25 de outubro de 1999
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Política

Benedita da Silva entre a favela e o palácio
Criada na favela Chapéu Mangueira, a vice-governadora do Rio se muda para um bairro de classe média e se prepara para fazer lipoaspiração

Adriana Barsotti

Foto: LEANDRO PIMENTEL

No dia 27 de abril, a vice-governadora do Rio, Benedita da Silva, foi destaque das principais colunas sociais dos jornais cariocas. Na véspera, seu aniversário foi comemorado com uma festa oferecida por amigos, entre eles a socialite Vera Loyola, no Marina Barra Clube, na Barra, zona oeste do Rio. A recepção aconteceu no berço dos emergentes, mas Benedita não deixou de conferir um toque popular à ocasião. A ex-vereadora, ex-deputada e ex-senadora petista pediu aos convidados que substituíssem os presentes por alimentos para serem distribuídos à população carente.

A rotina de Benedita tem sido assim: conciliar o aparentemente inconciliável. Aos 57 anos, mãe de dois filhos, Nilcéa, 38, e Pedro Paulo, 37, viúva duas vezes e casada há seis anos com o ator Antônio Pitanga, ela se prepara para se submeter a uma lipoaspiração na barriga com o cirurgião plástico Noel Lima, um dos preferidos das estrelas. "Vou me dar de presente", diz a avó de Ana Benedita, 15, Benilton, 14, Etienne, 13, e Diego, 9. Benedita não se preocupa com eventuais críticas do partido que possam surgir em relação ao seu comportamento: "Muita gente no PT faz plástica, como a Marta Suplicy, por exemplo", afirma.

Envie esta página para um amigoCom a mesma desenvoltura com que circula pela favela do Chapéu Mangueira, no Leme, onde nasceu e morou até este ano, Benedita tem se saído uma perfeita anfitriã. Este ano, já promoveu duas memoráveis festas no Clube Monte Líbano, na Lagoa, zona sul do Rio. Em março, foram os 15 anos de sua neta, que já fora presenteada pela avó com uma bolsa de estudos em Nova York, onde está matriculada numa escola de ensino médio. "O inglês faria falta", explica.

Amiga socialite

Em seguida, foi a vez da vice-governadora abrir os salões do mesmo clube para festejar os 60 anos do marido, numa recepção para 800 convidados, com traje passeio completo. A colunista Danuza Leão, do Jornal do Brasil, dedicou toda a sua coluna do dia 7 de junho para descrever minuciosamente a festa. A aproximação com Vera Loyola, porta-voz dos emergentes, lhe rendeu severas críticas no PT. Ano passado, em plena campanha para o governo do Rio, na chapa encabeçada por Anthony Garotinho, Benedita chegou a declarar que ela seria bem-vinda ao partido. No dia seguinte, foi reprovada por seu maior opositor no PT, o deputado estadual Chico Alencar, que disputa com ela a indicação do partido para concorrer à Prefeitura do Rio, no ano 2000. Vera Loyola acabou se filiando ao PDT. "Não quis prejudicá-la", explica Loyola. "Ela é uma mulher muito forte, é a cara do Brasil", elogia a emergente. Alencar faz coro, mas alfineta. "Nada apaga a trajetória de vida extraordinária de Benedita, mas ela precisa ser mais identificada com o PT", afirma. "Não estamos precisando de socialites, mas de socialistas", critica. "Trabalho na favela, saio dali, entro num palácio e vou a clubes de alta roda", diz Benedita.

A petista, que acumula em seu currículo encontros com o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, com o reverendo americano Jesse Jackson, com o ator Forrest Whitaker, com o astro do basquete Michael Jordan e com François Mitterrand, entre outras lideranças, já perdeu a conta do número de países que visitou. Nas viagens, ela sempre conta com um intérprete. Não estuda inglês por falta de tempo, mas dedica-se atualmente ao aprendizado de espanhol. Ela se recorda bem da primeira vez em que foi recebida com toda a pompa e circunstância. Foi num jantar oferecido por Mitterrand, então presidente da França. "Até arauto tinha", conta. Aos membros da comitiva brasileira que elogiaram seu comportamento, Benedita deu uma resposta implacável. "Tinha total intimidade com tudo aquilo porque passei a vida cozinhando, limpando tapetes e pondo a mesa", diz ela, que já foi empregada doméstica.

