25 de outubro de 1999
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Uma seção para a história

Foto: PITI REALI

O repórter Cesar Guerrero, 29 anos, era um cara-pintada que mal saíra das passeatas estudantis pelo impeachment do presidente Fernando Collor quando conheceu o presidente do PC do B, João Amazonas. Foi um encontro de rápidos apertos de mão entre um redator do jornal da União Nacional dos Estudantes (UNE), simpatizante do PC do B, e o líder do partido. Era o ano de 1993 e a cena esteve presente na memória de Guerrero quando ele voltou a reencontrar Amazonas, na sexta-feira, 8 de outubro, em São Paulo. Aos 87 anos de idade, João Amazonas inaugura esta semana uma nova seção de Gente. Batizada de “Testemunhas do Século”, ela contará, pelas experiências vivas de algumas personalidades brasileiras, o mais intenso período de mudanças da história da humanidade - o século XX. João Amazonas, por exemplo, tinha 5 anos de idade e morava no Pará, quando Lenin e Trotski triunfaram com o movimento revolucionário que marcaria sua biografia. O século que viu o comunismo ser colocado em prática com a Revolução Russa de 1917 é o mesmo que decretou sua falência com a queda do Muro de Berlim, em 1989. E Amazonas viveu tudo isso sob o ponto de vista de um brasileiro - e num país que só parou de perseguir as idéias comunistas quando elas já tinham perdido seus melhores argumentos. Se tivesse ocorrido 60 anos antes, o encontro da foto desta página teria acontecido numa prisão da ditadura de Getúlio Vargas. Fosse há 30 anos, a foto registraria a entrevista de um clandestino, procurado pelo regime militar de 1964 - alguém que, quando foi preso pela primeira vez, não entrou num camburão porque não havia carros específicos para transportar presos e ficou numa cela com barras de madeira porque elas eram mais baratas que as de ferro. O homem que rasgava retratos porque sua própria história poderia incriminá-lo é, ele mesmo, o retrato de um país que aprendeu a ser mais tolerante, diversificado e democrático. João Amazonas é quase o mesmo jovem que há 64 anos abraçou a causa comunista. Na sua biografia, quem mudou foi o Brasil.

Luciano Suassuna
Diretor de Redação

 

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