O ator Othon Bastos e o diretor da novela Esperança, Luiz Fernando Carvalho, sempre tiveram forte admiração um pelo outro. O primeiro foi presidente do júri que premiou o curta A Espera, de Luiz Fernando, como o melhor do Festival de Gramado de 86, enquanto o segundo se diz apaixonado pelo Corisco de Othon em Deus e o Diabo na Terra do Sol, dirigido por Glauber Rocha em 64. Apesar da admiração mútua, os dois nunca dividiram um set. Por isso mesmo, Othon aceitou na hora o convite de Luiz Fernando para fazer o Vincenzo na novela da Globo. "O Luiz é dos poucos diretores da Globo que conhece meu trabalho. Os demais olham para mim como se eu fosse um ninguém. Um se acha mais gênio que o outro", alfineta. Prestes a completar 70 anos, Othon Bastos impressiona pela franqueza. Ao contrário de muitos que preferem usar de evasivas a criar desavenças, ele é do tipo que fala o que pensa. Entre outras coisas, afirma que, até pouco tempo, só era chamado para fazer bandido ou delegado. Essa regra só foi quebrada em A Padroeira, quando foi convidado para interpretar um padre. E, mesmo assim, porque o convite partiu do diretor Walter Avancini. Mas, ressalva, foi só Avancini se ausentar, por motivo de saúde, para seu personagem ser retirado da trama pelo diretor Roberto Talma. "Na tevê, você muda conforme a vontade do público. Já vi coisas incríveis por aí...", garante.
Othon Bastos não demonstra receio de ser repreendido por que quer que seja. E nem poderia. Desde que estreou em Super Plá, exibida pela extinta Tupi em 69, nunca assinou com a Globo por mais de um ano. Por isso mesmo, sempre teve de correr atrás de melhores oportunidades de trabalho. Com exceção da extinta Excelsior, fez novelas em todas as outras emissoras. De seus inúmeros trabalhos, destaca Os Imigrantes, da Band, Roque Santeiro, da Globo, e Éramos Seis, do SBT, como seus preferidos. "Nunca tive meu talento reconhecido pela tevê. Não sei se por ignorância ou preguiça. Mas isso não me interessa. Só o medíocre é perfeito o tempo todo", consola-se, citando o poeta irlandês Oscar Wilde.
Você interpretou um português em Os Imigrantes e, 20 anos depois, um italiano em Esperança. Você concorda que o Benedito Ruy Barbosa escreve sempre a mesma novela?
Foi justamente de Os Imigrantes que ele partiu para escrever todas as suas epopéias. Numa entrevista recente, o Benedito disse que, no navio de Os Imigrantes, havia dois mil imigrantes. Ou seja: duas mil histórias. As histórias podem começar todas iguais, mas o futuro de cada personagem é sempre diferente. Em Esperança, vamos conhecer o futuro de uma família de sardos que veio tentar a vida no Brasil...
E o Vincenzo é diferente de seus personagens anteriores?
É. O Vincenzo é um "carcamano". Como as terras dele na Itália não produziam mais nada, ele veio atrás do sonho dourado. Apesar de tudo, é um cara ingênuo, batalhador, que a ama a mulher, a família e a terra. O meu núcleo na novela é muito bacana. Eu, a Aracy, a Simone, o Emílio formamos uma família de verdade. A gente já se entende só de olhar para o outro.
Qual foi a maior dificuldade para compor esse "carcamano"?
Como a família do Vincenzo veio da Sardenha, o nosso italiano teria de ser diferente dos demais. Por isso, comprei livros e mais livros de gramática para aprender a falar o dialeto sardo. O sardo não fala "io", fala "eo". Mas por que uns italianos falam "io" e outros "eo"? Tem algo errado! Chegamos à conclusão que ninguém ia entender nada. Voltamos atrás depois de gravar uns 10 capítulos. No final das contas, iam falar que o Benedito estava escrevendo errado...
Como você reage quando o público interfere na composição de um personagem?
Ah, isso é o que mais acontece... Você começa a novela de um jeito e termina de outro, completamente diferente. Você muda o perfil do personagem de acordo com o público. No final das contas, ninguém lembra o que você fez no primeiro capítulo. Você pode começar a novela como vegetariano e terminá-la numa churrascaria, comendo uma alcatra crua, sangrando... Já vi coisas incríveis...
Como a morte do seu personagem em A Padroeira?
