06 de setembro de 1999

 

 

Capa

O padre canta e espanta a tristeza
Marcelo Rossi supera depressão, lança novo CD e enfrenta o dilema de conciliar sacerdócio com sucesso popular

Neuza Sanches e Carlos Henrique Ramos
de São Paulo

Depois da aeróbica carismática em "Erguei as Mãos", vem aí o fado pop "Vira de Jesus". O padre Marcelo Rossi, 32 anos, joga seu prestígio nessa nova música, supera uma crise de depressão e está preparado para continuar sendo a voz da igreja católica nas paradas de sucesso, nas rádios e televisões. O retorno do ídolo maior da Renovação Carismática - que transformou as missas em rituais musicais e trouxe de volta fiéis perdidos para os evangélicos - será em grande estilo. O sacerdote lança, no domingo 19, seu segundo CD, Um Presente para Jesus. Gravado ao vivo, chega às lojas com tiragem inicial de 1,5 milhão de cópias. O disco poderá ser comprado, nos próximos dias, em todo o Brasil. Até o final do ano, estará em Portugal. No início de 2000, haverá outro lançamento, desta vez na Espanha e em outros países de língua espanhola. Para isso, Marcelo Rossi está aprendendo a língua de Julio Iglesias para gravar três músicas que serão incluídas no novo disco. "Vou viajar muito para divulgar o CD", disse o padre, no sábado 28, a Gente, depois da missa de libertação celebrada no Santuário Terço Bizantino, localizado no bairro de Santo Amaro, em São Paulo.

A nova empreitada começou há um mês, quando Marcelo Rossi mergulhou numa maratona muito conhecida dos artistas: escolheu o repertório e enfrentou o processo exaustivo de gravação. No CD, o padre uniu o útil ao rentável. Escolheu como carro-chefe uma música fácil de ser memorizada, embalada por um ritmo dançante. O resultado é o "Vira de Jesus" - um fado que aproveita a moda dos 500 anos do descobrimento do Brasil. "Eu me inspirei na viagem que fiz a Portugal", disse, referindo-se ao lançamento do seu primeiro CD na terra de Cabral, em maio, onde ele foi disco de ouro com 20 mil cópias vendidas. "A música vai estourar porque a letra é simples e o ritmo, contagiante", acredita.

O CD, gravado ao vivo há 30 dias, durante duas missas, carrega sua marca pessoal. O repertório foi escolhido a dedo. Marcelo Rossi testou as músicas diretamente com seu público. Divulgou as letras e fez a platéia habitual de 60 mil pessoas, por missa, cantar, uma a uma, nos finais de semana anteriores às gravações. Quando a canção chegar à mídia, os fiéis já estarão com ela na ponta da língua. A letra de "Vira de Jesus" é antiga. A melodia, porém, foi elaborada pelo próprio padre. Não que ele entenda perfeitamente cada nota musical. Sua banda, Mistério da Libertação, fez os arranjos de acordo com as orientações do padre. "Eu escolho o ritmo das músicas, não componho", diz o padre Marcelo Rossi. A música é simples:

"Por que que vocês vieram? Nós viemos louvar ao Senhor! Aleluia, Aleluia, Aleluia."
Depois desse estribilho, que é praticamente toda a letra da música, ele agita a galera: "É o vira". Em seguida, sai dançando a nova coreografia, ao som de fado, como os Mamonas Assassinas na música "Vira Vira" e o cantor português Roberto Leal. No disco há outras músicas, como o "Iê, iê, iê", com letra quase silábica. A canção é um convite para a dança. A estratégia é atingir o público jovem e adolescente. "É um disco alegre e dançante, que é o que a juventude gosta", diz Antônio Rossi, 57 anos, pai do padre Marcelo, um dos mais empolgados com o trabalho do filho.

O CD, da gravadora Universal (ex-PolyGram), a maior do País, não foi elaborado por acaso. O primeiro, Músicas para Louvar ao Senhor, que consagrou "Anjos de Deus", vendeu 3,2 milhões de cópias. Um fenômeno que quase desbancou o reinado de Xuxa, que em meados dos anos 80 vendeu 3,6 milhões de cópias com o disco Xou da Xuxa 4. É ainda maior do que a média de venda das estrelas sertanejas, como Zezé Di Camargo e Luciano, da música baiana do É o Tchan ou do pop da dupla Sandy e Júnior, que ficam na casa de um milhão.

