08 de novembro de 1999
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Especial

Quando o amor é um bom negócio
Celebridades expõem romances e namoricos, e chegam até a alimentar boatos para conseguir espaço na mídia e alavancar contratos com a autopromoção

Rodrigo Cardoso

Toda semana, o ex-sertanejo Daniel, 31 anos, lê comentários e ouve boatos que ligam seu nome a uma nova namorada famosa. O cantor diz que "deixa os boatos rolarem" em prol da carreira. Com a morte do parceiro João Paulo, em 1997, ele trocou o estilo sertanejo pelo de cantor romântico. Botas, coletes e chapéus deram lugar a ternos Armani e Hugo Boss. Mas é o jeito de galã que o tornou presença constante na tevê: "Aparecer com uma namorada a cada dia é importante profissionalmente, mas ruim para a vida pessoal", admite ele. No último ano, 13 mulheres foram apontadas como alvos de suas conquistas - entre elas Mônica Carvalho, Tereza Collor, Suzana Alves (Tiazinha) e Scheila Carvalho. A assessora de imprensa Lu Barbosa, que cuida da carreira do músico, conta que faz parte da sua função convidar artistas famosas para os shows. "No camarim, muitas aproveitam para me apertar com mais ousadia só para aparecer numa foto", confirma Daniel.

A própria Tiazinha, uma das supostas namoradas de Daniel, já criou expectativa em torno da revelação do nome do parceiro para aparecer na mídia. A modelo conseguiu levar um número expressivo de jornalistas à festa de aniversário que promoveu, em julho, para comemorar seus 21 anos, em parte porque fez circular a informação de que anunciaria, na data, o nome do seu namorado. O prometido não foi cumprido, mas a imprensa fez seu trabalho. A mesma estratégia tem sido usada pela dançarina e agora apresentadora do SBT Carla Perez: de tempos em tempos, surgem boatos sobre a identidade de parceiros, nunca confirmados, e com isso vão surgindo pretextos para aparecer em revistas e jornais.

Há três semanas, ao anunciar que estava se separando de Adenair, sua mulher, o cantor sertanejo José Lima Sobrinho, o Chitãozinho, 45 anos, viu seu rosto estampado em revistas e em telejornais - habitualmente, seu irmão e parceiro, Xororó, consegue mais espaço por ser produtor, empresário e pai da dupla Sandy & Júnior. "Não sabia que daria tanto Ibope. Foi como jogar gasolina no fogo", diz o músico. "Mas já que teve tamanha divulgação, espero que seja benéfico para minha carreira e família."

Foto: José Leomar

O conde Chiquinho Scarpa, 48 anos, também surpreendeu-se com a popularidade que conquistou depois que Carola Scarpa separou-se dele, há seis meses, dizendo que o havia flagrado tendo relações sexuais com dois homens. "Ao desmentir tudo, muitos que não topavam com a minha cara passaram a me admirar. Acho que saí por cima", afirma Chiquinho. A sua ex, Carola, acredita que o casamento lhe deu frutos, mas que a separação foi o xeque-mate. "Essa, sim, foi uma bênção. Eu destituí um mito e, por isso, criei uma imagem polêmica", orgulha-se ela, que mora no apartamento antes do casal e agora só dela, nos Jardins, zona sul de São Paulo. Antes do casamento, só era conhecida por ser sobrinha de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, ex-chefão da Globo. "Estava fora da mídia, aparecia numa foto aqui, outra ali." Depois da confusão com o fim do casamento, fez um site na Internet em que discute assuntos "picantes", foi sondada pela Record, Rede Mulher e Rede TV! e dá autógrafos na rua. "É uma delícia quando me chamam de princesa Carola." Ela gosta tanto do título que, quando o telefone toca em sua casa, a empregada já sabe o que dizer: "Residência da princesa Carola, o que deseja?".

"Hoje, 30% das celebridades se preservam. O restante topa marquetear uma história de amor apenas para alavancar a carreira", afirma o assessor de comunicação Paulo Marra, 40 anos, com 12 de profissão e uma lista de clientes que inclui Ana Paula Arósio, Raul Cortez, Bete Coelho e Paulo Autran. Mas por que os artistas, e não mais fazendeiros, políticos e grandes empresários, são a muleta predileta de quem busca projeção? "Um namoro ou um casamento com uma celebridade é o caminho mais fácil de ascender ao estrelato", diz Esdras Vasconcelos, professor do Instituto de Psicologia Social da USP. Segundo ele, hoje as pessoas passam, em média, 12 horas semanais em frente à tevê. Os mais de 100 canais - incluídos os da tevê por assinatura - garantem a superexposição dos artistas e os colocam na condição de novos ricos da sociedade atual.

Não é de hoje que os aspirantes ao sucesso procuram um ombro milionário e célebre que lhes garanta fama ou tranqüilidade financeira. Assim como Pelé, nos anos 80, ajudou a impulsionar a carreira de Xuxa. E a apresentadora, nesta década, tornou-se a mola propulsora da carreira do modelo Luciano Szafir, 30 anos. "É evidente que o relacionamento com ela me lançou na vida pública. Não dá para fugir disso", diz Szafir. "Mas quem não tem competência, não se estabelece. Eu vi as portas se abrindo e ocupei meu espaço." Antes de ser modelo, Szafir formou-se em Administração e trabalhou nos ramos de construção civil, comércio e turismo. Depois de conquistar o título de namorado de Xuxa, em 1995, ganhou fama e virou também ator e apresentador.

