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Entrevista

21/04/2003

   
Claudio Gatti

Scliar: “Cidadania
não é retórica, é fundamental. Desigualdade social me faz mal, me faz sofrer”

 
CONTINUAÇÃO

Como um médico se tornou um ficcionista?

Sua família toda
está ligada à cultura?

Os escritores de fora do eixo Rio-São Paulo têm dificuldade em entrar no mercado?

 

Moacyr Scliar
“Escrevo um conto em
menos de uma hora”

Com 62 livros publicados, o escritor se candidata a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, fala de sua infância pobre e de como conciliou os estudos de medicina com a literatura

Marina Monzillo

 

Desde cedo, Moacyr Scliar deduziu que, para conciliar as profissões de médico e escritor, dois trabalhos que exigem muita dedicação, teria de se organizar e usar todo o tempo disponível. Isso significou, por algum tempo, abdicar de qualquer lazer. Durante anos, não teve nem tevê em casa. “Não podia me dar o luxo de olhar a televisão”, lembra.

O esforço valeu a pena. Casado e pai de um rapaz, o gaúcho de 66 anos atuou como médico sanitarista durante décadas e dirigiu o Departamento de Saúde Pública da Secretaria de Saúde e Meio Ambiente do Rio Grande do Sul. Autor de O Exército de um Homem Só e Sonhos Tropicais, Scliar tem
62 livros publicados, ganhou três vezes o prêmio Jabuti e é conhecido e lido em vários países.

No momento, Scliar também é o mais novo candidato a imortal. Nos próximos meses, estará em campanha para ocupar a cadeira que foi, até o mês passado, do romancista Geraldo França de Lima, na Academia Brasileira de Letras.

Em entrevista à Gente, o escritor falou da candidatura, de sua origem judaica e do episódio ocorrido no ano passado, quando o canadense Yann Martel, vencedor do prestigiado Booker Prize com Life of Pi, foi acusado de plagiar nesse romance um conto do brasileiro, “O Jaguar no Escaler”.

Por que se candidatou à Academia Brasileira de Letras?
Respeito a Academia. Acho que ela tem uma tradição importante neste país, foi fundada pelo Machado de Assis e raramente instituições culturais duraram um século no Brasil. Da minha geração, tem membros importantes, como o João Ubaldo Ribeiro e Nelida Pinõn, muitos com os quais eu convivo, como Lygia Fagundes Telles, Zélia Gattai e Carlos Heitor Cony. Por isso, tenho laços afetivos com a ABL. E tem a questão da relação da Academia com o Rio Grande do Sul. Tivemos um escritor, uma figura adorada, que foi o Mário Quintana. Ele se candidatou duas vezes e não foi eleito. Isso foi um grande trauma para o Estado, e até hoje é lembrado. Depois disso, o poeta Carlos Nejar foi eleito, mas acho que o Rio Grande do Sul pode ter mais representantes.

Acha que o Luis Fernando Verissimo também deveria
se candidatar?

Conheço-o bem, e acho que não é seu estilo. Ele não é dado a essa coisa de instituições. O Érico não quis entrar para a Academia. E a carreira do pai é uma referência para ele. Mas acho que a Academia ganharia muito.

Como um médico se tornou um ficcionista?
Meus pais são imigrantes judeus russos. Chegaram a Porto Alegre há quase um século. Eram muito pobres. Na minha infância, minha casa não tinha banheiro e era infestada de ratos. Meu pai mal sabia ler e escrever e mal ganhava para sustentar a família. Minha mãe, com sacrifício, se formou professora. Ela me introduziu na literatura. Uma vez por mês, me levava para comprar um livro. Eu ficava absolutamente deslumbrado, mas com medo de gastar muito. Ela sempre dizia que livro não podia faltar em casa. Isso me influenciou muito, mas, ao mesmo tempo, eu tinha uma vocação médica que nasceu de uma forma curiosa. Tenho medo de doença. Não de ficar doente, mas, quando meus pais e meus irmãos adoeciam, eu entrava em pânico. Comecei a ler sobre o assunto.

Então, as duas profissões surgiram ao mesmo tempo
na sua vida?

Sabia que seria médico e escritor. Publiquei meu primeiro
livro quando estava na faculdade de medicina. O que foi fundamental na determinação da minha vocação literária
é que meus pais eram grandes contadores de histórias. Na minha infância, como não havia televisão e a diversão era muito cara, a maneira de convívio era se reunir de noite,
tomar chá e ficar contando histórias. Meu pai tinha prazer nisso e fazia uma verdadeira encenação.

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