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03/06/2002

   
 
Piti Reali
"Os homens sempre quiseram mandar
nas mulheres por
isso se viram no
direito de matar"
Luiza diz: “Ele tinha bom nome, mas quem é o Pimenta hoje?”
 
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Luíza Nagib Eluf

“Talvez eu absolvesse a Dorinha Duval”

 

Capa
“Talvez eu absolvesse a
Dorinha Duval”

 

Uma moça jovem e bonita não pôde comparecer à fase final do exame para promotora em 1982 por um motivo muito peculiar. Vitor, seu segundo filho estava nascendo. O recado foi dado pelo pai dela, esbaforido, a uma banca de examinadores de olhos arregalados. “No Ministério Público ninguém achava que eu fosse passar”, conta hoje Luiza Nagib Eluf, 47 anos, procuradora de justiça do Ministério Público de São Paulo, que, na época, já mãe de Pedro, 22, teve de adiar o exame, no qual foi aprovada. Luiza decidiu escrever A Paixão no Banco dos Réus quando, há quatro anos, indignou-se com o caso de um rapaz de 21 anos que matou a ex-esposa, de 18, colocando-a no trilho de um trem: “Vi as fotos do corpo jovem e também o vídeo do casamento onde ela estava tão feliz... Mal sabia que estava se casando com quem lhe tiraria a vida”. Em sua casa, no arborizado bairro do Alto da Lapa, em São Paulo, Luiza falou a Gente.

Por que você decidiu escrever este livro?
Porque a mulher nem sempre foi ouvida com seriedade, era menosprezada até mesmo quando era vítima. Ninguém costuma ver o lado da mulher porque toda a doutrina é machista. É escrita por grandes penalistas, mas machistas. Já se falou muitas coisas como “a mulher foi estuprada, mas estava de saia curta, de decote...” Esse padrão de comportamento e aplicação da Justiça me revoltou.

Como a Justiça classifica o crime passional?
É chamado de passional o crime cometido num momento em que um dos dois é rejeitado. Os sentimentos presentes são egocentrismo, egoísmo, egolatria. O sexo, principalmente da parte do homem, infelizmente tem a ver com o poder. O que deveria ser uma coisa prazerosa nem sempre é. Os homens sempre quiseram mandar nas mulheres, por isso se viram no direito de matar.

Por que a senhora diz que o crime passional não é resultado do amor?
Não é por amor mesmo. É paixão que se transforma em ódio. O que leva à morte é o ódio feroz porque a pessoa foi rejeitada. É uma série de sentimentos baixos, ruins, que levam ao assassinato. O ciúme é um sentimento que todo mundo conhece e sabe que provoca raiva, humilhação.

Por que a senhora não quis falar com Pimenta Neves?
Perdi a vontade de tanto que falaram sobre sua arrogância. Ia me irritar com ele. Li o depoimento dele na polícia e soube que ele falou para os policiais: “Vocês não sabem nada, deixem que eu escrevo”. Ele tinha nome, boa posição, mas quem é o Pimenta hoje? Ele está numa situação de réu, tem que se submeter à investigação.

Com quem você teve mais vontade de falar e não conseguiu?
Com a Maitê Proença, mas acho que a assessora não passou o recado para ela. A Maitê não foi a agressora, nem agredida, mas queria saber como ela se sentiu. Sempre que eu olho para ela eu lembro dessa história. Eu era menina na época, mas ouvi muito falar disso. E ele ainda foi absolvido! Como pôde a sociedade ter sido tão injusta?

A senhora diz que mulheres não costumam cometer crimes passionais. Por quê?
Recebo pilhas de processos de homicídios e nem 10% são praticados por mulheres. E, quando matam seus companheiros, geralmente é por legítima defesa física, não por ciúme. Elas não pensam tanto “se ele não for meu não será de ninguém”, porque foram educadas a, erroneamente, perdoar a traição e o abandono mais dos que os homens. Mas, quando ameaçadas de morte ou espancadas, esperam o marido dormir para matá-lo porque têm medo do conflito físico.

E o caso da Dorinha Duval, que está no seu livro, não foi passional?
Foi, mas ela não premeditou. Talvez eu absolvesse a Dorinha porque quem planejava e queria isso era o marido. Ele é quem já estava agredindo-a, tinha comprado a arma. E deu a arma na mão dela dizendo para ela se matar, depois de tê-la ofendido muito. Dizia que ela estava gorda, velha, que nem plástica adiantava. Fez de tudo para que ela ficasse arrasada e se suicidasse. Mas ela o acabou matando.

A senhora sofreu preconceito por ser a primeira mulher casada e com filhos a entrar para o Ministério Público de São Paulo?
Claro, foi um suadouro! Ouvia: “Ministério Público não é carreira para mulher”. Estudei sem parar durante três anos, sem sair, nem para jantar. Eu tinha que passar de qualquer jeito, não podia errar uma questão sequer porque além de ser mulher, eu já tinha filho. Não existia nem a Constituição de 1988, o que tornava a discriminação maior ainda. E não podia nem reclamar porque não tinha lei dizendo que não podíamos ser segmentadas.

Quando se sentiu inferiorizada?
Quando, no exame do Ministério Público, me fizeram perguntas bastante ofensivas à minha liberdade, como por exemplo: “O seu marido vai deixar a senhora ir para o interior se passar no concurso?”. Passei muito mal na época, antes e depois do concurso. Tive reações nervosas, como espinhas nas costas, quedas de pressão. No meu primeiro dia como promotora, no interior de São Paulo, a sala estava apinhada de gente se aglomerando para me ver, porque era uma mulher ali. Eu era um ET!

Por que a senhora se sentia um “ET”?
Porque as mulheres sempre estiveram numa posição de inferioridade e na minha época poucas exteriorizavam indignação. Haviam comentários absurdos do tipo: “Ah, como seu marido é bom, como é compreensivo, deixa você realizar a tripla jornada de trabalho, trabalhar fora, cuidar dos filhos e lavar a roupa dele. Puxa, como ele é bom!” Que coisa horrorosa!

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"Os homens sempre quiseram mandar nas mulheres, por isso se viram no direito de matar." declara a procuradora Luiza Nagib Eluf. O que você pensa a respeito dos crimes passionais? Dê sua opinião
 
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