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24/03/2003

   
 
Divulgação
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Neville (à esq.) dirigiu A Dama do Lotação (acima) e Navalha na Carne e tem cinco documentários prontos

 

Artes plásticas
A fé tira Neville do pó
Neville d’Almeida, o diretor dos mais tórridos filmes nacionais, se converte à Igreja Presbiteriana, se diz livre das drogas e exibe, depois de 30 anos, as obras feitas com cocaína em parceria com Hélio Oiticica

Mariane Morisawa

 
Claudio Gatti
“Tínhamos uma premonição de que a cocaína era um veneno que ia infestar a sociedade americana’’ Neville d’Almeida

Sobre as paredes brancas do prédio de pé-direito altíssimo da Galeria Fortes Vilaça, em São Paulo, estão dispostos sonhos acalentados durante 30 anos por Neville d’Almeida. Em 1973, em Nova York, ele e Hélio Oiticica desenvolveram juntos o projeto “Cosmococas”. “Você acha que não sofri nesse tempo todo, sem conseguir mostrar o trabalho?”, pergunta Neville, 61 anos. Como o próprio nome da série diz, é a cocaína que forma os desenhos sobre os rostos de ícones norte-americanos, como Marilyn Monroe, Jimi Hendrix e Yoko Ono, em obras transformadas primeiro em instalações e, somente agora, em fotografias em tamanho grande. Hoje, quando as drogas são causadoras de violência e morte, muitos pensam em apologia. Neville discorda. “Não tínhamos compromisso com a droga, mas com a arte. Essa substância tinha um sentido um pouco diferente do que tem hoje. Tínhamos uma premonição de que a cocaína era um veneno que ia infestar a sociedade americana”, diz Neville.

Hélio Oiticica morava em Nova York graças a uma bolsa da Fundação Guggenheim e trabalhava como tradutor. “O apartamento era decorado com ninhos, várias camas cercadas de cortinados. Sempre havia quatro, cinco televisões ligadas, mais três ou quatro rádios”, lembra-se o escritor Silviano Santiago, que também vivia na cidade na época. Neville ficava em Londres, rodeado por Gil, Caetano e Jorge Mautner. “Vivia com US$ 100 por mês. Só viajei para Nova York porque consegui uma passagem baratíssima naqueles vôos que você tem que levar até garrafa de água”, conta. O cineasta e o artista haviam se conhecido em 1968, quando Neville fez uma sessão de seu primeiro filme, Jardim de Guerra. Pensaram em vários projetos juntos, que culminaram na criação das “Cosmococas”, em março e agosto de 1973. “Neville é muito pragmático, e isso ajudou o Hélio, cujos projetos ficavam às vezes no ar. É a pessoa que melhor sabe escutar que conheço. Ele pega o que você disse, digere e usa”, diz Silviano Santiago, que conhece o cineasta desde quando moravam em Belo Horizonte.

Neville fala com saudades do artista, morto em 1980. “O Hélio era uma pessoa com uma dignidade e uma generosidade muito grandes. Ele não enganava você, não puxava o seu saco”, lembra. E fica chateado quando se referem à série como obra de artistas doidões, menosprezando o talento de ambos. “Conheci as drogas. Na época não havia essa organização mundial, isso virou um bom negócio para a polícia, o exército, o ladrão, menos para o povo”, diz. “Mas me livrei delas. E não foi com clínica não. Eu busquei ajuda e encontrei em Deus”, diz. Neville d’Almeida está habituado às críticas. Também foi assim com seus filmes, carregados de sexualidade e sempre malhados, como A Dama do Lotação e Navalha na Carne. Isso não quer dizer que ele não se aborreça. Tirando a Bíblia da mochila que carrega, ele recita, emocionado: “Os meus inimigos falam mal de mim, dizendo: ‘Quando morrerá ele e perecerá seu nome?’. Diz falsidades. E, no seu coração, amontoa a maldade”.

O cineasta se dedica à Igreja Presbiteriana de Bethesda, em Copacabana. Não renega o que fez e costuma agradecer a Deus. “Acho que sou um bem-aventurado, modestamente. Porque Deus me deu a oportunidade de conhecer os dois lados, a obscuridade total com cinco filmes jamais exibidos e o sucesso, com A Dama do Lotação”, diz.

Morando na Ilha da Jibóia, no Rio, com quatro cachorros, Neville tem três filhos – o cineasta Tamur, de 28 anos, a estudante de psicologia Jade, de 23, e a pequena Sophia, de 3. E muitos projetos na gaveta. São cinco documentários prontos, um longa-metragem de ficção inspirado em Mark Twain em fase de captação de recursos, exposições de esculturas e fotos e também a direção de uma ONG. É porque Neville d’Almeida, fotógrafo, desenhista, escultor e cineasta, também é ecologista. Modestamente, como costuma dizer.

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