9 de agosto de 1999

 

 

Os dois ref˙gios do ex-presidente
Milionßrio, o ex-presidente paraguaio Ra˙l Cubas mudou para Curitiba depois de viver quatro meses refugiado com a famÝlia e sem seguranšas em Cambori˙

Fábio Bittencourt
de Balneário Camboriú (SC)

A praia estava agitada em Balneário Camboriú, Santa Catarina, com o sol forte num dia de inverno. Com dois amigos, ele saiu de casa às 11h15 do domingo 25 com um jipe Nissan Patrol vermelho, placa K433572, de San Lorenzo, Paraguai. Percorreu sete quarteirões antes de chegar ao Hipermercado de Angelina. Comprou um pedaço de queijo gorgonzola, um pacote de queijo ralado e uma dúzia de bananas. O jipe retornou para o Edifício Cosmos, no número 2.160 da avenida Atlântica, a principal do balneário. Do 20.º andar do edifício, observou da sacada crianças brincando na areia da praia e idosos passeando no calçadão.

Rotina comum para qualquer cidadão, não fosse um detalhe: trata-se do engenheiro hidráulico Raúl Cubas Grau, 54 anos, ex-presidente do Paraguai, exilado no Brasil desde 29 de março. Cubas viveu nos últimos meses num apartamento de 250 metros quadrados - comprado há seis anos para aproveitar as folgas no verão brasileiro - que dividiu com a mulher Mirtha, 50 anos, e as filhas Sílvia, 23, e Cecília, 20. Desde a terça-feira 27, mora em um apartamento com 300 metros quadrados, na avenida Visconde de Guarapuava, no bairro de classe média alta do Batel, em Curitiba. O novo endereço foi reformado e tem aluguel de R$ 3 mil mensais. Em Assunção, o ex-presidente enfrentou turbulências porque libertou o general Lino Oviedo - militar que tentou depor o antecessor, Juan Wasmosy, em 1996 - contra a vontade da oposição. Pressionado, renunciou ao cargo. E o governo brasileiro ofereceu-lhe asilo político no ano passado.

No antigo apartamento, em Camboriú, só saía quando percebia pouco movimento na cidade, de 70 mil habitantes e 80 quilômetros de praias, freqüentadas por veranistas gaúchos e paranaenses abonados, além de argentinos. Sua discrição não era à-toa: pouco mais de 500 imóveis da região são de paraguaios, que freqüentemente passeiam por lá. "Outro dia, vi o ex-presidente na fila do banco", diz a caixa de uma banca de jornais. "Há pouco tempo, andava com uma porção de seguranças."

CAIPIRINHA DE VODCA Quando ia à praia, Cubas passava pelo quiosque em frente ao prédio e pedia uma caipirinha de vodca. Em dias mais quentes, arriscava duas doses. Raúl Cubas ficava menos de três horas sentado em uma cadeira de plástico, embaixo do guarda-sol. Como companhia, sempre um livro. As duas últimas aquisições foram A Eminência, de Morris West, e Toxinas, de Robin Cook. Cubas sente-se pouco à vontade com o exílio, que mudou sua vida. Tanto que decidiu mudar para Curitiba, uma cidade maior, para não chamar a atenção.

Desde que deixou o Paraguai, o ex-presidente não pôde mais almoçar e jantar nos restaurantes da Via Gastronômica do Balneário Camboriú, rua badalada da região, como fazia quando vinha apenas para usufruir do verão brasileiro. Há meses não aparecia no restaurante Olho D'Água para comer a caldeirada de frutos do mar e tomar vinho tinto Forestier, sua marca preferida. Na última vez em que esteve no restaurante Inconfidência Mineira, no início do ano, foi homenageado por um grupo de nordestinos, que pediu à dupla Marcelo e Marcelinho que tocasse "Asa Branca". Na final da Copa América de futebol, em meados de junho, o ex-presidente vibrou com a vitória do Brasil sobre o Uruguai, por 3 a 0. Andou até o quiosque para comemorar e não parou de fazer comentários sobre lances do jogo com o rapaz que o atendeu.

Cubas é um dos homens mais ricos do Paraguai, dono da Construtora 14 de Julho, uma das empresas que participaram da construção da Hidrelétrica de Itaipu. Seu pai, Emílio Cubas, foi acusado de ter enriquecido ilicitamente, como primeiro presidente do Instituto de Seguridade Social, criado pelo presidente Alfredo Stroessner para atender aposentados e trabalhadores. A casa onde Cubas morava, em San Lorenzo, está orçada em US$ 5 milhões. Fica em uma área de 10 mil metros quadrados, tem mais de 60 quartos e 28 banheiros. Na garagem, havia um Mitsubishi Lancia, que guiou na competição paraguaia Rali de Transchaco, em 1997. Está tudo lá, à espera do dono.

ABUSO DO PODER No momento, não há previsão de que Cubas volte ao Paraguai tão cedo. Dois processos contra ele tramitam na Justiça. No primeiro, é acusado de ser o responsável pela morte de sete jovens que protestavam em frente à praça do Congresso, três dias após a morte do vice-presidente Luís María Argaña. No outro, é acusado de ter desviado 2 bilhões de guaranis (cerca de US$ 600 mil) de órgãos públicos federais. "Não posso falar porque estou asilado", disse Cubas à reportagem de <b>Gente</b>.

Como presidente, ele foi acusado pela oposição de ser apenas um testa-de-ferro do general Oviedo, exilado na Argentina. Os dez ministérios que o ex-presidente controlava estavam nas mãos do Partido Colorado, que governa o país há 50 anos. Ao assumir o lugar de Cubas, o então presidente do Congresso, Luis González Macchi, distribuiu quatro vagas para a oposição e conseguiu pelo menos uma trégua em um cenário que caminhava para a guerra civil. Agora, aguarda um empréstimo chinês de US$ 400 milhões para financiar as contas externas e tirar o país do buraco.