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Nadando contra a maré, surfistas negras buscam visibilidade e patrocínios

Modalidade que garante títulos ao Brasil oferece poucas oportunidades para atletas pretas e pardas, que estão fora do Circuito Mundial

7 nov 2021 17h04
| atualizado em 16/11/2021 às 09h56
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Depois de quase 14 anos somando bons resultados no surfe, como o tricampeonato santista e o título brasileiro de 2019, a paulista Julia Santos conseguiu o primeiro patrocínio da sua carreira somente em setembro deste ano. A atual campeã nacional, a cearense Yanca Costa, diz que terá boas notícias sobre apoios em 2022, mas que ainda não podem ser divulgadas. Negras e periféricas, Yanca e Júlia exemplificam como a diversidade étnica avança no surfe feminino depois de décadas remando contra a maré.

O movimento ainda é lento. Das 30 atletas do ranking feminino da Associação Brasileira dos Surfistas Profissionais (Abrasp) de 2019, o último completo antes da pandemia, apenas sete eram negras. Hoje, nenhuma atleta negra disputa o Circuito Mundial de Surfe. Por quase uma década, a cearense Silvana Lima foi a única a carregar a bandeira da representatividade.

"Não vejo preconceito no surfe em si, mas a gente sabe que a sociedade brasileira ainda é desigual. O surfe é um sintoma. A quantidade de surfistas não representa a população negra no geral", afirma Pedro Falcão, presidente da Abras.

Na Confederação Brasileira de Surfe (CBSurf), a base de dados é restrita. Das 99 mulheres cadastradas e ranqueadas na entidade (22% do total), apenas 6% delas responderam a autodeclaração de raça. Nenhuma se declarou preta.

Julia agora é patrocinada pela marca brasileira HD. Ela conquistou o chamado "patrocínio de bico", o principal, que garante um salário mensal e apoio por três anos. Agora, ela vai poder trocar o ônibus pelo avião nas provas nacionais, por exemplo. Também vai dar uma folga no orçamento doméstico. A mãe, a diarista Iolanda Nicanor, adiou por anos a troca da TV de tubo para ajudar no sonho da filha atleta. As duas moram em São Vicente, litoral de São Paulo.

 

"Não sou a figura que as marcas procuram, aquele estereótipo da pele clara e o cabelo loiro. Foi bem difícil aceitar, mas foi uma motivação a mais. Coisas boas aconteceram e finalmente chegou a oportunidade. Estou em êxtase", diz a atleta de 25 anos.

Rafaella Teixeira, vice-campeã brasileira profissional 2019 na categoria até 18 anos, tem apoiadores, mas ainda corre atrás de um patrocínio principal. "Antigamente deveria ser muito pior, mas a situação não melhorou tanto assim. A gente pode contar nos dedos quem tem patrocínio. Não é por falta de talento. Eu acredito que ainda continua esse preconceito", diz lamenta a atleta de 20 anos de São Sebastião (SP).

Kiany Cristina, um dos talentos da nova geração, sente falta de referências. "Não vemos os negros numa revista ou pôster. É triste quando chego em uma loja para me apresentar como uma atleta profissional do surfe", diz a atleta de 22 anos de Ubatuba (SP).

Tantos relatos sobre falta de apoio chamaram a atenção da jornalista e ex-surfista negra Érica Prado. Atleta nos anos 2000, campeã baiana e competidora do extinto SuperSurf, ela própria já havia sofrido com patrocínios escassos. Para ampliar a discussão sobre o tema, ela criou o perfil Surfistas Negras nas redes sociais. Hoje com mais de nove mil seguidores, a página procura aumentar a visibilidade das atletas e criar referências para quem está começando. No ano que vem, um encontro presencial vai dar novo impulso ao movimento.

A busca por espaço não acontece só no Brasil. No início do mês passado, o jornal The New York Times publicou reportagem mostrando como os negros passaram a surfar em grupos na Califórnia após serem hostilizados.

Tanto no Brasil como nos Estados Unidos, as grandes marcas demoraram a abraçar a diversidade étnica, tornando difícil a participação dos surfistas negros em competições internacionais. Nos últimos anos, a internet e as redes sociais permitem que esses atletas sigam um caminho diferente, atraindo a atenção ao tirar e postar as próprias fotos, vídeos e competições.

Assassinato de George Floyd

Na visão das atletas brasileiras, os avanços do surfe feminino negro têm um marco: os protestos que se seguiram à morte do negro americano George Floyd em maio do ano passado. O movimento ativista internacional Black Lives Matter (Vidas pretas importam) jogou luz sobre a discriminação racial e a violência policial nos EUA e se tornou um movimento social mundial. No Brasil, o assassinato de João Alberto Freitas no Carrefour de Porto Alegre (RS) , no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, reacendeu o debate.

"As empresas estão se movimentando. Depois dos protestos no mundo todo, todos descobriram que existe racismo no Brasil. Foi um ano positivo. Várias meninas que não tinham patrocínio agora têm. Mesmo que a passos lentos, vemos uma evolução", avalia Erica Prado. "Tivemos muitos protestos. As pessoas se unindo contra o racismo e o preconceito", completa Júlia Santos.

A luta por visibilidade obviamente tem trajetórias bem-sucedidas. Por dez anos, Suelen Naraísa teve o patrocínio da marca Nicoboco para a disputa do Circuito Brasileiro e conquistou dois títulos nacionais. Hoje, mesmo fora do calendário competitivo, a atleta de 37 anos conquistou o patrocínio da Roxy para divulgação dos produtos. Formada em Educação Física, ela montou sua própria escola de surfe em Ubatuba. Seu objetivo é ser técnica da seleção brasileira feminina de surfe.

"Quero continuar trabalhando com surfe. Agora estou um pouco mais fora da água, mas quero continuar passando meus conhecimentos", diz a professora.

Estadão
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