1 evento ao vivo

À medida que novos rostos surgem, Serena Williams encara o fracasso

Revelação do tênis, Bianca Andreescu derrotou a norte-americana no sábado e conquistou o US Open

9 set 2019
15h25
  • separator
  • 0
  • comentários

Bianca Andreescu, mesmo com 15 anos em 2015 sabia o que desejava e, sobretudo, o que era possível. E estava tão confiante que, na época, preencheu para si mesma um cheque pessoal do valor conquistado pela campeã do US Open.

No sábado, depois de derrotar Serena Williams por 6/3 e 7/5, e ganhar o título, ela realizou o desejo: um prêmio de US$ 3,85 milhões. Algumas horas depois, perguntei a Bianca se, quando era mais jovem, também havia preenchido cheques para ela mesma no caso dos outros três torneios de Grand Slam: Australia Open, French Open e Wimbledon. "Não. Só o US Open", disse ela.

Bianca Andrescu, adolescente canadense com muito talento e carisma, tinha todos os motivos para continuar sonhando grande. De todas as adolescentes talentosas invadindo a cidadela do tênis feminino, ela tem o jogo mais completo e o melhor temperamento para grandes jogos. Manter-se saudável tem sido um desafio, mas ela venceu oito jogos contra as 10 top do ranking na sua curta carreira, com todas as vitórias ocorrendo nesta temporada.

"Ela é a melhor de todas", disse Carling Bassett-Seguso, primeira adolescente prodígio do tênis, referindo-se a Bianca. Bassett-Seguso chegou às semifinais do US Open em 1984 e ocupou a oitava posição do ranking. Nesta segunda-feira Bianca assumiu a quinta posição. "Dormi duas horas esta noite porque fiquei muito empolgada com ela", disse Bassett-Seguro. "Ela é feroz na quadra, mas é também humilde em seus comentários e acho que será uma embaixadora fenomenal no futuro, não só do tênis canadense, mas do esporte e das mulheres".

Como outras jovens da WTA Bianca está tendo a preciosa oportunidade de fazer seu nome jogando contra Serena Williams, a maior tenista desta era. Derrotar Serena tem um efeito amplificador sem comparação no jogo feminismo e embora Serena esteja acima de tudo interessada em conquistar mais títulos aos 37 anos, sua presença e relevância perenes também são benefícios para o tênis.

Nada ajuda mais uma nova tenista a se tornar uma superestrela como derrotar uma superestrela na final de um Grand Slam. Lembre-se de Steffi Graf, que surgiu e derrotou Martina Navreatilova e Chris Evert. Ou Monica Seles que apareceu e derrotou Graf. E a própria Serena Willians que surgiu na sombra da sua irmã e depois chamou para si todas as atenções, derrotando Martina Hingis em 1999 e vencendo seu primeiro Grand Slam de simples no US Open, aos 17 anos de idade.

Bianca Andreescu se intimidou diante da aura de Williams no sábado?

"Naturalmente", disse ela. "Eu me preparei da melhor forma possível, como faço em cada jogo. Mas ter a oportunidade de jogar contra ela e na verdade vencer o jogo foi uma loucura".

Não tanto quanto outrora pareceria. Williams venceu 21 das suas 25 finais de simples importantes. Mas venceu apenas dois dos últimos oito campeonatos e perdeu quatro finais diretas desde que retornou às quadras após o nascimento do seu primeiro filho. Seu retorno inspirou outras atletas, como sua amiga Allyson Felix, atleta que nove meses após a gravidez venceu a corrida de 150 metros em Stockton, Califórnia, no sábado.

Mas quanto mais falhas Williams comete em grandes jogos, mais empoderadas suas potenciais rivais se tornam. Suas quatro últimas derrotas em finais importantes foram para quatro jogadoras diferentes.

Duas foram em Wimbledon em jogos contra Angelique Kerber e Simona Halep, ambas já detentoras de títulos dos principais campeonatos e que chegaram ao primeiro lugar no ranking. As outras duas derrotas foram no US Open contra Naomi Osaka, com 20 anos, que derrotou Serena na final do ano passado, e agora Bianca Andreescu, que tem hoje 19 anos.

Serena Williams também perdeu dois sets consecutivos na terceira rodada do French Open este ano para Sofia Kenin, americana de 20 anos de idade. Isso é muito poder perdido e provavelmente não será fácil para Serena, mesmo se ela contrariar as probabilidades mantendo-se saudável e conseguindo treinar e competir consistentemente, o que não foi o caso durante esta temporada.

Patrick Mouratoglou, seu treinador, fez pressão no domingo para ela ir em frente e em busca de novos sucessos. "Existe sempre a opção de desistir, a conselho daqueles que permitem que as frustrações dela prevaleçam", disse ele numa postagem na mídia social. "Outra opção é continuar a luta e vencer novos campeonatos de Grand Slam. É extremamente triste trabalhar tanto, desistir e fracassar".

E ele continuou, dizendo que uma das características de um campeão é "jamais desistir, não importa o que tiver de enfrentar, até atingir seu objetivo". "Serena é uma campeã. O esporte pode ser cruel, mas é também por isto que o amamos". A questão é saber até onde Williams consegue suportar a decepção neste último estágio da sua carreira.

Os sinais são contraditórios. Ela mostrou uma forma dominante no caminho para suas grandes finais. Derrotou Wang Qiang, 18º no ranking, por 6-1 e 6-0 e Elina Svitolina por 6-3 e 6-1 antes de enfrentar Bianca Andreescu. Em Wimbledon este ano, derrotou Barbara Strycova por 6-1 e 6-2 nas semifinais para depois perder para Halep.

É um bloqueio mental? Ou tem mais a ver com mudança de regime, com mais jogadoras de todas as idades agora capazes de absorver o poder e fúria competitiva de Serena e mostrar confiança própria sob a pressão de um Grand Slam? No momento parece uma combinação das duas coisas. Serena entrou na quadra no sábado como se tivesse intenção de vencer Andreescu com seu serviço e seus golpes da linha de base.

Mas quando Bianca mostrou capacidade de dar golpes profundos, respondendo ao serviço de Serena, esta começou a forçar o jogo e acabou fazendo oito duplas faltas e apenas 44% dos seus primeiros serviços foram convertidos em ponto, o que se deveu em parte à pressão de Andreescu.

Serena Williams com freqüência mostrou sua frustração em vez de se manter concentrada, e cometeu o tipo de erro por desequilíbrio nos golpes de fundo de quadra que sempre são um reflexo da tensão interna. Mas ela foi de um 1-5 no primeiro set a um empate no segundo por 5-5, mas perdeu vantagem de novo e parecia tensa e lenta para reagir nos dois jogos finais enquanto Bianca contra-atacava para se tornar a primeira canadense a vencer um título de simples num Grand Slam.

O que é um motivo de celebração e atenção, mais engrandecido quando a disputa é contra uma campeã da estatura de Serena Williams.

Tradução: Terezinha Martino

Estadão
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade