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Cortes nas premiações de torneios dificultam vida dos tenistas em meio à pandemia

Com menos dinheiro em jogo, muitos jogadores estão trabalhando mais duro do que nunca, especialmente aqueles que não têm a sorte de ter patrocínios de milhões de dólares

5 abr 2021
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Lloyd Harris está mandando bem este ano e é uma notícia boa: porque, se o jovem sul-africano de 24 anos não estivesse, ele talvez enfrentasse dificuldades para se manter na carreira de tenista profissional. Mesmo com seu sucesso recente - que inclui a terceira rodada do Aberto da Austrália em fevereiro, a final do Torneio de Dubai no mês passado e a segunda rodada no Miami Open na semana passada - seus ganhos estão longe do que eram, porque as premiações de seu esporte foram substancialmente reduzidas durante a pandemia do coronavírus e as despesas estão mais altas do que nunca.

Harris, que está em 52.º lugar no ranking mundial, provavelmente não poderá voltar para casa antes de novembro. Então ele tem que se sustentar na estrada e pagar pelo treinamento e pela fisioterapia, despesas que podem chegar a seis dígitos para um jogador de seu calibre.

"As coisas ficaram definitivamente difíceis no ano passado", disse Harris na semana passada, após vitória apertada na primeira rodada sobre Emilio Nava. "Este ano, com o prêmio em dinheiro tão reduzido, vai ser mais uma luta".

O tênis profissional talvez seja o esporte mais pesado do mundo em termos econômicos. Os melhores jogadores são incrivelmente ricos, em parte por causa dos luxuosos acordos de patrocínio, e qualquer jogador classificado entre os 30 primeiros vive muito bem.

Para os classificados entre aproximadamente 40.º e 70.º, alguns meses ruins podem causar problemas sérios. A vida para aqueles que estão fora dos 80 melhores, e especialmente para os fora dos top 100, pode ser bem precária.

A pandemia deixou as coisas ainda mais desafiadoras, pois os cortes nos prêmios em dinheiro na maioria dos torneios fazem com que cada vitória seja mais essencial para os jogadores que lutam pelo dinheiro extra que vem a cada rodada.

No Miami Open, que terminou domingo, mais de 200 jogadores disputaram US$ 6,7 milhões. É um dos maiores prêmios fora dos eventos Grand Slam e das finais do tour, mas é uma queda de quase 60% em relação a 2019, quando o prêmio foi de US$ 16,7 milhões.

No início da temporada, os torneios masculinos e femininos trabalharam com os jogadores e executivos para decidir como dividir as receitas em um ambiente onde se podia vender apenas uma fração do número normal de ingressos.

Em Miami, chegar à segunda rodada rendeu US$ 16 mil neste ano, em comparação com quase US$ 30 mil em 2019, a última vez em que o torneio aconteceu. Os vencedores receberam pouco mais de US$ 300 mil, um pagamento considerável, mas quase 80% inferior ao de 2019. Os torneios estão ajudando torneios menores a evitar déficits, financiando prêmios por meio de acordos de direitos de transmissão e reservas em dinheiro.

"É claro que é um período muito desafiador para todos", disse Steve Simon, executivo-chefe do tour profissional feminino, o WTA. "Nossa preocupação foi administrar tudo isso para que tivéssemos níveis de premiação em dinheiro suficientes para apoiar os jogadores e garantir que nossos eventos funcionassem".

Ninguém precisa ajudar os jogadores que avançam bastante nos torneios, mas a economia para ser um jogador de tênis profissional consistente pode ser desafiadora. Dependendo do país onde o jogador vive, cerca de 50% da receita pode ir para os impostos. Um técnico decente pode custar US$ 50 mil a US$ 100 mil por ano, mais os custos de viagem. O treinamento físico e a fisioterapia ao longo de uma temporada de 11 meses podem custar dezenas de milhares de dólares adicionais.

Danielle Collins, a americana de 27 anos classificada em 40.º lugar no ranking mundial, treinava com uma equipe de quatro pessoas antes da pandemia: um técnico de tênis, uma parceira de rebatidas, um fisioterapeuta e um preparador físico. Com os cortes na premiação em dinheiro, porém, Collins agora está treinando quase que só com seu namorado, Tom Couch, que é seu preparador físico.

"Não temos uma organização que paga treinadores, fisioterapeutas e nutricionistas como faríamos se estivéssemos numa equipe", disse ela. "Temos responsabilidades financeiras com as quais estamos 100% comprometidos. Custa caro lidar com isso no meio da pandemia, da incerteza contínua e das reduções nos prêmios em dinheiro".

Além disso, as viagens este ano estão mais caras, por causa das restrições e regras de quarentena que podem mudar de semana para semana e de país para país.

Este mês, os tours profissionais passarão pelas temporadas de quadra de saibro e grama na Europa até meados de julho. Em anos normais, os jogadores podem voltar para casa várias vezes durante esse período, especialmente se perdem no início de um torneio e têm um intervalo de duas semanas até o início do próximo evento em suas agendas. Isso pode ser bem difícil este ano.

"Se você consegue ir à Europa, talvez seja melhor ficar por lá", disse Ann Li, uma americana de 20 anos que recentemente entrou no top 100.

Não há muita escolha a não ser continuar competindo. Os contratos de patrocínio muitas vezes vêm cheios de incentivos que exigem que os jogadores entrem em um número mínimo de torneios, ganhando pontos conforme avançam. Collins disse que esses acordos - New Balance e Babolat são seus patrocinadores principais - ajudaram a sustentar muitos jogadores durante o ano passado.

"Para jogadores fora do top 100, eles até têm oportunidade de jogar, mas estão perdendo dinheiro jogando", disse ela. / Tradução de Renato Prelorentzou

Estadão
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