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05/08/2002

   
 
Reuters
“Infelizmente minha vida é feita de eventos dramáticos. Aprendi que o sofrimento
é idêntico, independente do
local ou circunstância”
, diz Sérgio
“Gosto muito de correr e fazer exercícios. No Timor Leste aprendi
a mergulhar. Ficar debaixo d’água observando corais
e peixes me proporcionava descanso mental’’

Sérgio Vieira de Mello

 

Diplomacia
O construtor da paz
Após atuar em regiões de guerra como Kosovo e Timor Leste, o brasileiro irá defender os Direitos Humanos no mundo pela ONU, conta como é viver em áreas de conflito e diz que seu trabalho é irreconciliável com a vida particular

Fábio Farah

 

Indicado por Kofi Annan, secretário-geral das Nações Unidas, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, 54, assume, em setembro, a chefia do Alto Comissariado da ONU de Direitos Humanos. O gabinete, criado em 1994, tem sede em Genebra, possui um orçamento de quase US$ 50 milhões e presta auxílio a mais de 50 países. Filho de diplomata e fluente em inglês, francês, espanhol e italiano, Sérgio doutorou-se pela Sorbonne, na França, em Filosofia e Ciências Sociais. “A filosofia me elevou acima da agitação, turbulências, frustrações, críticas e horrores diários”, diz.

E horrores não faltaram em sua trajetória profissional nas missões como representante da ONU em lugares como Kosovo, Camboja, Líbano e Moçambique. Sérgio administrou
o Timor Leste por dois anos, até Xanana Gusmão tomar posse como presidente, em maio passado. Em todos os países onde esteve ele alugou uma casa e viveu integrado com a população. O preço desta dedicação foi a vida pessoal. “Minha carreira é irreconciliável com a vida particular”, afirma Sérgio, que diz não ter tempo para visitar a família que vive na França.

O senhor acredita que sua experiência prática foi responsável pela indicação para o Alto Comissariado da ONU de Direitos Humanos?
Penso que Kofi Annan acredita que minha bagagem
modesta de experiências de campo e de operações humanitárias nas grandes crises das últimas três décadas possa ajudar nesta fase de consolidação do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos, que, afinal, é uma instituição ainda na infância.

Como o senhor enxerga a questão dos direitos
humanos no Brasil?

Acredito que o programa de Direitos Humanos no Brasil é ótimo. O problema não está na qualidade da legislação e sim na capacidade para implementá-la. Este é o desafio do Brasil e de muitos outros países e que o Alto Comissariado das Nações Unidas pode modestamente ajudar.

De que forma sua formação em filosofia foi útil na carreira que o senhor trilhou na ONU?
Foi ela que me fez escolher esta carreira e ingressar
na ONU. Eu desejava traduzir tudo o que tinha aprendido no liceu e na universidade em um trabalho de promoção de valores universais como paz, estabilidade, segurança, prosperidade e felicidade. A filosofia me ajudou a aturar os excessos da carreira, engolindo cobras e lagartos e me elevando acima da agitação, turbulências, frustrações, críticas e horrores diários.

Como foi o início de sua carreira?
Comecei minha carreira durante a guerra de libertação do Paquistão Oriental em 1971 que, mais tarde, se transformaria em Bangladesh. Foi uma verdadeira tragédia, pois a população também havia sido castigada por um tufão antes e ainda sofria as conseqüências da catástrofe. Deste modo, descobri aos 23 anos o significado brutal da guerra na vida das pessoas.

Que outras experiências viveu em sua trajetória internacional?
Houve muitas outras experiências terríveis como, por exemplo, no Sudão Meridional no fim da guerra civil. Os refugiados voltavam para o país em condições deploráveis. Era o sofrimento humano em grande escala. Infelizmente minha vida é feita de eventos dramáticos. Foi assim nos 30 anos seguintes e aprendi que o sofrimento é idêntico, independente do local ou circunstância.

Alguma o marcou?
Sim. O inverno que passei em Sarajevo, na Bósnia entre 1993 e 1994. Foi um inverno horrível para a população que, além disso, estava sob bombardeio permanente dos sérvios, sem comida e eletricidade. Foi minha experiência mais dramática.

Como o senhor se distraia e se divertia nestes lugares?
Eu voltava às minhas leituras de filosofia para tentar me isolar um pouco e transcender a pressão do dia-a-dia. Por outro lado, o esporte me ajudava a dar vazão à energia, ao estresse e à frustração. Gosto muito de correr e fazer exercícios. No Timor Leste aprendi a mergulhar. A flora e a fauna submarinas eram maravilhosas e ficar debaixo d’água observando corais e peixes me proporcionava descanso mental. Eu me desligava completamente do mundo exterior.

Como consegue conciliar essa profissão
com a vida pessoal?

Juridicamente sou casado e tenho dois filhos, um de 22 anos e outro de 24, mas infelizmente tenho vivido separado deles. Minha carreira é irreconciliável com a vida particular e de conseqüências dramáticas para a família.

Onde vive a família do senhor?
Eles vivem na Europa. Minha mulher é francesa. Não os tenho visitado ultimamente. Enfim, cada um leva a sua vida e é difícil nos reunirmos em um lugar quando eu estou disponível ou que convenha a todos.

Dá para namorar nas regiões de guerra?
É difícil responder sem ser específico. Por exemplo, no Timor Leste eu era o administrador transitório e a regra era manter certa distância e discrição, que acabaram matando qualquer tipo de vida particular. Em lugares como Sarajevo e Kosovo, eu era muito visível e tudo era público. Por isso, não podia aspirar a um jardim particular na minha vida. Acabei não tendo vida privada nenhuma, nem sentimental... Isso é terrível! Neste sentido voltar a uma vida normal é uma das minhas prioridades atualmente.

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