Seis meses antes do nascimento de Sasha, a filha do casal, Szafir e Xuxa já estavam separados. "Um artista, quando esbanja beleza, sensualidade, sexualidade e poder, acaba afastando as pessoas que tentam um relacionamento mais sério. Seu parceiro quase sempre terá algum interesse velado: é impossível não pensar na promoção às custas do brilho do outro", diz o professor Esdras. Na época em que namorava com Xuxa, o modelo foi convidado para interpretar o mecânico Júlio na novela Anjo Mau, na Rede Globo, mesmo sem nenhuma experiência com dramaturgia. Aproveitou-se do sucesso, tornou-se distribuidor de uma grife internacional de óculos e relógios e sócio de casas noturnas em São Paulo. Em outubro, apresentou o programa Você Decide, mas é o título de pai solteiro mais cobiçado que lhe garante exposição.

Nem sempre, porém, as celebridades procuram um parceiro famoso pensando só na carreira. Para alguns, apaixonar-se por alguém com projeção faz bem ao ego. "O Justus (o publicitário Roberto Justus), na época em que estava casado com a Adriane Galisteu, fez um clipping com as reportagens de que havia participado e pediu para amigos analisarem sua performance", conta um colega de profissão do empresário. "Vivemos numa sociedade do espetáculo, em que as relações expostas na mídia são a janela para o mundo", diz a professora Maria Cristina Costa, da Universidade de São Paulo (USP), que estuda a influência dos meios de comunicação na sociedade.

O casamento de Justus, 44 anos, com Galisteu, 26, não durou um ano, mas foi suficiente para colocá-lo sob os holofotes. Semana passada, ele foi eleito Homem de Marketing do Brasil de 1999 por uma revista paulista. Um outro estudo, publicado por uma empresa de comunicação e que mede mensalmente a exposição dos publicitários na mídia, mostra que, em dezembro de 1998, a um mês do seu casamento, Justus foi o publicitário que mais apareceu nos meios de comunicação. Durante os oito meses em que esteve casado, não chegou mais ao topo. Isso só voltou a acontecer em agosto, quando anunciou a separação.
"É a vida pessoal que mantém a exposição de uma celebridade na mídia", explica Sérgio D'Antino, advogado e empresário de artistas, entre eles Tiazinha e a própria Adriane Galisteu. "A separação de Galisteu foi muito mais destacada do que o seu trabalho", acrescenta. "Ela sabe e fica chateada com isso." A modelo afirma que, depois da separação e do assalto que sofreu em seu apartamento, há cerca de um mês, repensou a maneira como vem expondo a vida pessoal. "Sou daquelas que, se derem espaço, aproveita. Se tiver de mostrar a bunda, eu mostro. Mas depois de tudo o que aconteceu, talvez tenha de botar o pé no freio", diz ela. Pouco tempo depois de separar-se de Galisteu, Justus anunciou publicamente o namoro com a apresentadora Eliana.

Foto: Júlio Vilela

Em alguns casos, existe um fascínio pelo mundo artístico, como explica o professor Esdras: "Estar em evidência vicia. Ao fim de um relacionamento, a celebridade precisa de uma outra pessoa famosa para dar continuidade ao processo narcísico". Desde o ano passado, quando conheceu Galisteu, até agora, Justus viu o número de seus clientes dobrar e a receita da NewcommBates, a sua agência, aumentar em 200%, de R$ 16,6 milhões para R$ 50 milhões.

"No início, Justus se incomodava com a exposição, mas se acostumou. É que a professora foi boa", diz Nelson Sacho Jr., assessor de Galisteu. A modelo começou a contar sua história pessoal e, assim, ampliar sua notoriedade no livro O Caminho das Borboletas, lançado em 1994, no qual revela detalhes de sua história de amor com o piloto Ayrton Senna. "Foi a saída que encontrei para retomar a carreira de modelo. Estava fora de forma, em depressão e meu irmão estava doente. O livro me empurrou para a fama, mas me mantive com meu talento", diz Galisteu.

Envie esta página para um amigoO amor como estratégia de marketing para alavancar carreiras e expor personalidades não pára de seduzir novos corações. Há poucos dias, o assessor de comunicação Paulo Marra recebeu uma proposta de trabalho que o deixou estarrecido. Um conhecido empresário carioca, preocupado com sua baixa popularidade, pretendia "trabalhar melhor a própria imagem" e, interessado na experiência de Marra, foi direto ao assunto: "Preciso ganhar projeção. Para ter isso, namoro com a artista que você quiser. Arruma uma para mim, você conhece todas elas", disse. Marra encerrou a reunião no ato. Disse que não faria parte de uma armação como essa e que seu método de trabalho se baseava no talento do cliente e não no brilho do parceiro dele.

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