13 de dezembro de 1999
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Música

Nadando no sucesso
O cantor pernambucano Otto já foi lenhador, jogador de futebol, criou pinto e porco e tocou atabaque no metrô de Paris antes de brilhar como músico

Rodrigo Cardoso

Foto: Dadá Cardoso

A mesa da casa dos pais foi o primeiro objeto que o pernambucano Otto Maximiliano Pereira de Cordeiro Ferreira, 31 anos, usou para fazer som. O segundo, quando ainda era criança, foi o colchão da cama. Na adolescência, Otto fazia barulho em bailes de Carnaval com um chocalho, tocando "Ô Coisinha tão Bonitinha do Pai". O músico também se encantou pelo rock'n'roll e foi vocalista da banda Remember the Beatles. Com um pandeiro em punho, batucou nas bandas Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, expoentes do mangue beat (mistura de sons folclóricos nordestinos com ritmos contemporâneos). Mas foi em um disco-solo, soltando o sotaque em cima de batidas eletrônicas, que Otto acertou o tom. Este ano, Samba pra Burro, seu primeiro CD, foi eleito o melhor de MPB pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e lhe rendeu o troféu revelação da MTV Brasil. Para o ano que vem, ele prepara o próximo álbum, Condom Black, em que promoverá um encontro entre DJs e orixás. "Antes de fazer sucesso, Otto era uma espécie de lenda viva", diz o produtor musical Francisco Carvalho, o Apollo 9. "Em todo lugar que eu ia, ouvia comentários sobre ele."

Otto nasceu em Belo Jardim, no agreste de Pernambuco. Criou pinto, porco, tentou ser lenhador e jogador de futebol. Em casa, disputava partidas de tênis com o irmão no meio da sala. "Todo dia minha mãe preparava um suco de maracujá para me acalmar. Quando não dava certo, me perseguia com a Havaiana na mão", diz. Mesmo quieto, Otto tirava o sossego dos pais, porque costumava esconder-se debaixo da cama. "Tinha medo de papangu, que era um homem mascarado", fala. "Também subia em árvores para declamar e, por tudo isso, ganhei uma psicóloga para bater papo." O tratamento abriu-lhe a mente, a ponto de revelar à família sua primeira experiência com drogas, aos 15 anos. "Cheguei em casa passando mal e falei: 'Minha mãe, acho que fumei uma coisa estranha'. E ela respondeu: 'É maconha, cabra da peste!'", conta.

Otto é mesmo livre de preconceitos. Ele pode ser visto num livro da fotógrafa Dadá Cardoso apertando os peitos, com um boá enrolado no pescoço e batom nos lábios. A ousadia causou espanto em um amigo do músico. "Faço músicas para veado também, meu velho", disse-lhe Otto.

Otto nunca foi líder de turma, mas sempre esteve à frente dos colegas. Antes da puberdade, já sabia que os homossexuais eram os mais procurados na cidade. "As meninas não liberavam nem com reza", diz. "Eu ia na Luzinete, a casa das meretrizes. Era eu chegar e elas gritavam: 'Olha lá o filho do promotor!'."

Sua mãe, Arlete, prefere rezar para o filho a ir a um show. Seu pai, José Marconi, no entanto, já o viu em cena três vezes. Numa delas, soube que seria homenageado. Orgulhoso, o engravatado promotor de Justiça da cidade de Caruaru se curvou para os músicos. Ao se levantar, ouviu um hard core intitulado "Roendo os Restos de Ronald Reagan", abaixou a cabeça e abandonou o recinto. "Fiquei desnorteado. Foi um verdadeiro nocaute", lembra Marconi. Foi com o disco-solo que Otto limpou a barra com o progenitor. "Agora, acredito 60% que você possa fazer alguma coisa boa", disse-lhe o pai.

Purê de batata

Envie esta página para um amigoAntes de tocar com as bandas pernambucanas, Otto foi à França atrás de uma namorada com apenas US$ 150 no bolso. "Tentei transformar os 150 em 750, rasurando o boleto do passaporte", diz. "Fiquei com medo de não me aceitarem por causa da pouca grana." Otto não sofreu represálias, terminou o namoro uma semana depois e ficou por lá durante três anos. Ele morou em uma barraca montada numa praia. Trabalhou em construção civil, tocou atabaque no metrô e em casamentos judeus. Para se alimentar, bebia uma mistura de purê de batata em pó com leite. Sem dinheiro para dar comida ao peixe que criava, serviu o tal pó de purê para o bicho de estimação, que amanheceu "todo inchado" no dia seguinte.

Há dois anos morando em São Paulo, Otto sonha em construir uma casa em forma de farol no meio do mato. Até agora, o máximo que conseguiu foi uma televisão e um videocassete. Seu aparelho de som, no entanto, é precário e não lê CDs. Mas está empolgado com a vida nova e se prepara para "ajeitar os dentes".

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