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Análise: os clubes de futebol precisam profissionalizar seu conteúdo

Necessidade dos clubes de futebol serem gestores, em nível profissional, de seu conteúdo, ganha espaço para o debate com a Medida Provisória 984 assinada neste mês

30 jun 2020
11h49
atualizado às 15h19
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Barcelona é um dos clubes europeus com uma gestão esportiva avançada (Foto: JOSE JORDAN / AFP)
Barcelona é um dos clubes europeus com uma gestão esportiva avançada (Foto: JOSE JORDAN / AFP)
Foto: Lance!

A polêmica Medida Provisória 984, publicada em 18 de junho de 2020 - que estabelece que o direito de transmissão de partidas é do clube mandante - muito provavelmente não vai vingar no curto prazo. Mas abriu uma discussão que não tem volta: a necessidade dos clubes de futebol serem gestores, em nível profissional, de seu conteúdo.

Até mesmo porque a gestão do conteúdo vai muito além dos direitos das imagens de uma partida. Passa pela gestão profissional, por parte do clube de futebol, de uma plataforma completa de conteúdo, focada nas mídias digitais. Principalmente no telefone celular.

Plataformas de conteúdo, se bem estruturadas e geridas, podem ser um canal muito relevante na cobertura dos bastidores do clube, sem ser "chapa-branca", sem ser aquele conteúdo bobo, que exalta as cores e os jogadores do clube.

Pelo contrário, o clube deve oferecer conteúdo de qualidade, com embasamento técnico, para o torcedor entender o momento do elenco, dos treinos. Deve também tratar as polêmicas com transparência e com objetividade - com o otimismo inerente à mídia esportiva clássica.

Mas a capacidade de geração conteúdo por um time de futebol, pasme, vai muito além do futebol: pode envolver a curadoria e produção de conteúdo regional, referente ao estado e cidade a qual o clube pertence.

Quem não gostaria, por exemplo, de acessar um portal de conteúdo do Esporte Clube Bahia, com informações sobre esportes, cultura e turismo relacionadas com o seu vibrante estado? Aliás, o Tricolor de Aço é um dos times mais preparados para ser um curador de conteúdo, com causas de inclusão e diversidade muito bem-sucedidas.

Bahia planeja conteúdos exclusivos como novo projeto (ecbahia.com)
Bahia planeja conteúdos exclusivos como novo projeto (ecbahia.com)
Foto: Lance!

Referências internacionais

Em países onde a gestão esportiva é mais avançada, exemplos não faltam: desde o Barcelona, que é "mais que um clube", até o Bayern de Munique, que desenvolveu sua plataforma de mídia em nível profissional e a estabeleceu como uma nova unidade de negócios do clube.

Se formos para o nível de federações e ligas, tem o exemplo da La Liga, com um projeto que valoriza os clubes, o campeonato e a excelência do futebol espanhol, como um produto midiático e cultural.

Se olharmos para os esporte americanos, então, teremos verdadeiras aulas de gestão. Um dos veículos mais completos de hockey sobre o gelo é justamente a plataforma da National Hockey League (NHL), com conteúdo por time, e-commerce, estatísticas, games e outros serviços. Um mega portal.

Ou ainda National Basketball Association (NBA), que promove a exuberância do basquete americano para o mundo todo, bem como suas franquias, como o Boston Celtics - que, por sua vez, tem um processo muito rico de conteúdo e entretenimento, financiado por cotas de patrocínio específicas.

É evidente que esses casos acima não foram criados da noite para o dia. Foram anos de gestão lúcida, boas práticas e processos consistentes. Portanto, o ambiente da administração do futebol brasileiro vai ter que se profissionalizar para estruturar plataformas potentes de conteúdo.

Profissionalização urgente

Daqui para frente, os clubes brasileiros vão ter que correr atrás, para tirar o atraso (e o estrago) causado por gestores amadores e mal-intencionados, que depreciaram estruturas e verdadeiros patrimônios culturais.

Afinal, para gerir os valiosos direitos de transmissão - foco da tal MP - os clubes vão precisar de uma nova mentalidade. Vão ter que entender de processo, de gerenciamento, saber que os novos modelos demandam continuidade e sustentabilidade. Será mandatório acabar com projetos politiqueiros, que favorecem grupos políticos, jogam dinheiro fora e não sobrevivem às trocas de diretorias.

Os novos gestores agora vão ter que dominar termos modernos de administração e comunicação, tais como "Brand Publishing" (capacidade de ser um veículo de mídia profissional), "Sportainment" (combinação de esporte com entretenimento), relacionamento com o torcedor, monetização e fidelização.

Trocando em miúdos: essa turma vai ter que se profissionalizar, para eliminar o amadorismo que hoje ainda reina entre a cartolagem. O clube que não se profissionalizar, simplesmente corre o risco de extinção. Por outro lado, os clubes que saírem na frente vão atropelar os concorrentes.

Essa demanda por profissionalização, portanto, é urgente. Na verdade, já está caindo de madura e a tal da MP 984 é um gatilho muito poderoso pois, para gerir direitos, é fundamental trabalhar com transparência e eficiência. E, sob uma boa gestão, todos os recursos passam a ser bem explorados. Sobretudo o conteúdo riquíssimo que cada clube tem potencial para desenvolver, curar, distribuir e representar. Dentro e fora de campo.

*Paulo Henrique Ferreira é jornalista, diretor da Barões Digital Publishing, empresa brasileira especializada em brand publishing. Entre outras posições no mercado da internet, foi gestor de mídias digitais do LANCE! entre 2008 a 2015.

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