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Como as Olimpíadas podem proteger 78 mil voluntários contra o coronavírus?

Eles estão recebendo pouco mais do que algumas máscaras, um pouco de desinfetante para as mãos e orientações de distanciamento social que podem ser difíceis de seguir

5 mai 2021 15h10
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Para as cidades-sede de Olimpíadas, uma das chaves para o sucesso nos Jogos é um exército de voluntários desempenhando alegremente uma série de funções, como buscar água, dirigir veículos olímpicos, traduzir falas de atletas ou levar medalhas para cerimônias. Se os reagendados Jogos de Tóquio seguirem conforme planejado neste verão, cerca de 78 mil voluntários terão mais uma responsabilidade: prevenir a propagação do coronavírus, tanto entre os participantes quanto entre eles próprios.

Para a proteção, os voluntários estão recebendo pouco mais do que algumas máscaras de pano, um frasco de desinfetante e mantras sobre distanciamento social. A menos que entrem na classificação etária da lenta campanha de vacinação japonesa, eles não serão inoculados contra o coronavírus. "Não sei como conseguiremos fazer isso", disse Akiko Kariya, 40 anos, paralegal em Tóquio que se inscreveu para ser intérprete voluntário. O Comitê Olímpico "não nos disse exatamente o que eles vão fazer para nos manter seguros".

Enquanto os organizadores se esforçavam para garantir ao mundo que Tóquio conseguiria realizar os jogos no meio da pandemia, os voluntários se viram abandonados à própria sorte para descobrir como evitar a infecção. Muito do planejamento para as Olimpíadas adiadas tem algo de intuitivo. A menos de três meses da cerimônia de abertura, os organizadores ainda não decidiram se haverá torcida presencial, nem determinaram quem, além dos atletas, será testado regularmente.

Dezenas de milhares de participantes chegarão a Tóquio vindos de mais de 200 países, após quase um ano em que as fronteiras do Japão ficaram fechadas para estrangeiros. As atribuições dos voluntários os colocarão em contato com muitos dos visitantes olímpicos, entrando e saindo da "bolha" que abrangerá a Vila Olímpica e outros locais. "Há muitas pessoas que precisam entrar e sair da bolha, e elas não estão protegidas de forma alguma, nem mesmo sendo testadas", disse Barbara Holthus, voluntária e diretora adjunta do Instituto Alemão de Estudos Japoneses em Tóquio. "Eu vejo o risco de um evento super-propagador".

Um folheto distribuído aos voluntários os aconselha a pedir aos visitantes que fiquem a pelo menos 1 metro de distância. Durante os turnos, eles devem desinfetar as mãos com frequência. Ao oferecer ajuda a alguém, devem evitar olhar diretamente para a pessoa e nunca falar sem máscara. "Usar máscara e lavar as mãos são coisas muito básicas, mas são as coisas mais importantes que podemos fazer", disse Natsuki Den, diretora sênior de promoção de voluntários do comitê organizador de Tóquio.

"As pessoas costumam dizer: 'Isso é muito básico, será que é tudo que podemos fazer?'", Den disse. Mas se cada voluntário implementar essas medidas básicas, disse ela, "isso pode realmente limitar o risco. Além disso, é difícil pensar em quaisquer contramedidas mágicas, porque elas realmente não existem".

Mesmo com a maioria do público japonês se opondo a sediar as Olimpíadas este ano, muitos voluntários dizem que estão comprometidos, pelo menos em princípio, a promover o companheirismo internacional após mais de um ano de isolamento. (As fileiras sofreram um golpe considerável quando cerca de 1 mil voluntários desistiram depois que o primeiro presidente do comitê organizador de Tóquio, Yoshiro Mori, fez comentários sexistas).

Mas os voluntários estão preocupados com sua própria saúde, bem como com a segurança dos atletas e dos outros participantes olímpicos, especialmente porque Tóquio vem passando por novos picos de casos de vírus. A capital agora está em estado de emergência.

"Estou com medo de pegar o vírus e não apresentar sintomas e transmiti-lo sem querer aos atletas", disse Yuto Hirano, 30 anos, que trabalha numa empresa de tecnologia em Tóquio e foi designado para ajudar os atletas nos bastidores dos eventos paralímpicos de bocha paralímpica, um esporte com bola. "Eu quero me proteger para que eu possa protegê-los".

Além dos voluntários olímpicos, os organizadores precisam contratar profissionais de saúde para a equipe dos Jogos. Normalmente, médicos e enfermeiras também se voluntariam para trabalhar nas Olimpíadas, mas este ano, com o sistema de saúde sobrecarregado por causa de um ano de luta contra o coronavírus, os profissionais começaram a recuar.

"Estamos surpresos com essa conversa solicitando o envio de quinhentas enfermeiras para as Olimpíadas de Tóquio", disse a Federação Japonesa de Sindicatos de Trabalhadores Médicos em comunicado publicado em seu site, acrescentando que "agora não é a hora de Olimpíadas, é hora de contramedidas contra o coronavírus".

À medida que a pandemia avança, alguns voluntários não médicos fazem de tudo para se proteger. Yoko Aoshima, 49 anos, que ensina inglês numa faculdade de administração em Shizuoka, a cerca de 145 quilômetros de Tóquio, reservou hotel para os dias em que deve trabalhar, a um custo de 110.000 ienes, ou cerca de US $ 1.000. Isso significa que ela não terá que se deslocar diariamente. Para evitar o transporte público de Tóquio, ela planeja comprar uma bicicleta quando chegar à cidade para se deslocar até o estádio de hóquei, onde deve cumprir alguns turnos.

Mas Aoshima, que decidiu se voluntariar em parte para honrar o legado de seu pai, um ex-professor de educação física, se pergunta como protegerá sua família quando voltar para casa após os Jogos. "Quando eu voltar para Shizuoka, será seguro para minha família ficar comigo?", Aoshima perguntou. "Será que vou poder voltar ao trabalho?". Ela disse que já havia comprado alguns testes caseiros de coronavírus para usar depois das Olimpíadas. / Tradução de Renato Prelorentzou

Estadão
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