Quando fala do passado, Benedita muda o semblante. Filha de criação do pedreiro José Tobias de Souza, ela foi fruto de uma infidelidade de sua mãe, a lavadeira Maria da Conceição, com João Modesto Elias. Benedita ganhou sua primeira boneca num sorteio de objetos doados pela família Kubitschek, para a qual sua mãe lavava roupa. Começou a trabalhar aos 7 anos, fazendo pequenos biscates. Benedita teve 14 irmãos, dos quais só conheceu oito. Assistiu com tristeza, ainda na infância, à prostituição de uma das irmãs. Casou aos 16 com o pintor de paredes Nilton, com o qual viveu 26 anos, até sua morte, devido a um derrame cerebral, em 1981.

Foi ao lado de Nilton que passou pelos momentos mais difíceis. Enterrou seu primeiro filho, Carlos Eduardo, vítima de uma infecção no cordão umbilical, oito dias depois de seu nascimento. Deu à luz Nilcéa e, no ano seguinte, perdeu seu terceiro filho, que nasceu prematuro e morreu dois dias após o parto. "Tive que enterrá-lo como indigente, por falta de recursos", lembra. Tanto sofrimento fez com que Benedita decidisse abortar, quando descobriu que engravidara novamente, depois do nascimento de Pedro Paulo. "Fiz o aborto num momento de desespero", relata.

Beijo no cinema

Benedita também enfrentou a fome. A vice-governadora conta qual era sua receita para tapear o estômago. Misturava farinha com açúcar e, depois, bebia água. Muitas vezes o jantar da família era sopa de pão. "Meu filho entregava pão e tinha direito a cinco pãezinhos por dia", explica. "Até hoje, Nilcéa e Pedro Paulo não comem manteiga porque nunca tiveram na infância e não criaram o hábito", conta. Depois de trabalhar como camelô e doméstica, Benedita conseguiu se empregar no Detran, em 1975. Quatro anos depois, passou a conciliar a função com a de auxiliar de enfermagem num hospital municipal. Em 1982, aos 40 anos, ingressou na faculdade de Serviço Social. No mesmo ano, foi eleita vereadora e se casou pela segunda vez com um grande amigo, Agnaldo Bezerra dos Santos, candidato a vice-governador na chapa de Fernando Gabeira, em 1986. A união durou cinco anos, até a morte de Santos, vítima de hipertensão.

Viúva pela segunda vez, Benedita reagiu quando percebeu o interesse de Antônio Pitanga, convidado por Martinho da Vila para trabalhar na campanha para a reeleição da petista para a Câmara dos Deputados, em 1990. "Sou mulher de casamento e você não é disso", disse ao ator, cuja fama de mulherengo chegara aos seus ouvidos. De tanto insistir, Pitanga conseguiu quebrar a resistência. Benedita se lembra do primeiro beijo do casal. "Foi no escurinho do cinema, assistindo a Asas do Desejo", revela. Casados há seis anos, Pitanga, hoje secretário de Ação Social e subordinado à mulher na hierarquia do governo, também conseguiu convencer Benedita a se mudar do Chapéu Mangueira para sua casa, num condomínio de classe média em Jacarepaguá, zona oeste do Rio, onde já morava com os filhos, Camila Pitanga e Rocco. A mudança não foi tão radical. A petista ainda conserva antigos hábitos. Não abre mão da costureira Beatriz, que mora no Morro dos Cabritos, e do salão da cabeleireira afro Dai, na Lapa, que costuma freqüentar uma vez por semana. Mas já não é mais ela quem pilota o fogão da casa. A tarefa cabe às duas cozinheiras que servem à família - a baiana Maria José e a maranhense Maria Domingas.

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