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Em Paris, Nadal é o mesmo de sempre, e ainda assim está diferente

O jogador que transformou a defesa numa arte, luta para evitar a guerra do desgaste que ele travou enquanto era mais jovem. Aos 35 anos, é o que precisa fazer

11 jun 2021 10h35
| atualizado às 11h59
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PARIS - Seu cabelo está diminuindo no topo da cabeça. Seus joelhos podem estar mais instáveis. Em janeiro ele sofreu uma lesão nas costas que quase o obrigou a se retirar do Aberto da Austrália. Ainda assim, com sua vitória na segunda-feira contra Jannik Sinner da Itália, a nova estrela do tênis de 19 anos de idade, Rafael Nadal chegou à sua oitava final num torneio que basicamente vence desde 2005. O fato é que ele venceu o jogo de uma maneira diferente do habitual.

Nadal não foi perfeito na segunda-feira, quando da sua vitória por 7-5, 6-3 e 6-0. Ele estava perdendo por 5 a 3 no primeiro set antes de vencer quatro games seguidos. Ele engoliu um 4-0 no segundo. Mas como sempre faz no saibro de Roland Garros, usou todas as tacadas necessárias levando Sinner a se movimentar de um lado para outro na quadra. "Num determinado ponto, ele estava jogando e eu apenas correndo", disse Sinner.

Nadal venceu o French Open 13 vezes. A federação de tênis da França inaugurou uma estátua dele no local antes do início do torneio, uma abstração em aço dos momentos finais do seu poderoso forehand. A vitória na segunda-feira foi a 104ª em Roland Garros.

Essa vitória levou Nadal, terceiro cabeça de série por causa do seu ranking atual, apesar de todo o sucesso em Paris, mais perto de uma semifinal com Novak Djokovic, o número um mundial. Djokovic derrotou o italiano de 19 anos, Lorenzo Musetti, em um dos mais bizarros jogos deste torneio. Ele parecia perdido nos dois primeiros sets, errando os alvos e perdendo dois tiebreakers.

Mas, então, tirou uma pausa e retornou mais firme, vencendo 12 dos 13 games e fechando o jogo em dois sets cada um. Ele venceu outros quatro games antes de Musetti se retirar no quinto set. Mas o Nadal hoje, aos 35 anos, que enfrentará Djokovic, 34, na semifinal, é bem diferente do jogador que começou a vencer em Roland Garros há muito tempo atrás.

Na época, Nadal era um defensor de primeira ordem. Ele se agachava atrás da linha de base, perseguia cada bola e especialmente no saibro vermelho que tanto gosta transformava seus jogos em Roland Garros em guerras desgastantes. Não foi este o Nadal que Sinner enfrentou na segunda-feira, ou aquele com quem Cam Norrie se defrontou na terceira rodada durante o fim de semana. O Nadal de hoje, que sabe que há apenas um certo número de jogos que duram cinco horas que um jogador veterano consegue sobreviver, visa velocidade e eficiência quase tanto visa as vitórias. "Faço o que consigo em cada momento da disputa. Se conseguir vencer mais rápido, melhor", disse ele.

Há alguns anos, antes desta era mais recente de predomínio de Nadal no saibro, seus oponentes se acostumaram ao que deviam esperar, mas ainda assim saíam estupefatos com a experiência. "É fantástico o quão rápido ele era depois do seu serviço para encontrar seu forehand", disse Norrie depois da derrota. Norrie achava que estava jogando muito bem contra Nadal, mas como disse, seus olhos escancararam como se vissem algo impossível de acreditar. "O cara é implacável", disse.

Entre um ponto e outro, Nadal está mais reflexivo. Ele transpira profusamente e usa a toalha a cada oportunidade que consegue. Ele jura que não tem transtorno compulsivo obsessivo, mas precisa fazer sua série de tiques antes de começar a jogar, limpando a linha com seu pé, batendo três vezes a raquete no seu tênis antes do primeiro serviço para tirar o saibro da sola, levantando a bola várias vezes até sentir que é o momento certo para lançá-la.

Quando começa a contagem do ponto, Nadal tem se mostrado cada vez mais incansável a cada ano que passa, especialmente a partir de 2016, quando começou a trabalhar em tempo integral com Carlos Moya, tenista aposentado que chegou a número um do mundo e venceu o French Open em 1998.

As mudanças na estratégia do tênis parecem sutis na aparência, mas têm efeitos descomunais sobre a maneira como os pontos, games e jogos se desenrolam. No caso de Nadal, as câmeras de laser da Hawkeye, que se tornaram predominantes durante a década passada e fazem centenas de medições por segundo da bola e da posição na quadra de cada jogador, podem contar a história.

Quando Sam Maclean, analista de dados da Hawkeye, pesquisou os números, eles mostraram exatamente como Nadal alterou seu estilo de jogo depois dos 30, se tornando mais agressivo e tentando fazer pontos o mais rápido possível, mesmo se nunca foi uma pessoa que concluiu muitos pontos na rede.

A mudança é especialmente aparente durante os games de serviço de Nadal, quando ele tem a melhor chance de controlar o que acontece durante o ponto.

De 2012 a 2016, ele concluiu 30% dos seus primeiros serviços a partir de dentro da linha de base. Mas a cada ano que trabalhou com Moya, esse porcentual aumentou, primeiro para 36%, depois 39%, então 41% e no ano passado chegou a 42%. Por que isso é tão importante? Porque quando Natal faz sua primeira tacada de dentro da linha de base, ele vence 74% dos pontos. Quando é atrás da linha de base, conquista apenas 59%.

E embora se mantenha no fundo da quadra quando o serviço é do seu oponente, os pontos rapidamente evoluem numa luta para ele avançar, para aquela pequena faixa no meio da linha de base que antes limpou para lhe servir de alvo para correr na direção durante um ponto. Apesar de Nadal estar se dando menos tempo para se colocar na quadra para essa primeira tacada, ele ainda rebate a bola com uma força enorme como sempre fez, numa média de 120 km por hora, segundo a Hawkeye, o que faz sua bola parecer uma rocha na raquete do seu oponente.

Alexei Popyrin, da Austrália, vítima de Nadal na primeira rodada do torneio, estava orgulhoso de quase vencer um set. "A quadra é dele. Sempre será a sua quadra", afirmou Popyrin após sua derrota. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Estadão
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