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Unsighted — O futuro não é mais como era antigamente

Funcionando como um metroidvania, mas usando muito bem elementos de diversos outros gêneros, Unsighted é um jogo brasileiro repleto de qualidades

25 out 2021 13h53
| atualizado em 26/10/2021 às 06h59
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Poder explorar um vasto mundo e coletar itens que nos darão acesso a lugares antes inacessíveis são elementos que fazem parte da essência dos metroidvanias e que tem conquistado admiradores há muito tempo. Porém, poucos são os representantes do gênero que ousam fugir do lugar comum e este foi o motivo que fez com que me interessasse por um jogo chamado Unsighted.

Desenvolvido pelas brasileiras do Studio Pixel Punk, Unsighted pode ser descrito como uma mistura de estilos que se encaixam muito bem. Contudo, esta seria uma maneira rasa de falar sobre aquele que, sem exagero, pode ser considerado um dos melhores jogos lançados em 2021.

Foto: Divulgação/Studio Pixel Punk / Meio Bit

Unsighted conta a história de Arcadia, uma cidade avançada tecnologicamente que certo dia é atingida por um meteoro. Contendo um material que foi batizado como Anima, ele foi responsável por fazer com que os autômatos adquirissem consciência, mas aquilo poderia ter ajudado a fazer com que a população evoluísse, na verdade deu início a uma enorme guerra.

Temendo como eles passariam a se comportar após se tornarem sencientes, os humanos começaram a caçar os robôs, que por sua vez fizeram o possível para sobreviver. O resultado foi o desaparecimento da humanidade, com as máquinas passando a controlar aquele mundo. Porém, o recurso que tem lhes permitido viver pacificamente é limitado e aqueles que não conseguem reabastecê-lo acabam perdendo a razão, transformando-se em assassinos, ou... unsighted.

Será neste cenário que acordará Alma, um autômato sem muitas recordações do passado e com o ímpeto de procurar Raquel, outro robô por quem ela tinha uma forte ligação. Com o tempo a protagonista tomará conhecimento de tudo o que está acontecendo em Arcadia, assim como o fato de que não há ninguém melhor do que ela para coletar os cinco pedaços do meteoro que estão espalhados pelo mundo.

Inicialmente o enredo de Unsighted pode parecer um tanto simples, mas ele é muito bem escrito e aos poucos vai se tornando mais interessante, com o relacionamento dos personagens dando origens a situações carregadas de emoções. Porém, não há como negar que o ponto alto do título está na sua jogabilidade.

Foto: Divulgação/Studio Pixel Punk / Meio Bit

Nier + Metroid + The Legend of Zelda + Dark Souls

Ao iniciarmos a nossa aventura por Arcadia, a primeira impressão é de estarmos diante de um típico RPG de ação lançado nos anos 90. Com uma visão aérea, veremos o mapa se formar conforme avançamos pelas salas e teremos que resolver alguns quebra-cabeças não muito complexos para podermos avançar.

Contudo, não demorará até descobrirmos que diversas partes dos cenários não podem ser acessadas, sendo necessário a descoberta dos mais variados itens para conseguirmos chegar até elas. Além disso, apesar do jogo estar sempre indicando para onde devemos seguir, é possível tomarmos outra direção e avançarmos da maneira que acharmos melhor. Isso obviamente tornará o progresso mais difícil, mas não impossível.

Unsighted brilha também quando se trata dos combates, muitas vezes bem mais desafiadores do que nos acostumamos a ver em metroidvanias. Nos oferecendo uma grande variedade de armas, mas com apenas podendo ser equipadas ao mesmo tempo, o jogador será incentivado a encontrar aquela que melhor se encaixe no seu estilo, seja desferindo golpes mais fortes, embora lentos ou disparando sucessivos ataques rápidos e menos poderosos.

O jogo ainda faz o excelente uso do sistema de bloqueios, nos permitindo evitar quase todos os ataques feitos pelos inimigos e que após conseguirmos dominar a sua utilização, será fundamental para termos melhor sorte nos combates.

Mas aquilo que exigirá nossa total atenção nos confrontos é a barra de resistência que diminuirá de acordo com nossas ações. Sair apertando o botão de ataque freneticamente apenas fará com que a protagonista fique cansada, sendo incapaz até mesmo de se defender. Felizmente há alguns chips que nos darão mais resistência, mas o gerenciamento de energia é algo com que lidaremos durante todo o jogo.

Outra ideia que também veio direto da famosa série da From Software é a penalidade ao sermos derrotados, fazendo com que o dinheiro que tivermos coletado até então fique no local em que caímos. Para recuperá-lo será preciso voltar até o fatídico ponto, adicionando assim alguma dramaticidade à jogabilidade e fazendo com que tenhamos o maior cuidado possível durante os combates.

