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Atletas olímpicos entram num novo evento arriscado para Tóquio: furar a fila da vacina

Algumas nações vêm dando prioridade aos esportistas. Outras acham que eles têm de esperar a sua vez. Essas decisões podem determinar se os Jogos serão um espetáculo ou um evento disseminador do vírus

2 mar 2021
08h10
atualizado às 08h30
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Nos cálculos que vêm sendo feitos sobre como distribuir as doses limitadas da vacina contra o coronavírus, o consenso global é no sentido de iniciar a vacinação por determinados grupos: médicos e enfermeiros, pessoas doentes e idosos, trabalhadores na linha de frente e professores. Normalmente, em nenhum momento, os atletas de elite seriam incluídos na discussão.

Mas é precisamente este o debate que ocorre hoje em todo o mundo nestes meses finais antes dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Não é apenas uma questão de bioética. Como os governos individualmente avançando com a vacinação, os próximos meses irão determinar se o evento será uma catártica celebração de massas do esporte internacional ou um evento super disseminador global com duração de um mês.

Em qualquer outro ano, os atletas, jovens, saudáveis e obviamente com ótimo condicionamento físico, estariam no final da fila da vacinação. Neste ano, contudo, com a Olimpíada no Japão, onde o número de casos de coronavírus vem crescendo, tendo obrigado muitas das grandes cidades do país a adotarem estado de emergência no mês passado, a questão se tornou bem mais problemática.

Um número crescente de países, como Índia, Hungria e Israel, já anunciou que os atletas olímpicos serão colocados nas primeiras filas de vacinação. Em fevereiro, o presidente do México colocou os atletas no grupo prioritário, junto com trabalhadores da área médica e professores. A Lituânia foi ainda mais rápida, pois há semanas já começou a vacinar seus atletas.

No caso de muitos países, a vacinação antecipada dos esportistas é um esforço para evitar casos e interrupções intempestivas no período precioso de treinamento. Nem os organizadores japoneses, tampouco o COI - Comitê Olímpico Internacional - exigirão prova de vacinação ou períodos de quarentena para quem participar ou competir nos Jogos, mas todos os envolvidos serão submetidos a testes regulares para o vírus, sejam ginastas, treinadores, jornalistas e autoridades que estiverem no Japão.

Outros comitês olímpicos nacionais, achando que se trata de um dever moral, ou temendo uma reação do público, declararam publicamente que não solicitarão tratamento preferencial para os atletas serem vacinados, apesar de particularmente ser o seu desejo.

"Certamente não acho que há razão para os atletas terem um tratamento especial", afirmou Evan Dunfee, corredor de marcha atlética de elite do Canadá, país onde os atletas, até agora, não têm prioridade em termos de vacinação.

Mas mesmo os especialistas em ética estão divididos quanto à pertinência - e as consequências à saúde global - de os atletas olímpicos furarem a fila.

"Os atletas são trabalhadores essenciais", disse Arthur Caplan, professor de ética médica na Escola de Medicina da Universidade de Nova York, repercutindo a opinião expressa pelos governos da Dinamarca, Sérvia e Filipinas, que afirmaram colocar os esportistas olímpicos na primeira fila da vacinação.

Dick Pound, membro do Comitê Olímpico Internacional, do Canadá, sugeriu em janeiro que "separar 300 ou 400 vacinas de alguns milhões", para os atletas canadenses, não deveria provocar qualquer indignação pública. Mas muitos políticos, líderes esportivos, atletas, e cidadãos - milhões deles ansiosos para serem vacinados o mais breve possível - discordam. E, assim, o debate tem colocado frente a frente os que apelam a uma moralidade bioética e os que defendem que exceções sejam feitas em prol do bom senso em tempos extraordinários. As Olimpíadas, afinal, reunirão representantes de mais de 200 países que voltarão para casa em todos os cantos do globo depois de algumas semanas de competição.

Em entrevista, Dunfee criticou Pound por sugerir que os atletas canadenses deveriam ter prioridade na vacinação. Segundo ele, pelo contrário, os atletas têm o dever de serem modelos na sociedade.

Esta tem sido a posição oficial até agora em países como Estados Unidos, Grã-Bretanha e Itália, entre outros. "Os atletas nos Estados Unidos concordam que devem esperar pela sua vez na fila", afirmou Bree Schaaf, ex-ginasta olímpico que agora preside o Conselho Consultivo do Team USA Athletes.

Quando Sarah Hirshland, diretora executiva do Comitê Olímpico e Paralímpico dos Estados Unidos, se reuniu com autoridades do governo em fevereiro, ela afirmou que o comitê seguirá as diretrizes de saúde pública nacionais, mas ofereceu uma possível solução em que os atletas seriam vacinados em meados de junho. Do mesmo modo, Michael Schirp, porta-voz da equipe alemã, observou que há um aspecto delicado na comunicação das organizações esportivas com as autoridades, expressando o desejo de seguir as mesmas regras como todos os demais e a urgência da vacina faltando poucos meses para os jogos.

"Dissemos que não queremos furar a fila, mas seríamos gratos se nossos atletas fossem vacinados o mais rápido possível", disse ele. "Deste modo tentamos dar um sinal, mas não queremos parecer mesquinhos".

Tudo isto tem constituído um dilema para o COI e os organizadores dos jogos de Tóquio. Quando os atletas chegarem ao Japão em julho, entrarão num país que não estará nem um pouco próximo da imunidade de rebanho. O Japão começou a vacinar os trabalhadores na área da saúde somente em meados de fevereiro, e não planeja inocular cidadãos mais idosos até meados de abril. Taro Kono, ministro de governo encarregado da distribuição da vacina, afirmou recentemente que "os jogos não entraram, de maneira alguma, no meu cronograma".

Milhares de pessoas não vacinadas vindas de centenas de países, ali reunidas, isto não é absolutamente o ideal. Mas de outro lado, o fato de os atletas, em todo o mundo, passarem na frente na fila da vacinação, não oferece uma boa imagem para uma Olimpíada já envolvida com problemas de atrasos, excesso de despesas e a insatisfação do público.

A resposta das autoridades olímpicas e organizadores locais tem sido delegar a responsabilidade para os governos e comitês nacionais, insistindo para eles encontrarem alguma maneira de terem seus ginastas e técnicos vacinados, declarando que os protocolos nacionais devem ser respeitados e esperando que o resultado seja o melhor possível.

Giovanni Malagò, presidente do Comitê Olímpico Italiano, disse ao jornal La Repubblica que sabe que seus colegas em outros países vinham solicitando vacinas para seus atletas. "Nós jamais pediremos e não desejamos fazê-lo", afirmou.

Mas talvez ele tenha de pedir. Muitos atletas italianos - o país espera enviar 300 ao Japão - poderão ser vacinados em breve. Um porta-voz do comitê italiano disse que 60% dos seus ginastas pertencem a clubes afiliados do Exército italiano, o que os coloca automaticamente na lista prioritária de vacinação.

"Sei que há muitos atletas que acham que é justificado terem prioridade", disse Dunfee, do Canadá. "Mas a opinião pública está tão veementemente contra isto que você não vai convencer ninguém e nem ganhar pontos assumindo essa posição". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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Estadão
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