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Videogames, RNG e habilidade vs. sorte

Cada vez mais games de diversos gêneros adotam a mecânica de RNG, em que a aleatoriedade é mais importante do que habilidade no jogo

20 out 2021 12h56
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RNG é uma expressão que vem se tornando cada vez mais comum em games. Random Number Generation, ou Geração de Números Aleatórios em português, não é uma mecânica tão nova assim e é usada há décadas, mas os algoritmos dos títulos mais antigos eram bem simples, e fáceis de serem manipulados.

O RNG é peça importante em jogos de RPG e competitivos, como MOBAs e CCGs, e é incluindo até mesmo em títulos de FPS, em que muitos o criticam como uma forma de punição a jogadores habilidosos, em prol de "manter a diversão" das partidas com base na sorte.

Gacha games em geral, como Genshin Impact, usam o RNG para reger todas as mecânicas de jogo
Gacha games em geral, como Genshin Impact, usam o RNG para reger todas as mecânicas de jogo
Foto: Divulgação/miHoYo / Meio Bit

O que é RNG?

RNG é um dispositivo, mecânico ou digital, para a criação de números ou símbolos que não podem ser previstos, seja por observação ou por cálculos externos. O resultado é uma combinação que pode ser usada para diversos fins, sendo um dos principais a criptografia de dados.

O mero ato de jogar um dado resultará em um número aleatório, ainda que a chance de acerto seja alta, de uma entre 6 opções. Adicione mais 2 dados e as chances diminuem para uma entre 16, já que o menor número possível passa a ser 3. 1.000 dados, uma entre 5.001 possíveis combinações, onde 1.000 é o menor valor.

Existem diversas formas de gerar números aleatórios, mas em geral, algoritmos estão entre as menos confiáveis para criptografia de alto nível. Empresas costumam empregar geradores de valores realmente randômicos, não determinados por nenhum elemento externo, como a Cloudflare, que usa uma parede com 100 lâmpadas de lava. Um gerador de fumaça de US$ 20 e um sistema que usa decaimento radioativo de uma ogiva termonuclear são capazes de entregar resultados no mesmo nível de confiabilidade.

O dado é um dos mais antigos e simples RNGs
O dado é um dos mais antigos e simples RNGs
Foto: 955169/Pixabay / Meio Bit

Claro que nenhuma dessas opções se aplica para games, que dependem de algoritmos, mas mesmo esses não são novos, embora o termo RNG sõ tenha pegado tração entre os gamers de uns anos para cá.

RNG em games

Algoritmos de RNG são usados em games desde muito tempo atrás. Pegue um JRPG das antigas como os primeiros Pokémon, em que encontros com inimigos no mapa podiam acontecer a qualquer momento. A frequência com que os combates aconteciam, os adversários e a quantidade em que eles apareciam, os itens deixados ao derrotá-los, tudo são valores determinados pelo algoritmo de geração de números randômicos do game.

Elementos como os itens que aparecem na roleta nos títulos da série Mario Kart, ou os tesouros encontrados nas dungeons de Diablo II Resurrected, são determinados pelo RNG. Jogos inteiros podem ser determinados pelo algoritmo, em que o gênero Dungeon Crawler, de masmorras que mudam a cada partida (The Binding of Isaac, Rogue Legacy, Enter the Gungeon, etc.) é o melhor exemplo; sem o algoritmo de aleatoriedade, não seria possível desenvolver a mecânica principal desses games.

Nos primórdios, os algoritmos de RNG implementados em games eram belas porcarias. Em jogos antigos, era possível prever alguns resultados e forçar o jogo a realizar ações desejadas, e mesmo alguns títulos mais recentes não são imunes a algum direcionamento por parte dos jogadores.

Nem estou falando de manipulação através de alterações do relógio do SO no PC, e sim de manhas disponíveis nos consoles nativos como no vídeo abaixo, a versão original de Final Fantasy XII do PS2, um game lançado em 2006. O jogo precisa tirar dados de diversas fontes para gerar os cálculos, e uma delas são os próprios inputs do jogador.

Alguns jogos competitivos também usam RNG. Hearthstone: Heroes of Warcraft, por exemplo, assim como em diversos outros CCGs, usa da aleatoriedade no saque de cartas, na forma como o computador colocará as suas em campo, e até mesmo em efeitos causados por algumas das cartas.

Um dos casos mais notórios dentro do jogo era do efeito original da carta "Yogg-Saron, Fim da Esperança". Ela originalmente era capaz de lançar feitiços aleatórios para cada um que o jogador já tivesse feito durante a partida, e por si só foi responsável por virar jogos praticamente perdidos, ou até mesmo terminar de destruir o jogador que a invocou.

Após diversas reclamações, e a constatação de que a carta era usada em torneios e tirava muito da competitividade, a Blizzard a nerfou em 2016, com seus efeitos sendo anulados se o minion invocado for destruído, silenciado, transformado ou devolvido à mão do jogador, durante sua ação.

Esta carta gerou pesadelos em muita gente
Esta carta gerou pesadelos em muita gente
Foto: Reprodução/Activision Blizzard / Meio Bit

MOBAs também são outro exemplo de jogos competitivos que implementam RNG. Em League of Legends, por exemplo, a escolha de rotas e o intervalo de respawn dos dragões, bem como a montagem de itens, escolha e banimento de campeões, mas esses elementos podem ser contornados e ignorados por jogadores experientes, no geral.