Há também as armas de longo alcance, essenciais para manter os inimigos a distância, mas também para acertarmos dispositivos que moverão objetos para assim chegarmos a lugares aparentemente inacessíveis. Aqui novamente a atenção será importante, pois não existe recarregamento automático e a todo momento teremos que tomar cuidado para não ficarmos sem munição.

Vale destacar ainda os chefes, que quase sempre possuem designs muito legais e padrões de ataques desafiadores, assim como o sistema de criação de itens, que nos permitirá ter acesso a armas mais poderosas ou engrenagens que facilitarão muito a nossa vida em alguns combates.

Foto: Divulgação/Studio Pixel Punk / Meio Bit

Tique, taque, tique, taque...

De todas as boas ideias implementadas pelo Unsighted, aquela que mais me agradou foi o limite de tempo para concluirmos a história. Aproveitando o fato de que todos os personagens possuem estoque limitado de Anima, sempre que entrarmos numa nova área ou conversamos com alguém será mostrado quanto tempo falta até que Alma ou os outros autômatos percam o juízo.

Contribuindo bastante para deixar a história muito mais tensa, este "prazo de validade" servirá mesmo para figuras importantes para o enredo ou até para os vendedores que encontramos nas lojas. Incapazes de produzir seu próprio Anima, uma saída para solucionar, ou melhor, retardar o problema é usar Pó de Meteoro, um item raro que encontramos pelo mapa e que aumentará o tempo de vida do personagem em 24 horas.

Podendo ser dado para qualquer autômato que encontrarmos pelo caminho, este recurso valioso não só garantirá que o personagem continue são por mais um dia, como poderá nos render itens e armas que serão importantes para termos maiores chances. Lembrando que a própria protagonista é afetada por esta contagem regressiva e como a passagem do tempo é constante — inclusive fazendo com que certos inimigos só apareçam durante o dia ou à noite —, o relógio será parte fundamental da experiência.

Já para quem não consegue se divertir sob pressão, felizmente as desenvolvedoras implementaram a possibilidade de diminuirmos a velocidade que o relógio andará. Mesmo não acabando completamente com a mecânica, a opção fará com que o tempo seja praticamente ignorado pelo jogador, já que apenas se progredirmos muito lentamente na história ele poderá incomodar.

Foto: Divulgação/Studio Pixel Punk / Meio Bit

Pixel art da melhor qualidade

Algumas pessoas podem não gostar de jogos modernos que recorrem ao estilo visual dos 16-bit, mas como um grande apaixonado por ele, não posso deixar de elogiar o fabuloso trabalho realizado no Unsighted.

Além da animação dos personagens que é muito boa, os cenários são repletos de detalhes e os biomas apresentam uma grande variedade, sendo fácil diferenciar cada uma das regiões. Também é legal ver como cada área parece dependendo do período do dia em que a visitarmos.

Para mim, o único problema está nas partes em que temos prédios sobrepostos, pois achei um pouco difícil entender o que se tratava de caminhos pelos quais podia seguir e o que era apenas parte do cenário. Nada que chegue a atrapalhar, vale dizer.

Outro aspecto que me agradou muito foi a trilha sonora que nos acompanha, com as batidas sempre dando o tom certo e elevando a tensão nos momentos mais perigosos. Combinando muito bem com a direção artística, é mais um belo presente aos fãs de jogos old school.

Foto: Divulgação/Studio Pixel Punk / Meio Bit

Uma aventura fascinante e com muita... alma

Trazendo um pouco de originalidade a um gênero que tanto adoro, mas que raramente vai além do feijão com arroz, Unsighted se mostrou uma daquelas gratas surpresas que eu não sabia que queria, até poder colocar as mãos nele.

Um jogo com um padrão de qualidade bem acima da média, que fascina por ser extremamente divertido e por conseguir misturar várias ideias, mas principalmente, executá-las muito bem. Algo deste nível normalmente só seria possível em um estúdio grande, com a participação de vários profissionais com longo histórico na indústria, tornando ainda mais impressionante saber que ele foi feito no Brasil e por um estúdio que está apenas estreando nos games.

Isso me faz pensar em até onde o Studio Pixel Punk poderá chegar, mas neste momento quero apenas me dedicar mais um pouco ao Unsighted. Mesmo porque, fazia muito tempo que eu não encontrava um jogo tão divertido que pudesse ser aproveitado no coop local e que rendesse minutos tão legais ao lado do meu filho.

Unsighted — Ficha Técnica

Plataformas Disponíveis: PC, PlayStation 4, Xbox One (disponível no Xbox Game Pass) e Nintendo Switch;

Desenvolvedora: Studio Pixel Punk;

Distribuidora: Humble Games;

Data de lançamento: 30/9/21.

Unsighted — O futuro não é mais como era antigamente

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