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Terapia, coaching e conversa viram armas contra problemas no Palmeiras

Com trabalhos individuais, clube reabilita Deyverson, corrige conduta de Felipe Melo e convence Dudu a ficar

15 mar 2019
04h43
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Os jogadores do Palmeiras se acostumaram nos últimos tempos a frequentar um outro ambiente além do campo de treino e dos estádios onde disputam as partidas. Entre sessões de terapia, conversas com a comissão técnica e reflexão, o clube tem conseguido contornar problemas de comportamento e até evitar baixas no elenco.

O atacante Deyverson é um exemplo recente desse trabalho. Depois de ter cuspido no corintiano Richard, o jogador passou a ter encontros com uma psicóloga para aprender a se controlar e a evitar novas expulsões tolas. Após 40 dias sem jogar, ele ganhou chance contra o Melgar, na terça-feira, e marcou um gol. "Sou um cara muito hiperativo, algumas vezes eu erro, como todo mundo. Mas estou aprendendo", afirmou.

O técnico Luiz Felipe Scolari e o presidente do clube, Mauricio Galiotte, participaram desse trabalho. O dirigente chegou a se encontrar com Deyverson na Academia de Futebol e deu uma bronca nele após o jogador ter gravado um vídeo, que disse ter sido de brincadeira, em que anunciava a saída do Palmeiras. Esses recados foram importantes para alimentar no jogador a vontade de voltar à equipe.

O volante Felipe Melo ouviu recado parecido. O diretor de futebol, Alexandre Mattos, e o técnico Felipão se reuniram com o jogador em agosto do ano passado para conversar sobre o excesso de expulsões. Desde então, ele nunca mais recebeu cartões vermelhos.

Quem é fã de terapia é o meia Bruno Henrique. O capitão do time campeão brasileiro intensificou o trabalho no ano passado com o intuito de se manter tranquilo e motivado. Em outubro, quando estava em grande fase, o jogador contou ao Estado que um dos segredos do seu bom momento era justamente a psicologia. "Todo mundo precisa de terapia. Algumas pessoas não gostam de admitir que têm problema. É um pouco de orgulho", disse. Já o atacante Willian faz sessões com um coaching particular para ampliar capacidades e traçar metas individuais.

Outra preocupação do Palmeiras é com Miguel Borja. O colombiano desperta no clube, curiosamente, inquietação oposta ao caso de Deyverson, por ser calmo demais. "Falta para o Borja a questão de vibração", comenta Felipão. Há dois anos no Brasil, o atacante mostrou em alguns momentos dificuldades com a adaptação ao futebol do País, além de timidez.

A mobilização do Palmeiras nos bastidores para resolver problemas dos jogadores se mostrou decisiva com Dudu. No clube desde 2015, ele deixou de ter a fama de temperamental e criador de problemas para se tornar um dos líderes do time no quesito técnico. O craque do último Campeonato Brasileiro também contou a participação da comissão técnica e da diretoria em momentos cruciais.

Em agosto do ano passado, Dudu estava em baixa com a torcida depois de demonstrar insatisfação com a escolha do clube de recusar uma proposta da China por ele. O atacante não vivia bom momento e ouvia algumas vaias nos jogos. Na mesma época, Felipão chegou e chamou o jogador para uma conversa para lhe transmitir confiança.

Dias depois, Dudu marcou o gol da classificação do Palmeiras na Copa do Brasil, diante do Bahia, e correu para abraçar Felipão, para agradecer pelo apoio. O clube voltou a trabalhar pelo atacante no fim do ano passado. A China voltou a querer levá-lo e a diretoria se reuniu com o jogador para convencê-lo a ficar. Além do aumento e da renovação, os dirigentes apresentaram a Dudu um plano de carreira e mostraram como poderia se tornar ainda mais ídolo do clube caso ficasse.

ANÁLISE - Rodrigo Falcão*

'No futebol, há muita resistência à psicologia'

Nas categorias de base das equipes é bem comum ter psicólogo, até pela questão legal. Já no profissional, poucos clubes têm. Pela cultura do esporte, há uma resistência à psicologia. No futebol tem uma questão machista, de preconceito, de não demonstrar vulnerabilidade e de pensar que fazer terapia é um problema. O futebol é conservador.

Seria fundamental os clubes terem mais psicólogos, até pela questão de pressão e da ansiedade dos atletas. É mais comum ter esse auxílio nos esportes individuais.

Na Europa a cultura é diferente. A seleção da Alemanha tem vários psicólogos, assim como times da Espanha, da Itália e da Inglaterra. Hoje, um técnico precisa delegar tarefas e o psicólogo pode ajudar nisso.

*Psicólogo do Esporte

Estadão

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