15 de novembro de 1999
Home
Home
Semana
Diversão e Arte
Outras Edições
Fale Conosco
Assine
Assine
Assine
Assine
Assine
Assine
Busca


Violência

Três vidas perdidas
Fabiana, Luiza e Júlio tinham planos de mudanças, mas os tiros de Mateus abreviaram seus destinos

Cesar Guerrero e Fábio Bittencourt

O projetor de cinema do MorumbiShopping estampava na tela as imagens do filme Clube da Luta, às 22h30 da quarta-feira 3, enquanto o sextanista de medicina Mateus da Costa Meira, 24 anos, mudava seu destino e o das 20 pessoas que estavam na platéia. Sem expressão no rosto e com um olhar que parecia perdido, foi dominado pelas próprias vítimas ao recarregar a arma. Foram 40 disparos e três minutos de terror. Fabiana Lobão Freitas, 25, se jogou ao chão para fugir das balas. Foi a primeira das três vítimas que perderam a vida - ainda na sala de projeção, nos braços do namorado, o cineasta Carlos Eduardo Porto Oliveira, 24. Tinha ido ao cinema apenas para acompanhar sete de seus amigos, já que era a segunda vez que assistia ao filme com o galã Brad Pitt. "Ela era apaixonada por cinema", diz a amiga Regina Marta Baracat, 48 anos. "Conhecia todos os filmes em cartaz."

Foto: Álbum de Família

Curso na França
Um dia antes, no feriado de Finados, o casal estava em São Roque, no interior do Estado. Fabiana ligou duas vezes para o pai, o geólogo Carlos Geraldo Luz de Freitas, 50, para avisar que, às 22h, pegaria a irmã Juliana, 17 anos, na Rodoviária do Tietê, em São Paulo. No dia seguinte, ela chegou mais cedo ao Museu de Arte Contemporânea, onde era estagiária-bolsista de um projeto dedicado a integrar crianças de periferia. Ganhava R$ 1,1 mil por mês, salário que garantiu a compra de um Palio zero quilômetro, em julho.

Fabiana morava em Interlagos, bairro nobre da cidade, junto com o pai, a irmã e uma avó, a professora aposentada Ivone Vieira Luz de Freitas, 77 anos, que praticamente criou as netas desde a separação do filho, há 18 anos. Fabiana era formada em Turismo e Letras. Chegou a iniciar o curso de licenciatura em francês, mas desistiu porque tinha planos de estudar fotografia na França. Carlos Eduardo, seu namorado havia sete anos, iria junto. Não seria a primeira viagem dos dois. No ano passado, ele a acompanhou em 50 dias pela Europa, quando Fabiana aproveitou para fotografar o que via. No álbum da viagem, a lembrança de ter conhecido catedrais, museus, praças e obras de arte.

Júlio Maurício Zemaitis, 29, não conhecia Fabiana. Mas teve o mesmo destino. Morreu no hospital, cinco horas depois do atentado de Mateus. Horas antes, escolheu o filme e foi a Alphaville, condomínio fechado na periferia de São Paulo, pegar a amiga e ex-namorada Andréa Cury Lang. Antes de entrar na sala de projeção, eles se divertiram com o preço de um bonsai (árvore miniatura) numa das lojas. "Imagine se a empregada apagar um cigarro numa planta de R$ 13 mil", disse Júlio. Mais tarde, já na sala do cinema, perguntou a Andréa: "Você está gostando do filme?". Ele estava preocupado com o excesso de socos e pontapés na tela. Não deu tempo para ela responder. A violência ao vivo chegou mais rápido. O tiro que matou Júlio perfurou a lente de seus óculos e saiu pela nuca.