Espírito de liderança
O marketing para promover o lançamento do CD inclui comerciais de tevê estrelados pelo padre, que devem entrar no ar nos próximos dias. A gravadora chegou ainda a contratar uma equipe com 60 seguranças para evitar que o trabalho tivesse gravações pirateadas durante as missas realizadas no Santuário do Terço Bizantino. Esse "pelotão de choque" ficará a postos até o lançamento. As gravações finais foram feitas nesse mesmo galpão, de 20.000 metros quadrados, uma antiga fábrica na zona sul de São Paulo. É lá que os milhares fiéis vão ao delírio com as peripécias de Marcelo Rossi em cima do palco. Durante as gravações, ele testou mais de 40 músicas com a platéia. "Foi um trabalho bastante exaustivo", diz Antônio Rossi. "Mas acho que vai valer a pena", conclui. "Ele é um fenômeno da comunicação", diz o publicitário Mauro Salles, que já fez palestra sobre Marcelo Rossi num congresso de marketing em Salvador, em maio deste ano. "É empático, tem espírito de liderança e fala a língua dos jovens."A igreja agradece.


A cada CD vendido, estima-se que a Diocese de Santo Amaro, onde o padre está baseado, embolsa R$ 0,80 pela cessão de direitos, estabelecida em contrato. O que equivale a dizer que se vender a primeira tiragem do CD, a igreja vai embolsar mais de R$ 1 milhão. Isso é praticamente certo, já que o padre mantém recordes de audiência nos seus programas na rádio América AM, que entra em rede nacional. Lá, é campeão, em todo o País, nos horários em que apresenta sermões, mensagens sacras e orações. Estima-se que seu programa matinal, que vai ao ar das 9h às 10h, de segunda a sábado, é ouvido por 400 mil pessoas só em São Paulo. "Todos os programas que ele faz são líderes de audiência", diz Franco Carlos, coordenador artístico da emissora.

Para agüentar o tranco do dia-a-dia, o padre, que um dia foi professor de educação física e na juventude pensou em ser bombeiro, jogador de futebol ou piloto de Fórmula 1, necessita estar com o fôlego em dia. Ele acorda por volta das 4h30. Ao se levantar da cama, dirige-se ao altar improvisado no quarto da casa onde mora, ao lado da Diocese, desde a época em que era seminarista. De pé, reza por uma hora. Em seguida, malha em cima da bicicleta ergométrica. Depois de cumprir a maratona espiritual e física, ele parte para sua rotina de gravações na rádio e na televisão, na Rede Vida. Esse corre-corre, quase sempre, termina à meia-noite. Antes de pegar no sono, ele encara outra sessão de oração.

Desde que virou ídolo popular, a rotina do padre Marcelo Rossi sofreu uma mudança radical. Sua agenda é comparada à de qualquer astro de cinema, televisão ou música. Mas ele faz questão de declarar que não é artista. "Sou um padre", diz, convicto, sempre que questionado sobre seu envolvimento com o mundo artístico. Como um dos campeões de venda do mercado fonográfico brasileiro, anda com seguranças e tem um motorista que o acompanha em todos os lugares a que vai. Para evitar o assédio dos fiéis, chega a utilizar três carros para circular pela cidade, entrar e sair das missas.

Entre as milhares de fãs, uma tem acesso livre ao sacerdote. Trata-se de Helena Zanivan, sua costureira particular. Marcelo Rossi a conheceu há cinco anos, época em que tinha apenas quatro meses de ordenação. "Sempre quis ajudar e, num certo dia, bati na porta dele e me ofereci para fazer seus trajes", relembra. A dona de casa, que virou costureira e também é voluntária no Santuário Terço Bizantino, faz os paramentos sob medida. "Eu mesma compro os tecidos, faço os modelos e não cobro nada por isso. Faço esse trabalho por amor", confessa. Segundo Helena, o padre prefere os tons claros e tecidos leves, que não amassam, por causa de sua performance no palco. "Acredito que fiz mais de 40 paramentos", conta.

