de armas e, supostamente, planejarem uma emboscada
Reuters
Após a tomada de Bagdá, fuzileiro naval americano cobre a cabeça da estátua de Saddam com bandeira dos Estados Unidos, uma cena que já simboliza esta guerra
Arquivo Pessoal
“Estou no paraíso. Quero tomar banho, fazer a barba e comer’’ Giovanni Favero, ao chegar na Síria

 

Guerra
Um brasileiro nas masmorras
de Saddam
Giovanni Favero, voluntário da Cruz Vermelha, conta o horror que passou em prisão do Iraque após ser confundido com espião americano

 

Era manhã de sábado, 29 de março. Um jornalista da rede de tevê árabe Al-Jazeera e cinco voluntários da Cruz Vermelha, entre eles o brasileiro Giovanni Pietro Ferri Favero, 39, tinham sido levados por soldados iraquianos para verificar se os prisioneiros de guerra anglo-americanos estavam sendo maltratados. Ao chegar na prisão Giovanni viu um soldado americano com feições mexicanas. “Está tudo bem? Vocês estão sendo agredidos?”, perguntou, em espanhol, sob o olhar vigilante dos iraquianos, ao brasileiro filho de italianos nascido em Campinas. “Vocês só podem conversar em inglês ou árabe”, esbravejou um oficial, levando os visitantes para fora. “A visita está suspensa.”

Na volta para o alojamento da Cruz Vermelha, tensos e quase calados, eles foram perseguidos pelos soldados de Saddam. Carros oficiais cercaram a van, forçando o motorista a parar. “Quem são vocês e para onde estão indo?”, inquiriram. “Somos da Cruz Vermelha”, respondeu um deles. A explicação foi inútil. O jornalista da Al-Jazeera foi solto no mesmo dia, mas Giovanni, que estava no país desde 10 de março para ajudar na distribuição de remédios, não teve a mesma sorte. Confundido com um espião inimigo, o brasileiro foi preso e antes que pudesse responder as perguntas, apanhou: levou chutes na canela, tapas no rosto e puxões no cabelo. “O povo batia com raiva”, relatou, já em liberdade, ao irmão Nerlinton Favero.

Naquela noite, com dores no pescoço e na perna, Giovanni não conseguia dormir. Católico fervoroso, rezava várias vezes para Nossa Senhora, Santa Rita e Santo Antônio, pedindo para que tudo desse certo no final. Também não parava de pensar em sua mãe, morta há dois anos. “Não vou sair vivo dessa. Não queria dar a minha mãe o desgosto de estar aqui”, repetia para si mesmo.

No dia seguinte, 30 de março, diante dos agressores, Giovanni lançou mão de um último recurso: “Sou brasileiro”, disse em árabe, língua que aprendeu em 1960, quando trabalhou para uma Companhia Petrolífera em Riad, Arábia Saudita – um dos sete idiomas em que é fluente. Admiradores do futebol da terra de Pelé, os soldados começaram a tratá-lo bem e fizeram perguntas sobre jogadores da seleção. As preces de Giovanni foram atendidas. Na mesma noite ele estava no alojamento da Cruz Vermelha, em liberdade, convencendo outros voluntários a deixarem Bagdá.

A situação na cidade estava crítica. Nos hospitais, faltavam remédios e anestesia para as cirurgias, que eram feitas a sangue frio. Dias antes de sua prisão, Giovanni ficara impressionado com a cena de dezenas de corpos empilhados, vítimas civis da guerra, na sala de um hospital. Crianças mutiladas – chorando de dor – chegavam sem parar. A capital iraquiana estava sendo castigada por bombardeios cada vez mais pesados, e a aproximação dos soldados anglo-americanos prometia batalhas sangrentas nas ruas da cidade. “A coisa é horrível e desumana. A gente tem que dar valor ao país que tem. Chega um momento em que é cada um para si e Deus para todos”, disse ao irmão Nerlinton. “Tentarei sair daqui.”

O brasileiro e outros voluntários conseguiram somar
US$ 2.000 e convenceram um motorista a levá-los para Damasco, na Síria, na terça-feira 2. A viagem de 600 km foi tumultuada. Conforme se aproximavam da fronteira, eram parados em blitz de soldados americanos. Numa das vezes o motorista não escutou a ordem para parar imediatamente e uma bomba foi arremessada. Explodiu perto do carro. De novo, os voluntários da Cruz Vermelha ouviram o sussurro da morte. “Fiquei apavorado, pensei na família e rezei”, contou Giovanni ao irmão.

Após 20 horas de viagem, ele chegou a Damasco. Seguiu para um hospital mancando e com dores por todo o corpo. “Estou no paraíso. Quero tomar banho, fazer a barba e comer”, disse Giovanni, que pretende seguir em breve para a Itália. Desde o início da ofensiva, Giovanni dormia de coturno e o uniforme de missões da Cruz Vermelha para poder acordar e sair correndo caso uma bomba caísse próxima ao alojamento. Ele conseguia tomar banho apenas uma vez por semana e, com a comida escassa, mal se alimentava.

Engenheiro químico, com doutorado nos Estados Unidos, Giovanni está fora do Brasil desde 1987. Mudou-se para Florença em 1991 e, desde então, vive entre a cidade italiana e Paris. Divorciado, pai de um filho, com uma italiana, é dono de uma pequena fábrica de cintos e gravatas em Florença. Ele sempre quis ser voluntário na Cruz Vermelha, mas nunca teve oportunidade na organização brasileira. Em Paris, escreveu uma carta para a sede francesa da entidade e foi chamado meses depois. Como voluntário, trabalhou na Etiópia e em Kosovo, durante a guerra.

Em sua fase de experiência, esteve no Iraque, logo após a Guerra do Golfo, para avaliar o reflexo do embargo econômico da ONU para a população. Era a primeira vez que visitava Bagdá. “O povo é muito sofrido e vive com medo do Saddam. Falam que gostam dele por medo de represália”, disse ao irmão. “Visitei um lugar com ossadas dos inimigos de Saddam Hussein. Ele é um ditador sangüinário.” Naquela época Giovanni não podia imaginar que 12 anos depois assistiria à ruína de Saddam e seria uma das vítimas do regime do ditador.

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