Claro que há uma série de jogos em que a inclusão do RNG não faz o menor sentido, ao menos não nas mecânicas principais. Títulos de corrida, luta e FPS se baseiam principalmente nas habilidades individuais dos jogadores, mas um ou outro já flertam com os números aleatórios em mecânicas acessórias.

Em Mortal Kombat 11 por exemplo, o modo Batalha IA permite aos jogadores configurarem seus melhores lutadores e mandá-los para enfrentar os de outros oponentes, com as lutas sendo executadas pela CPU. Aqui, o RNG é usado para uma série de cálculos de dano e execução de golpes, e o resultado entre lutadores equilibrados é em geral imprevisível.

Já alguns jogos de FPS implementam o recurso de outras formas. Títulos como Overwatch e Destiny 2 usam a geração aleatória para as recompensas de suas respectivas loot boxes, que oferecem itens cosméticos e no caso do segundo, armas e equipamentos valiosos e essenciais.

Neste caso, há quem diga que o jogo da Bungie pegou muito da filosofia dos gacha games, para gerir a forma de distribuição de equipamentos e itens exóticos. E lembrando que os melhores engramas só podem ser adquiridos gastando dinheiro de verdade.

Sorte vs. Habilidade

Dentro do gênero FPS, talvez o exemplo de implementação mais polêmica de RNG seja a feita pela Valve em Counter-Strike: Global Offensive. Como forma de tornar as partidas "mais divertidas", a desenvolvedora inseriu o elemento de aleatoriedade no disparo de armas no modo aberto, quando o jogador não usa um dos gatilhos para mirar antes de disparar.

CS: GO implementou RNG na mira aberta, algo que irrita jogadores há anos
CS: GO implementou RNG na mira aberta, algo que irrita jogadores há anos
Foto: Reprodução/Valve / Meio Bit

Quanto mais aberta a retícula de mira, mais o tiro poderá se desviar, mesmo se o jogador a posicionar bem sobre o inimigo e disparar, o que deveria ser entendido como um tiro certeiro, mesmo sem mirar. Neste caso, CS: GO privilegiou a dinâmica das partidas dando chances iguais de tiro a todos os jogadores no modo de mira aberta, ao invés de focar na habilidade.

Isso foi feito com um motivo até compreensível, pois jogadores experientes sempre terão vantagem sobre os novatos, mas ainda assim, a mudança nunca foi aceita por boa parte dos jogadores.

RNG e os gacha games

Em se tratando do RNG como mecânica, são os gacha games que fazem o uso mais amplo dos algoritmos de aleatoriedade. Vejamos o caso de Genshin Impact, hoje o mais popular de seu gênero: quem vê de fora pensa que o recurso está presente apenas na roleta, a forma de adquirir os melhores personagens e armas, quando na verdade ele rege absolutamente tudo no game.

Por ser um jogo cuja natureza se concentra em estimular o jogador a gastar dinheiro dentro dele, o título da miHoYo implementa o RNG nos banners de personagens e armas, os maiores geradores de renda, mas também em elementos como taxa de acerto, cálculo de dano e de chances de dano crítico de ataques, itens em baús, recompensas geradas pelo confronto com inimigos comuns, chefes, desafios em domínios e no Abismo Espiral (a dungeon sazonal de altíssima dificuldade do game), e etc.

Os maiores e mais desafiadores confrontos exigem que o jogador tenha um set equilibrado de personagens de elementos certos (óbvio que os de 5 estrelas, os mais raros e difíceis de se conseguir, são em geral melhores que os de 4 estrelas), com as armas e artefatos (equipamentos) certos, que fortaleçam suas principais características. A forma de conseguir os melhores artefatos e armas é aleatória, assim como adquirir os itens necessários para fortalecer habilidades e subir de nível.

Personagens, artefatos, armas, itens de evolução... tudo em Genshin Impact está ligado ao RNG
Personagens, artefatos, armas, itens de evolução... tudo em Genshin Impact está ligado ao RNG
Foto: Reprodução/miHoYo / Meio Bit

Gacha games como Genshin Impact, Fate/Grand Order, Azur Lane e outros usam seus personagens como o principal atrativo, basta olhar seus designs, mas a jogabilidade em si também está atrelada ao RNG, pois nem sempre é possível conseguir imediatamente os melhores recursos, itens, armas e equipamentos para progredir. O jogador é estimulado a continuar tentando sempre, e muitos não têm paciência para os tradicionais limitadores de tentativas.

Em Genshin Impact, esse limitador é o uso de resina restrita a uma certa quantidade por dia, enquanto ela é gerada lentamente pelo jogo. Claro, o jogador pode adquirir mais suprimentos para continuar jogando de forma imediata, com dinheiro real. Há os que jogam com paciência, mas sempre há os que jogam com a carteira, uma minoria com muita grana que são os principais financiadores de qualquer gacha game.

Heróis e Vilões

O RNG em games não é ruim per se. Ele pode ser usado tanto para viabilizar gêneros inteiros, gerar experiências válidas em títulos diversos, como vem sendo feito há décadas, mas também pode ser uma ferramenta importante para conduzir o jogador ao caixa dos títulos freemium, ou mesmo os dos AAA, vide Destiny 2.

Sabendo as regras, é possível em certos títulos fazer com que os algoritmos trabalhem ao seu favor, e mesmo quando isso não é possível, é opção de cada um decidir entre continuar jogando sem gastar ou não.

E claro, ainda haverão os games onde sua inclusão não faz sentido, independente do que a Valve ache melhor para CS: GO.

Videogames, RNG e habilidade vs. sorte

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