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Pesquisador resgata importância do Flu na história olímpica do Brasil

Na semana em que se celebra o centenário das primeiras medalhas do país, em Antuérpia, COB relembra papel-chave do Tricolor, que foi pioneiro em estruturas esportivas na época

7 ago 2020
12h07
atualizado às 12h07
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Na semana em que se celebra o centenário das primeiras medalhas olímpicas do país, em Antuérpia-1920, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) resgatou a importância do Fluminense nos primeiros capítulos da história do país no evento.

Jogos de Antuérpia 1920 abriram a participação olímpica do Brasil (Foto: Divulgação/COI)
Jogos de Antuérpia 1920 abriram a participação olímpica do Brasil (Foto: Divulgação/COI)
Foto: Lance!

Logo no primeiro dia de participação dos brasileiros em uma edição de Jogos Olímpicos, foram conquistadas as duas primeiras medalhas com Afrânio Costa, prata na pistola de tiro livre, e o bronze por equipes na mesma prova. No dia seguinte, foi a vez do ouro de Guilherme Paraense, na pistola rápida 30m. Os dois medalhistas individuais eram atletas do Fluminense. Mas se engana quem pensa que essa é a única ligação do "Tricolor das Laranjeiras" com o início do esporte olímpico brasileiro.

Foi no recém-fundado estande de tiro do clube que a equipe de tiro finalizou a preparação para Antuérpia 1920. E isso indo contra a grande parte da opinião pública.

- Na década de 1910 começou a se organizar o olimpismo brasileiro. O escritor Coelho Netto, cadeira de número 2 da Academia Brasileira de Letras, foi fundamental na difusão desse movimento. Ele era um entusiasta do desenvolvimento do esporte no país. Em suas crônicas, sempre defendeu o crescimento do futebol e de outras modalidades esportivas, pois acreditava que a prática era importante para a construção de valores morais e educativos na sociedade - explicou o jornalista e pesquisador do Fluminense, Dhaniel Cohen.

- Outros intelectuais, porém, como Lima Barreto e Graciliano Ramos, eram críticos ferozes. Graciliano, por exemplo, defendia apenas a promoção de esportes genuinamente nacionais, como porrete, cachação, queda de braço, entre outros - completou.

O início da organização do Movimento Olímpico no Brasil se dá, por exemplo, pela fundação do Comitê Olímpico do Brasil em 1914, a pedido de Raul do Rio Branco, embaixador e membro do Comitê Olímpico Internacional. No mesmo ano surgiu a Federação Brasileira de Sports, que dois anos depois passou a se chamar Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e que foi responsável por organizar a missão brasileira na Bélgica.

A concepção simultânea das duas entidades evidenciava o sentido complementar de suas funções: centralizar e coordenar os esportes em âmbito nacional e representar o Brasil no cenário esportivo internacional, não somente para os Jogos Olímpicos, mas para as competições do calendário das Federações Internacionais. Nesse cenário, o Fluminense, fundado por Oscar Cox em 1902, se tornou pioneiro em estruturas esportivas, incluindo o Estádio das Laranjeiras, o primeiro de cimento da América Latina.

- Entre 1916 e 1931, o clube teve como presidente Arnaldo Guinle, que ao longo de sua gestão fez inúmeras obras, construindo estádio, ginásio, piscina, quadras, tudo com o objetivo de incentivar a prática de inúmeros esportes pela sede - revelou Cohen.

Em 1919, pouco depois da realização do Sul-Americano de Seleções (atual Copa América) no Estádio de Laranjeiras, houve a inauguração de um moderno estande de tiro no Fluminense. Assim, alguns dos melhores atiradores do país, como Guilherme Paraense e Afrânio Costa, começaram a treinar no clube a partir de agosto de 1919. A preparação da equipe olímpica contou ainda com a presença dos gaúchos Sebastião Wolf (alemão radicado em Porto Alegre) e Dario Barbosa e de Fernando Soledade.

O resultado da preparação é bastante conhecido, três medalhas, sendo as duas individuais para os atiradores do Fluminense. No retorno ao país, a maior cerimônia em homenagem aos feitos extraordinários dos brasileiros não poderia ser em outro local: o belíssimo Salão Nobre das Laranjeiras.

- Epitácio Pessoa, presidente da República, e Arnaldo Guinle, presidente do Fluminense, deram uma placa para cada um reconhecendo o grande feito dos atletas para a imagem do Brasil - contou Cohen.

Uma prova da importância do Fluminense foi dada pelo próprio Afrânio, que foi o chefe da equipe de tiro e depois diretor da modalidade no clube. Ele pediu que seu acervo fosse doado ao Tricolor e, por isso, as medalhas de prata e bronze e as pistolas utilizadas na competição por ele estão expostas na Sala de Troféus na sede do clube.

- Ele era um torcedor apaixonado, sempre dizia que fez tudo pelo Fluminense e que o troféu era do clube. O Fluminense pode se orgulhar de ter a primeira medalha olímpica do Brasil porque, pelo que ele dizia, as medalhas eram do Fluminense e não dele - disse Cristina Balthazar, sobrinha neta de Afrânio.

Mas essa história não para por aí. Em 1922, o Brasil comemoraria o centenário de sua independência e era preciso um grande evento para marcar a data. O governo brasileiro, estimulado pelo sucesso do Sul-Americano de Seleções em 1919 e também empolgado com as primeiras medalhas olímpicas do país conquistadas em 1920, solicitou que o Fluminense organizasse os Jogos Olímpicos Latino-Americanos, precursor dos Jogos Pan-Americanos. A competição teve a aprovação do COI.

- O Fluminense já tinha as instalações esportivas mais modernas do continente, mas precisaria adaptar o seu espaço para o megaevento. O Governo se comprometeu a ajudar financeiramente, mas não arcou com nada e coube ao próprio Fluminense realizar todos os investimentos para viabilizar os jogos, que foram um sucesso, contando com dezenas de milhares de torcedores presentes para acompanhar as competições - explicou Dhaniel.

A competição contou com a participação de 500 atletas de Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, no período de 27 de agosto a 15 de outubro, disputando 12 modalidades esportivas, juntamente com mais 700 de outros eventos esportivos internacionais paralelos, com um público total de 162.000 espectadores. Durante o evento fez-se um acordo histórico internacional no sentido de se criarem outros Comitês Olímpicos Nacionais na América do Sul, contando inclusive com a presença do Conde Henri de Baillet Latour, vice presidente do COI.

O sucesso da competição foi tão grande que dois dos principais organizadores, Arnaldo Guinle, então presidente do Fluminense, e José Ferreira Santos, que viria a ser presidente do COB, foram eleitos membros do COI (21ª Sessão, Roma) no ano seguinte. Mais uma prova da fé do Movimento Olímpico no esporte do Brasil, que começou com o convite do Pierre de Coubertin a Raul do Rio Branco para integrar o COI em 1913 e teve grandes personagens, como Afrânio Costa e Arnaldo Guinle, e clubes, como o Fluminense, como propulsores das atuais 129 medalhas olímpicas.

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