Foto: Álbum de Família

Júlio era economista e vivia com os pais, um casal de imigrantes da Lituânia, no bairro da Lapa, zona oeste de São Paulo. Aprendeu a cultivar os costumes da terra dos pais no grupo de escoteiros da colônia lituana do bairro de Vila Zelina, zona sul da cidade. "Ele era a alma das festas", diz a coordenadora dos escoteiros, Eugênia Bacevicius, 61 anos. Júlio fazia pós-graduação em marketing e acabara de conseguir um emprego na Xerox do Brasil. Conheceu sua amiga Andréa no curso pré-vestibular. Depois do namoro de quatro anos, cultivaram a amizade. "Nós sempre saíamos juntos", lembra Andréa.

Fabiana e Júlio também não conheciam Hermè Luiza Jatobá Vadasz, 46 anos. Publicitária, ela lutou em vão pela vida, internada no hospital Albert Einstein. Um ferimento na cabeça causou sua morte 44 horas após levar o tiro. Na agência Neogama, ainda estava na tela do computador de sua mesa de diretora de produção um e-mail que havia mandado aos colegas de trabalho: "Temos mais conhecimento e menos justiça". "Ela se preocupava em trazer cultura para a agência", diz Dráusio Gragnani, 27 anos, colega de trabalho. "Não pude conviver com ela por mais tempo."

Filha do radialista carioca Luiz Jatobá, ela nasceu no Rio de Janeiro, numa casa freqüentada por personalidades como Tom Jobim, Ary Barroso e Di Cavalcanti. Aos 9 anos, mudou-se para São Paulo com a mãe, Betty Chateaubriand, que se separara de Jatobá e se tornara nora de Assis Chateaubriand ao casar com Fernando Antônio, filho de Chatô. O primeiro emprego de Luiza foi aos 16 anos, como recepcionista de uma empresa de engenharia. Dois anos mais tarde, casou-se com Estevão Vadasz, um psiquiatra infantil com quem teve três filhas. Há cinco anos, separou-se do marido. Comprou um apartamento em Higienópolis, na zona central, que estava sendo reformado. Enquanto não se mudava para lá, morava com a mãe, Betty.

Luiza cursou Ciências Sociais e Letras na Universidade de São Paulo e na mesma época começou a trabalhar como assistente de produção fotográfica. Chegou a produzir filmes publicitários com a americana Sharon Stone e o espanhol Antonio Banderas. No ano passado, jantava com um amigo no restaurante Lolita, em São Paulo, quando notou a presença de Mikhail Barishnikov. Não teve dúvida: presenteou o bailarino com uma garrafa de champanhe Veuve Clicquot. E, em retribuição, ganhou um ingresso para o show do dia seguinte, no Teatro Municipal, onde foi convidada para conhecer os bastidores do espetáculo.

Ameaças à avó
Envie esta página para um amigoFabiana, Júlio e Luiza não tiveram tempo de conhecer o baiano Mateus da Costa Meira, de 24 anos, que mora em São Paulo desde 1993, quando entrou na Faculdade de Medicina da Santa Casa. Morava sozinho em um apartamento no bairro de Santa Cecília, próximo à faculdade. Não tinha amigos nem namorada. A polícia descobriu que fazia cópias piratas de programas de informática. Nos últimos meses, passou a consumir drogas. Os policiais encontraram quatro gramas de cocaína e 300 projéteis calibre 9 milímetros no apartamento de Mateus.

Ele recebia mesada de R$ 800, dirigia carro importado e tinha o aluguel e as despesas pagas pelo pai. Mas o relacionamento familiar sempre foi complicado. Há dois anos, chegou a espancar a única irmã, Ana Emília. "Ele ameaçou surrar a avó Celina", conta Rômulo Meira, 46, primo em segundo grau de Mateus. "O garoto é insano", afirma. Conhecedor desse episódio e de tantos outros, o oftalmologista Deolino Meira, pai de Mateus, nunca pensou que seu filho fosse chegar a uma situação extrema. "Eu peço desculpas às famílias das vítimas", disse, a caminho da delegacia.

Colaborou Gerson de Faria, de Salvador
 

Boletim Assine Fale Conosco Outras edições Home Boletim Assine Fale conosco Outras edições Home