Exatamente. A morte do meu personagem nunca foi planejada. Quando assinei contrato, o Avancini me garantiu que ele iria até o final da novela. Quando o Avancini saiu e o Talma assumiu, ele promoveu uma reestruturação na trama e o meu personagem acabou desaparecendo... Mas não fiquei puto ou magoado. Apenas espantado. Como é que você é contratado por um determinado período de tempo e, de uma hora para outra, seu personagem desaparece da história sem maiores explicações?
Com mais de 30 anos de carreira na tevê, você já se dá ao luxo de escolher papéis?
Absolutamente. No teatro e no cinema, só faço o que quero. Se não quero fazer, não faço e pronto. Na tevê, é diferente. Você fica catalogado. Até pouco tempo, eu só fazia bandido ou delegado. Só fui fazer padre em A Padroeira... É como se você só pudesse fazer tais e tais papéis. Para outros, você não serve. Há diretores na Globo que nunca me chamaram para o que quer que seja. Nem olham para a minha cara. Você não imagina o que é trabalhar na Globo... É briga de ego o tempo todo...
A que você atribui isso?
Atualmente, não significa nada você ter uma trajetória no cinema ou no teatro. O que importa é a novidade, é o rostinho bonito, é o menino bonito que está na praia fazendo ginástica... Aí, eles contratam o menino bonito para ser protagonista de novela. Os valores mudaram muito. No meu tempo, você tinha de trabalhar muito para ser ator. Capinar mesmo! Hoje, o cara aparece num dia e, no outro, já é considerado gênio. Gênio, para mim, é a Fernanda Montenegro, o Paulo Autran... Só me chama para fazer tevê quem me conhece do teatro ou do cinema. Já os outros olham para mim como se eu fosse um ninguém...
O Luiz Fernando é um entusiasta do cinema novo...
Exatamente. Ele tem verdadeiro fascínio por Deus e o Diabo na Terra do Sol. Não só pelo filme, mas pelo método de trabalho do Glauber... Outro que conhece bem o meu trabalho é o Herval Rossano. Ele sempre me deu bons papéis. E tem o Avancini também. Que diretor maravilhoso! Quando entrava no estúdio, já sabia o que queria de cada cena. Tinha uma segurança invejável. Podia ter todos os defeitos do mundo, mas sabia dirigir atores como ninguém...
Você já se ofereceu para trabalhar em alguma produção?
Já. Quando eles resolveram fazer O Auto da Compadecida, liguei para o Guel Arraes.
E o que ele disse?
Ele foi muito gentil e delicado. "Puxa, Othon, já está tudo escalado...". "Então, está bem, um beijo...". E desliguei. Mas o Guel é um rapaz muito talentoso...
E você costuma recusar muitos papéis na Globo?
Às vezes, eles chamam a gente para fazer as coisas mais absurdas. Aí, não tem jeito... "Tenha a santa paciência, mas isso não dá para fazer...". E, quando você recusa um papel, eles acham um absurdo: "Mas como? Por que você não quer?". Eles se sentem até ofendidos...
É por isso que você já passou por tantas emissoras de tevê?
Trabalhei até na extinta Tupi. E quem me levou para lá foi o Antônio Abujamra. Um dia, o Abujamra me apresentou ao diretor-geral da emissora, o Antonino Seabra: "Você sabe quem é esse aqui?", perguntou. O cara olhou para mim e disse: "Não". "Problema seu! Esse aqui é o Othon Bastos, o Corisco de Deus e o Diabo". O cara continuou sem saber quem eu era. "Você tem de contratá-lo!", insistiu o Abu. "Mas como?", retrucou o sujeito. "Não me interessa! Depois, a gente vê onde encaixa ele...", concluiu. Dito e feito. Um mês depois, comecei a fazer novelas na Tupi...
E por que você relutou tanto em fazer televisão?
Mas eu não relutei. Fazia muito teatro na época. Trabalhava à noite e, à tarde, ensaiava outra peça. A que horas, ia fazer televisão? No Teatro Oficina, era assim: você estreava um espetáculo e já começava a ensaiar o seguinte. Foi assim que fiz Galileu Galilei, O Rei da Vela, Os Pequenos Burgueses... Só fui para a televisão muito tempo depois.
E quais os seus trabalhos prediletos na tevê?
Tenho um trabalho predileto por emissora. Fiz uma novela muito boa na Band, que foi Os Imigrantes. Uma novela linda do Benedito Ruy Barbosa. Na Globo, fiz Roque Santeiro, que teve uma repercussão extraordinária. Nela, eu fazia o Ronaldo César, um vigarista que vivia jogando charme para cima da mulherada de Asa Branca. E, no SBT, fiz Éramos Seis, onde fui dirigido pelo Nílton Travesso e Henrique Martins. Tudo que sei de televisão, aliás, devo ao Henrique.