Longe da mídia
Desde o final do ano passado, depois de ser bombardeado por críticas por causa de sua superexposição na mídia, Marcelo Rossi teve de se submeter a um exílio forçado. Por trás dessa estratégia, que mais parecia a lei do silêncio, está a figura de dom Fernando Antônio Figueiredo, bispo da Diocese de Santo Amaro há dez anos, superior hierárquico do padre. "Ele perdia muito tempo dando entrevistas e participando de programas de televisão", afirma dom Fernando. "O maior problema é que o padre estava tendo pouco tempo para se dedicar aos trabalhos pastorais", completa. O tempo, porém, continua curto. Marcelo Rossi raramente aparece na paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro para rezar missas, fazer batizados ou dar confissão, três dos sacramentos mais importantes de um sacerdote. A maior parte de suas atividades paroquiais está concentrada no santuário.

O sacerdote também não tem mais condições de se corresponder com os fiéis. Na ponta do lápis, Marcelo Rossi chega a receber mil mensagens por semana, entre fax, cartas e e-mails. Nelas, há de tudo: de pedidos de emprego, súplicas pela cura de uma doença e até algumas mais ousadas, com cantadas de mulheres solitárias. Antes do sucesso, ele respondia a todas elas. Pela rádio América, pede desculpas. Diz aos ouvintes que é impossível dar conta do enorme volume. Já se cogitou da criação de uma resposta-padrão, algo habitualmente usado pelas produções de artistas. Mas a idéia foi descartada pela direção da igreja.

Solidão na multidão
Os compromissos com a evangelização eletrônica criaram ainda uma situação inusitada. Apesar de conquistar o coração de milhares de fiéis, Marcelo Rossi está sozinho, segundo o pai, Antônio. "Todas as pessoas querem falar e desabafar com ele, mas meu filho não tem ninguém para fazer o mesmo", conta Antônio. O vírus da solidão também contaminou a face mais desconhecida da família. A irmã Marta, 28 anos, sabe o que significa essa sensação. Ela é a caçula. O mais velho é o padre e a irmã do meio é Mônica, 31 anos, professora de pré-escola. Marta foi freira durante um ano e meio. Largou o convento onde morava por causa da solidão que sentia e decidiu mergulhar nos estudos de ciências biológicas. "Ela não tinha vocação", diz Antônio Rossi.

Quanto maior o sucesso, maior o isolamento de Marcelo Rossi. Mesmo rodeado de muita gente - nos bastidores das missas de libertação trabalham cerca de 900 voluntários, todos dispostos a dar um chega-pra-lá em qualquer pessoa que se aproxime do padre -, ele enfrentou momentos de profunda depressão, especialmente no primeiro semestre do ano. A recomendação de que evitasse a exposição pública o deixou sem atividades produtivas - nesse período, concentrou-se em quem mais confia e praticamente dobrou o tempo dedicado a orações e conversas com Deus. No plano terreno, conversava com o pai, mas sem revelar suas angústias. Segundo Antônio Rossi, os dois, apesar de sempre próximos nas missas do santuário, têm uma relação algo distante, como é característico entre pais e filhos de suas gerações. "Ser padre com a responsabilidade que ele tem é muito difícil", disse Antônio a Gente.

A fama podou a liberdade do padre e seu dia-a-dia passou pelo purgatório. Marcelo Rossi não freqüenta mais a padaria no bairro onde mora, nem shopping center e muito menos academia de ginástica, locais onde costumava passear antes de virar celebridade. Suas visitas aos hospitais da região da Diocese de Santo Amaro, para dar bênção aos enfermos, tiveram horários, dias e tempo de duração modificados. Passaram a ser até noturnas e cada vez mais eventuais. Seus passos são definidos pela agenda de compromissos - e, com o lançamento do disco novo, cada vez mais pela gravadora.

Por alguns meses, Marcelo Rossi até deixou de fazer exercícios, uma das atividades que mais gosta. O sedentarismo momentâneo pesou em suas costas. O padre sentiu que estava fora de forma quando retomou a maratona das missas e gravações do CD. Há algumas semanas, voltou a cuidar de corpanzil de 1,95m e 95kg. Sua única atividade é a bordo de uma bicicleta ergométrica, presente de um fiel católico, na qual pedala por uma hora seguida. Também dedicou-se a ouvir músicas, estilos populares como rock e MPB, para escolher o repertório do disco. "Percebo que meu filho está muito mais animado", constata Antônio, aliviado. "Todas essas atividades tiram ele da solidão", conclui.

Colaboraram Cesar Guerrero e Fábio Bittencourt, de São Paulo,
e Adriana Barsotti, do Rio de Janeiro