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Nadal: "Me veem como um obsessivo por vitórias, e não sou"

12 jun 2017
18h14
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Rafael Nadal passeia com sua décima Taça de Mosqueteiros pela orla do rio Sena mal esperando a hora de fazê-lo perto de outras águas, as do Mediterrâneo nas ilhas Baleares, onde nasceu e vai tirar alguns dias de folga antes de encarar outro desafio de peso em Wimbledon.

Com a emoção da conquista de mais um título de Roland Garros ainda latente, o espanhol reservou tempo para uma entrevista com um grupo de jornalistas em Paris, entre eles a reportagem da Agência Efe.

P: O sucesso mudou sua vida?

R: Não, moro no mesmo lugar, minha vida é totalmente normal, de adolescente quando estou em casa e um pouco diferente quando estou pelo mundo. Tenho a sorte de que, quando chego em casa, a vida volta a ser normal e terei a tranquilidade de que preciso.

P: Você ganhou 15 títulos de Grand Slam, três a menos que Federer. Passa pela sua cabeça alcançá-lo?

R: Nem há menos de seis meses estava tão acabado, nem agora sou tão grande. Nem sou muito eufórico quando as coisas vão bem, nem muito negativo quando vão mal. Sou bastante estável e geralmente tento assumir as coisas que vão acontecendo com normalidade e naturalidade, sem fazer alardes, nem grandes dramas. A partir dessa perspectiva, que funciona para mim, sigo adiante.

P: Você se considera hoje melhor tenista do que há alguns anos, mais técnico e menos físico?

R: Ouço isso há muito tempo. Se assistirmos a vídeos de 2013 ou de 2008, veremos que não era um jogador físico. Jogava com mais intensidade porque a tinha. Mas com intensidade não se ganha o que ganhei naquele momento. Acredito que há coisas que faço melhor do que antes. Incorporei coisas e perdi outras. O saque e a devolução são melhores do que antes. O entendimento do jogo também. O físico é um pouco pior, mas continua sendo bom. Geralmente há uma evolução, mas não me considero melhor. Não sei se o eu atual venceria o de 2008. Mas todos evoluem, Federer e Djokovic também.

P: A homenagem de ontem em Roland Garros marca uma nova etapa da sua relação com o público e com o torneio?

R: Há anos sinto o carinho das pessoas. Apreciaram tudo o que fiz aqui. Para mim é emocionante sentir, no lugar mais importante da minha carreira, o carinho das pessoas, do público. Me sinto em casa, sempre me trataram de forma sensacional. É certo que, com o público, da quadra, no começo custou mais, sobretudo em 2009, mas desde então há anos sinto o carinho das pessoas. Nas ruas sempre senti o carinho das pessoas.

P: Você ganhou três anos após sua última conquista. Foi um hiato longo?

R: Não foram anos longos por não ganhar. As pessoas me veem como um obsessivo por vitórias, e não sou. O que foi longo é não ter podido competir durante muitos meses.

P: Imaginava que teria uma carreira tão longa?

R: Sempre pensei que não poderia chegar onde estou hoje, competindo em alto nível aos 31 anos, mas pensava por causa do meu problema crônico no pé. Em 2005, destruí o pé esquerdo na final (do Masters) de Madri, o que me obriga a jogar com um estilo muito agressivo. Os médicos me disseram que não saberiam se poderia continuar minha carreira. Que hoje em dia o pé continue aguentando e que seja o que está dando menos problemas era inimaginável.

P: Você se considera uma lenda?

R: Não, encaro com total normalidade, não é nada que me preocupe. Aproveito todo o carinho que as pessoas me dão e todos os elogios são mais que bem-vindos, igualmente quando há críticas, também as aceitei quando eram dentro do respeito. É parte do nosso mundo. Sei que minha carreira é especial, mas aos 31 anos não vou acreditar em outro filme diferente do que pensei para o resto da minha vida. Sou ciente de que tudo o que estou vivendo é passageiro. Em alguns anos serei mais um cidadão. Melhor não subir muito, porque a queda é maior. Tentei sempre estar no nível do mar.

P: Uma pessoa normal, mas que terá uma estátua em Roland Garros. Isso lhe aflige?

R: Não me aflige, mas tampouco o contrário. Não sou uma pessoa de grandes festas. Sou de festas com os meus amigos, mas não grande comemorações. Tampouco de grandes dramas. Sou feliz vivendo tranquilo em Mallorca, tenho a sorte de viver em um lugar tranquilo e tenho muitas rotas de fuga, me perco no mar ou jogando golfe. Tenho uma vida tranquila que me dá a oportunidade de aceitar tudo de melhor.

P: Como planeja Wimbledon?

R: Estou vivendo meses muito intensos, sou o jogador que mais partidas disputou no ano. Ainda que as partidas aqui não tenham sido as mais difíceis da minha carreira, em nível emocional e em tensão, que desgasta muito o corpo, foram duras. Unido a toda a temporada de saibro, que foi muito difícil. É o momento de analisar bem as coisas e planejar o calendário anual para manter o frescor mental e físico. Ainda não planejo o que vai acontecer, mas vou fazer o melhor calendário para chegar a Wimbldeon bem.

P: Pode planejar uma pausa brusca como a que Federer fez na temporada de saibro?

R: Cada um faz o que acredita que é melhor. Neste ano já deixei de jogar em Roterdã após a final do Aberto da Austrália. O que Federer fez é arriscado, pode dar certo, porque está em um ritmo intenso e jogando em um nível altíssimo. Mas não é festa a cada semana, e quando se deixa de jogar três meses, não é tão fácil recuperar o ritmo de competição. Para ele vai funcionar bem porque tem apenas dois torneios antes de Wimbledon e é um jogador com um talento muito elevado. Mas é arriscado. Não é a minha linha. Planejo não forçar a máquina, mas não considero ter pausas bruscas deste calibre, para o meu corpo não é bom.

EFE   

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