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Está na hora de repensar as Olimpíadas

Jogos de Tóquio correm o risco de se tornarem um evento hiperdisseminador que, ao longo de três semanas, pode causar mortes e doenças em todo o Japão

16 abr 2021
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Chegou o momento de apertar o pause e reimaginar as Olimpíadas. Talvez até esteja na hora, acredito eu, de encerrar todo esse empreendimento de vez. Primeiro, vamos pensar no curto prazo. Em julho, começará em Tóquio mais uma edição caríssima dos Jogos Olímpicos, originalmente programados para 2020, mas adiados por causa da pandemia da covid-19. O momento continua horrível.

O Japão tem trabalhado muito para conter o coronavírus, mas agora os casos vêm aumentando e a taxa de vacinação do país está diminuindo. Os organizadores acabaram de redirecionar o revezamento da tocha planejado passar pelas ruas de Osaka, onde uma autoridade de saúde disse que a disseminação de novas variantes levou o sistema médico à "beira do colapso".

É a este ambiente conturbado que chegarão 11 mil atletas de todos os cantos do globo, junto com treinadores, comissões técnicas, dirigentes, profissionais da mídia e muito mais.

Os Jogos de Tóquio correm o risco de se tornarem um evento hiperdisseminador que, ao longo de três semanas, pode causar mortes e doenças em todo o Japão e muito além.

O público japonês está cada vez mais atento ao risco para a saúde. Também está ciente das estimativas que mostram que o custo dos jogos subiu para um recorde de US$ 15,4 bilhões, um aumento de US$ 3 bilhões só no ano passado. Pesquisas recentes mostram que cerca de 80% dos japoneses dizem que os jogos deveriam ser adiados novamente ou até mesmo cancelados.

Depois vêm os Jogos de Inverno, agendados para fevereiro de 2022 em Pequim e arredores. A expectativa tem se centrado principalmente na questão do boicote diante das repetidas acusações de que o governo chinês brutaliza seu próprio povo. A China nega tais alegações, mas o governo Biden, o Parlamento canadense, autoridades das Nações Unidas e até 180 organizações de direitos humanos disseram que a China está envolvida em genocídio contra minorias étnicas muçulmanas.

Tudo isso se soma ao histórico brutal do governo chinês de repressão aos dissidentes em Hong Kong e no Tibete, que seus líderes continuam negando.

Qual é a melhor maneira de responder? O governo Biden deve promover um boicote total que mantenha os atletas em casa, mesmo quando um ministro das Relações Exteriores chinês alertou na semana passada sobre uma "resposta chinesa robusta"?

Os patrocinadores corporativos dos Estados Unidos devem se retirar? As emissoras americanas deveriam se recusar a mostrar a China sob uma luz favorável?

Os atletas de inverno vão a Pequim enquanto os diplomatas americanos se mantêm afastados? Alguns especialistas acreditam que os atletas podem enviar os sinais mais nítidos, fazendo protestos nos pódios de medalhas, durante a cerimônia de abertura ou nas competições.

Mas isso é pedir muito a um grupo excluído do verdadeiro poder pelo Comitê Olímpico Internacional, que ainda tem a Regra 50, um estatuto que proíbe estritamente manifestações de dissidência. Ir contra essa regra é correr o risco de ser impedido de competir no futuro.

"Eu ficaria apavorado de protestar na China e ficarei apavorado se algum dos meus companheiros de equipe americanos decidir se levantar" e dar voz às suas opiniões enquanto estiver lá, disse Noah Hoffman, esquiador duas vezes campeão olímpico que agora é membro do conselho da Global Athlete, uma organização sem fins lucrativos que busca reformar os jogos.

Hoffman observou que o Comitê Olímpico e Paraolímpico dos Estados Unidos recentemente concordou em permitir o protesto dos atletas, mas, até que o COI faça o mesmo, as vozes dos atletas continuarão silenciadas.

Lembre-se de que em 2014 os Jogos Olímpicos de Inverno foram sediados em Sochi, na Rússia. O país anfitrião não apenas conduziu uma vasta operação de doping durante o evento como também anexou a Crimeia logo depois, gerando ampla condenação internacional. Por que o COI concedeu os Jogos de 2022 a mais uma autocracia com péssimo histórico de direitos humanos?

Em 2015, quando foi tomada a decisão final, restavam duas opções: a China (que realizou os jogos de verão sete anos antes) e outra ditadura, o Cazaquistão. Nações que pareciam ser anfitriões mais ideais, como Noruega e Suécia, saíram da disputa - parte de uma tendência ao ceticismo sobre os custos de sediar uma Olimpíada.

As Olimpíadas modernas, fundadas na década de 1890 como uma forma de mostrar "uma vida baseada na alegria que se encontra no esforço, no valor educacional do bom exemplo e no respeito aos princípios éticos fundamentais e universais", agora são sinônimo de escândalo de muitas variedades, incluindo doping, suborno e abuso físico de atletas.

Está na hora de fazer as grandes perguntas sobre o empreendimento olímpico.

Os benefícios compensam os custos?

As Olimpíadas devem continuar existindo se continuarem causando tantos danos?

Como poderia ser uma reforma genuína?

Aqui estão algumas ideias.

Parar de conceder jogos a nações autoritárias que desrespeitam abertamente os direitos humanos.

Dar mais poder aos atletas - não apenas para que possam protestar nos pódios, mas para que sejam parceiros na reforma de todo o movimento olímpico.

Em vez de saltar de lugar em lugar por todo o mundo, pensemos nas alternativas. Talvez estacionar os jogos permanentemente em dois locais bem usados - um para o verão, outro para o inverno. Isso cortaria custos, danos ambientais e deslocamento. Também acabaria com a agitação dos processos de licitação que são um convite à corrupção.

Ou então descentralizar. Realizar eventos individuais em locais já construídos em todo o mundo durante um período de três semanas. Claro, teríamos de desistir do espetáculo de uma cerimônia de abertura suntuosa e da ideia de atletas de diferentes esportes se misturando nas Vilas Olímpicas. Mas, num mundo interconectado e cheio de espetáculos pródigos, será que tudo isso ainda é uma obrigação?

Admito que não há muitas respostas diretas, mas está na hora de trabalhar em direção a um novo futuro. / Tradução de Renato Prelorentzou.

Estadão
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