Como você lida com a frustração de não ter o seu talento reconhecido na tevê?
Olha, não sei porque isso acontece. Só sei que já não me importo mais. O que importa é que já fiz muita coisa na vida. Amanhã ou depois, quando fizerem meu obituário, vão ter muito o que escrever a meu respeito...
Estréia casual
Durante muito tempo, Othon Bastos esperou em vão um chamado da Globo para trabalhar numa das muitas novelas baseadas na obra de Jorge Amado. O único convite que recebeu foi para fazer a minissérie Tereza Batista, adaptada por Vicente Sesso. Há pouco, ele veio descobrir o motivo do aparente descaso. "Ninguém lá na Globo sabia que eu era baiano. Pensavam que eu fosse paulista", espanta-se.
Embora tenha se mudado aos sete anos para o Rio de Janeiro, Othon José de Almeida Bastos nasceu em Tucano, no interior da Bahia. Há dez anos, o ator não visita sua cidade-natal. "Tenho curiosidade de voltar lá para saber como está", confessa.
Othon Bastos só descobriu sua vocação quando já morava no Rio de Janeiro. Nessa época, ele fazia o primeiro ano do científico, que corresponde ao atual ensino médio, e estava dividido entre Odontologia e Aviação. Certo dia, a turma de Othon resolveu montar uma peça que satiriza o clássico Otelo, de William Shakespeare. Um dia antes da estréia, o aluno que devia interpretar Iago desistiu e Othon, que repassava o texto durante os ensaios, assumiu o papel.
Até hoje, Othon se mostra agradecido ao ex-colega de turma: o futuro diretor da Globo, Walter Clark. "O Walter 'medrou' porque aquele Iago era apaixonado por Otelo e não por Desdêmona. Era um Iago meio gay", brinca.
Foi graças a Walter Clark que Othon se apaixonou pelos palcos. Em 52, ele fez Teatro do Estudante do Brasil, de Paschoal Carlos Magno, e, anos depois, passou pelo Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa. Nos anos 60, fundou, em parceria com a mulher, a atriz Martha Overbeck, o Teatro Vila Velha, em Salvador.
Durante a ditadura militar, o casal encenou espetáculos importantes, como Um Grito Parado no Ar, de Gianfrancesco Guarnieri, Murro em Ponta de Faca, de Augusto Boal, e Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra. "A qualquer momento, a gente podia ser preso e as peças, proibidas. Mas eu não saberia viver sem o teatro", relembra, emocionado.
Figura marcante
Othon Bastos trabalhou em alguns dos mais importantes filmes do cinema brasileiro. A estréia não poderia ser mais promissora. Em 62, ele fez o jornalista sem escrúpulos de O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Dois anos depois, viveu o Corisco de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, um dos mais representativos do cinema novo.
A primeira opção de Glauber para o papel, no entanto, era o ator Antônio Lisboa, tão alto e forte quanto Maurício do Valle. "Glauber estava convencido que precisava de um ator de porte para fazer frente ao Maurício. Senão, o público riria do duelo final", esclarece.
Mas a parceria deu tão certo que se repetiu em O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, cinco anos depois. "Eu brinquei de imitar o Glauber o filme inteiro", lembra, sem disfarçar a saudade ao falar do amigo falecido em 1981. Quando terminou Deus e o Diabo, Othon ficou por quase três anos sem fazer cinema. E por um motivo simples. "Não queria ficar marcado por Corisco o resto da vida", explica.
Othon só voltou ao cinema em 1967, quando fez o Bentinho de Capitu, de Paulo César Saraceni. Outro personagem que ocupa lugar cativo entre os preferidos do ator é o Paulo Honório de São Bernardo, de Leon Hirszman.
Nos anos 90, Othon Bastos virou uma espécie de talismã para o cinema nacional. Tanto O Que É Isso, Companheiro?, de Bruno Barreto, quanto Central do Brasil, de Walter Salles, concorreram ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Para interpretar o caminhoneiro evangélico que dá carona para Dora e Josué, personagens de Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira em Central do Brasil, Othon Bastos teve de fazer teste.
Longe de se sentir melindrado ou ofendido, o ator pediu para ler o roteiro e compareceu no dia marcado. "Até o Marlon Brando teve de fazer teste para interpretar o Dom Corleone de O Poderoso Chefão... Fazer teste não é demérito nenhum", ensina.