As joias esquecidas do Nintendo DS
Um portátil que respirava criatividade
O portátil Nintendo DS sempre é lembrado pelos seus gigantes: Pokémon, Mario Kart DS, The World Ends With You, Castlevania, Professor Layton, Brain Age. Mas, quando olhamos com cuidado para a sua biblioteca — uma das mais extensas e variadas da história — percebemos que existe um subterrâneo rico, criativo e, muitas vezes, negligenciado. São jogos que não ganharam destaque na vitrine da época, mas que hoje brilham como cápsulas de inovação, experimentação e puro charme portátil.
O DS era um console que incentivava risco. A tela dupla e o touchscreen, que pareciam excentricidades no lançamento, abriram espaço para ideias que simplesmente não caberiam em nenhum outro sistema. E, escondidos entre franquias consagradas, estavam pequenos tesouros que exploravam essa liberdade de forma quase artesanal. Confira alguns deles abaixo.
Trauma Center: Under the Knife
Muito antes das simulações detalhadas e dos dramas clínicos hiperrealistas, Trauma Center já entregava em 2005 uma experiência singular: misturar precisão cirúrgica, narrativa melodramática e batalhas contra doenças estilizadas como chefes. Nada parecia funcionar no papel — mas na prática era hipnotizante. O touchscreen transformava cada incisão em uma microvitória e cada operação em um ato de pura adrenalina.
Ghost Trick: Phantom Detective
Hoje cultuado, mas na época quase invisível, Ghost Trick é o tipo de jogo que o DS parecia ter sido criado para abrigar. A aventura de Sissel, um espírito tentando desvendar seu próprio assassinato, mistura puzzle, animação elegante e narrativa afiada. É uma obra com timing perfeito, humor peculiar e aquele tipo de engenhosidade que só a Capcom dos anos 2000 entregava com naturalidade. Ganhou uma remasterização em 2023 para o Switch.
The Dark Spire
Num momento em que RPGs buscavam velocidade e acessibilidade, The Dark Spire fez justamente o contrário: abraçou a estética dos dungeon crawlers dos anos 80, com menus densos, dificuldades impiedosas e um mundo que parecia conversado diretamente com Wizardry. O toque de mestre? A opção de alternar entre gráficos modernos e um modo totalmente retrô, como se o DS estivesse abrindo um portal para outra era.
Henry Hatsworth in the Puzzling Adventure
A EA, em um raro momento de pura ousadia criativa, lançou um híbrido improvável: plataforma na tela de cima, puzzle na tela de baixo, tudo acontecendo simultaneamente. Henry Hatsworth é divertido, inventivo e absurdamente carismático. É o tipo de jogo que só existe porque o DS permitia que duas mecânicas coexistissem em camadas que dialogam o tempo todo.
Radiant Historia
No final da vida do console, quando muitos jogadores já tinham migrado para o 3DS, a Atlus lançou em 2010 um dos JRPGs mais elegantes da geração. Radiant Historia entrega viagens no tempo bem estruturadas, personagens marcantes e um sistema de batalhas tático e envolvente. É um daqueles casos clássicos em que a qualidade supera em muito a repercussão que teve na época. Em 2017 ganhpu um remak eno 3DS chamado Radiant Historia: Perfect Chronology.
A grandeza do Nintendo DS não está apenas nos seus hits, mas na sua capacidade de ter sido um ecossistema fértil para experimentos — alguns extravagantes, outros brilhantes, muitos injustamente esquecidos. Revisitar essas joias é revisitar um momento especial da indústria, quando criatividade importava mais do que resolução e quando o portátil da Nintendo parecia uma caixa de surpresas inesgotável.